DECODIFICANDO A IDEOLOGIA SOCIALISTA [CÓDIGO 9]

Código 9: Desmistificando o Mito Esquerdista

“Aqui estão todos os componentes neste sistema de crítica cultural: primeiro, o ciclo da decadência e do renascimento cultural, o novo e o velho oscilando de acordo com a proximidade com a eternidade interminável do mito irracional e arrebatadoramente compulsivo; segundo, a premissa de que todos os domínios da cultura – arte, governo, religião – estão unidos e, portanto, fadados a florescer ou fenecer de acordo com o lugar da cultura na eterna montanha-russa da intimidade e da separação do eterno tempo de primavera; por último, a significância final dada aos critérios estéticos ao preço de absolutos morais, salvação concebida no mundo e não como viesse de fora dele – Dionísio contra o Crucificado.” J. Stoup, sobre Nietzsche

Se a esquerda política parece desvencilhada de seu passado marxista, sua insistência em uma teoria que acredita em “classes sociais”, tão bem aceita que se confunde com uma verdade incontestável da análise social, continua sendo correligionária das velhas doutrinas do chamado “pensamento classista” e do materialismo histórico-dialético.

A crença é a de que existem classes sociais (taxonomia mais estanque do que “espécie”, “gênero” ou “família”) que estão em luta pelo mesmo quinhão. A teoria marxista, ainda que abra O capital explicando o que é uma mercadoria, tem dificuldades em entender que riqueza é criada, e não tomada de um pelo outro, existindo sempre em quantidade idêntica no mundo.

Assim, Marx (e nenhum caudatário da esquerda moderna escapou desta conceituação, mesmo os esquerdistas mais anti-marxistas de todos) conclui que se alguns possuem riqueza (em sua época, a classe burguesa era a que estava enriquecendo, com a nobreza perdendo sua antiga opulência) é porque eles estão tomando tal riqueza de outra pessoa. Surge a teoria da exploração, que saiu com morte cerebral diagnosticada após ser rebatida por Eugen von Böhm-Bawerk, no seminal A Teoria da Exploração do Socialismo-Comunismo (livro que, para manter esquerdistas na esquerda, é sumariamente ignorado na Academia).

Os argumentos econômicos são bem conhecidos dos liberais. A esquerda, todavia, não os conhecendo, crê que não funcionam, com a superstição de que liberalismo é qualquer coisa que não funcionou, exceto o que é o liberalismo de fato (o sistema econômico da Suíça, Chile, Canadá, Estônia, Reino Unido, Alemanha, Áustria, Japão, Israel e estes outros países “subdesenvolvidos”).

Contudo, há também um mito fundador no marxismo, para mantê-lo tão atrativo a jovens, a despeito de seu fracasso prático. Com efeito, marxistas apelam tanto ao rigor da estatização para evitar a “desigualdade” e a “burguesia” que preferem expropriar os ricos para torná-los iguais aos pobres, e comemorar tal feito como uma vitória, do que reconhecer o fracasso marxista-estatal em enriquecer os pobres para torná-los iguais aos ricos.

No discurso, esquerdistas falam sempre em “reforma” (já que o termo “revolução” perdeu o apelo de marketing) contra o capitalismo, mas na prática, todos preferem ter o menor salário da Suíça, da Coréia do Sul, da Holanda ou de Luxemburgo do que os maiores salários de Cuba, Vietnã, Venezuela, Zimbábue, Coréia do Norte ou Congo, que possuem sistemas que eles defendem. Na prática, fogem espavoridos da sua própria sombra como qualquer cubano usando geladeira como bote para fugir do materialismo histórico-dialético posto em prática.

Isto se dá não por argumentos econômicos, completamente divorciados do que esquerdistas lêem. Tal se dá por uma vocação mitológica no marxismo, que buscou substituir a sabedoria antiga por uma Sião terrena, o que o liberalismo, técnico e analítico, não possui. O que também explicará a torção representada pela esquerda 2.0, que começou apenas nesta década de 10 a vicejar no Brasil.

O filologista e mitólogo francês Georges Dumézil ficou famoso por seus estudos das sociedades proto-indo-européias, percebendo uma correlação frequente de poder e soberania nos arranjos sociais destes povos. Nascia a hipótese trifuncional de classes sociais nas sociedades antigas (classes entendidas em sentido vernacular e correto, como funções sociais tão adentradas no ser público que a função do indivíduo se confunde com sua própria constituição individual – não como as falsas “classes sociais” da sociologia moderna).

Estas funções, comuns a todos estes povos, mesmo que com nomes e variações bastante distintas entre povos que variam da Rússia e da Índia a Portugal e Noruega, são da soberania sagrada, a força e a fecundidade.

Contudo, a soberania política e/ou religiosa (sobretudo em sociedades cósmicas , na terminologia de Eric Voegelin), é uma categoria dual, como Dumézil iria posteriormente demonstrar. De um lado, há o rei-mago (raj, rex), de outro, o jurista-clérigo (brahman, flamen).

A figura do jurista ou do clérigo, como conhecida em nossa própria sociedade, atua durante a paz, estabelecendo regras de conduta, pré-definidas ou transcendentalmente reveladas (como a proibição do assassinato). Ele controla através da criação de laços (nexum) e também por dívidas. É a figura de Mitra na Índia, de Numa em Roma, de Têmis na Grécia, mesmo de Miguel na hagiografia semita.

Já o rei-mago é a figura do grande conquistador que toma seu direito pela força e inicia a violência, granjeando assim seu poder. É o rei ou deus cuja soberania é definida por laços mágicos ou obrigações. Seu reinado é o do poder pela força – ainda que sem uma definição fixa a priori sobre sua moral ou justiça. É a figura de Varuna na Índia, Romulus em Roma, Zeus na Grécia. Os deuses da conquista e dominação.

Em um livro não coincidentemente chamado Mitra-Varuna, em que trabalha este aspecto dual da soberania através dos povos, Dumézil analisa como a diferença da relação de força-magia da figura de Varuna, o rei-mago, deus violento da conquista e da obrigação imposta, e do legislador racional, representado por Mitra, que inicia a soberania jurídica por pactos (mutuum) e fé.

Esta última figura do legislador preserva a sociedade não pelo mando, e sim pela validade de contratos e pela distribuição e pelo cumprimento de responsabilidades.

Estas duas forças mitológicas encontram eco fácil na discussão política moderna, ainda mais em sociedades que cada vez mais copiam de mal a mal suas influências indo-européias.

Ora, é fácil enxergar como há figuras políticas contemporâneas que apresentam seu projeto de poder pela conquista e soberania, seja “lícita”, pela conquista de votos, ou pela conquista forçada de todo o sistema anterior através da violência. Qualquer golpe de Estado, justo ou não, encontra antes ecos em Varuna, em Cronos devorando os próprios rebentos após mutilar seu pai Urano, para ter um fim torpe justamente pelas mãos do mais frágil de seus filhos, Zeus – este também um deus conquistador de soberania.

Também há figuras legislativas buscando uma ordem social não calcada na violência e num projeto central (considerado ou não justo), mas sim na mútua adesão voluntária a pactos firmados na paz, buscando a ordem não em um projeto de justiça contra uma injustiça (suposta ou não) anterior, mas antes na fé mútua e pública, na responsabilidade e no estabelecimento de regras a serem seguidas de livre vontade.

O primeiro projeto, o da força, é o modernismo denunciado por C. S. Lewis como um caminho aberto para aaceitação de tiranias.

Isto é, uma visão de mundo que queira corrigir abstrações (a desigualdade, o racismo, o machismo, a homofobia, a visão errada das pessoas) não pode enxergar ações individuais, e sim forças cósmicas que só podem ser corrigidas pela tomada de poder total, pela força e por um projeto não baseado no livre contrato, mas na tomada de poder para se obter tal “justiça”.

Por isto, C. S. Lewis percebia que desde Thomas Hobbes e seu Leviatã, tornou-se comum às pessoas de mentalidade que abstraía da realidade ou reformistas sociais aceitarem a tirania não apenas como desculpável, mas mesmo como a única forma de corrigir a sociedade. Não se pode corrigir uma abstração de injustiça, real ou falsa, claramente definível ou sem regras claras, por livre contrato.

É o mundo de Hobbes e Maquiavel, de Marx e Hitler, de Lenin e Pol-Pot, de Chávez e Hobsbawm. Críticos da “moral burguesa” da troca livre, preferindo corrigir toda a sociedade por um plano central, aparentemente justo ou não, pela tomada do controle total de seus laços, sua mentalidade, seus símbolos, sua cultura, sua natureza mesma.

Já o reino de Mitra prefere criar uma ordem social pela paz e pela troca que seja mutuamente benéfica. É uma mentalidade em que o poder ao invés de estar concentrado, está diluído em diversos órgãos, cada um com limites contratuais para suas atribuições, nenhum podendo ter uma soberania suprema sobre todo o corpo social.

Qualquer injustiça percebida nessa ordem tenta ser corrigida através do próprio acordo mútuo, pela mudança pacífica de mentalidade, pela escolha entre ter relações com um pactuante distinto daquele que causa mal, ou do qual não se gosta.

O deus do comércio grego, Hermes, não à toa é o deus de todas as trocas: mensageiro, deus da velocidade, mediador entre deuses e homens, promotor da fertilidade, criador do alfabeto para transmitir conhecimento – inclusive o conhecimento implícito e as mensagens ocultas do pensamento difícil, hermético.

Não à toa, sociedades liberais, ao contrário do que estatistas pensam, precisam de um povo culto – não é uma coincidência ou acidente de percurso, mas sua própria sustentação depende desta cultura mútua para que a sacralidade de seus contratos seja válida. Todavia, por acarretamento lógico, uma sociedade orientada pelo Estado, exatamente ao contrário, ganha ainda mais poder com um povo dependente e acrítico.

Exatamente por esta razão, e mesmo que o exemplo aponte para longe da perfeição, países liberais produzem prêmios Nobel científicos um atrás do outro (América, Reino Unido e Alemanha são os campeões, com a diminutíssima e ultra-mega-master-power-blaster liberal Suíça em 7.º lugar), enquanto países socialistas, supostamente “salvadores” de seu próprio povo, à exceção da cultíssima Rússia já de antes da Revolução, só produzem Prêmios Nobel de literatura dissidente proibida no próprio país pelo regime (Aleksandr Solzhenitsyn com seus Um Dia na Vida de Ivan Denisovich e Arquipélago Gulag, Ivan Bunin, Boris Pasternak, Czesław Miłosz, Elias Canetti, o último Jaroslav Seifert, Joseph Brodsky, Herta Müller), ou prêmios Nobel da Paz pelos inimigos do regime totalitário quando conseguem enfrentá-lo e diminuí-lo com vida (Andrei Sakharov, Lech Wałęsa, Mikhail Gorbachev, Shirin Ebadi, Liu Xiaobo, Tawakkul Karman, Malala Yousafzai).

A validade do livre contrato de Hermes na Antigüidade não é tão diferente do livre acordo que é a base do capitalismo, em oposição à coação estatal dos reformistas socialistas e “sociais”, como demonstra Hans Hermann-Hoppe.

Uma sociedade de contrato, ou contemporaneamente, uma sociedade liberal, é sempre inimiga do poder concentrado, do planejamento central de Procustes, do “conserto” social pela força (sejam impostos médios ou altos, seja a economia dirigida, seja até o extremo do Gulag e da câmara de gás contra “inimigos do povo”).

Ver a distinção entre a esquerda com seus planos “sociais”, muitas vezes aparentemente lindos em teoria, mas de consecução necessariamente forçosa, nos leva a entender as forças mitológicas que permanecem ainda em nosso imaginário científico moderno.

Enquanto os liberais atuam sempre pelo estabelecimento de adesões voluntárias (sendo inimigo figadal de monopólios, do “capitalismo” de Estado que paga por empresas antes de podermos escolhê-las ou de reformas sociais culturais impostas de cima para baixo pela “soberania”, mesmo aquela do voto), a esquerda ainda busca o poder pela força, sempre encontrando uma nova “injustiça” a combater e, então, conquistar – imitando, com este verbo, uma paródia de aventura épica em que o bem acaba triunfando pelas mãos dos novos heróis.

Ora, heróis também reproduzem, em escala individual ou social, a mesma distinção (e o quanto de heroísmo irreal não se atribui a figuras ocas modernas, como Che Guevara, Lenin, Simon Bolívar, Barack Obama, Yasser Arafat, Nelson Mandela, Lula e Dilma?).

Os mitos heróicos, ou modelos arquetípicos, nos mostram tanto uma aventura interna quanto inauguram uma ordem social. Jasão, Orfeu, os profetas bíblicos, Odisseu, Siegfried, Édipo, Cú Chulainn, Enéas, Hanuman mostram-nos exemplos de superação interior que devem nos inspirar. Moisés, Buda, Jesus, Lao-Tsé, Wotan, Maomé são heróis sociais, cuja mensagem deve ser obedecida.

É exatamente a tentativa de reproduzir modernamente, sem o conhecimento dos antigos, este arquétipo que cria tantos salvadores fracassados no mundo.

Ora, o projeto social implica a soberania violenta que impõe laços forçados com poder concentrado – ou seja, a Revolução (seja Francesa, Russa, Iraniana), com seus heróis forjados.

É por isto que a esquerda, ao invés de se preocupar em criar laços por vontade própria (casamentos, comércio, intercâmbios culturais – tudo o que Alain Peyrefitte definiu como os laços livres e contratos válidos que garantem mais o futuro de uma sociedade livre do que uma política econômica adequada), preocupa-se tanto com a Revolução – ou, em linguagem esquerdista 2.0, com “empoderamento”, “emancipação”, “participação política”, “representação” ou até a “nova classe média”, supostamente criada pelo poder soberano dos novos Varuna.

O marxismo, falho em cada vírgula como teoria, mas perfeito como método de tomada de poder, hoje busca estes novos problemas, muitos criados ad hoc, para continuar atrativo como mito da conquista (basta-se sentir o peso psicológico desta palavra para entender seu apelo).

O liberalismo, perfeito para enriquecimento dos pobres (ao contrário do marxismo e do centralismo, que nunca enriqueceram ninguém – pelo contrário), precisa entender suas próprias ligações os mitos ligados a Mitra e aos juristas-sacerdotes para conseguir rivalizar com tal violento apelo a conquistar tantos jovens ávidos de poder sobre toda a população.

Por Flávio Morgenstern
disponível em: http://www.institutoliberal.org.br/blog/mitra-varuna-o-mito-do-rei-e-do-juiz/

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