DECODIFICANDO A IDEOLOGIA SOCIALISTA [CÓDIGO 7]

CODIGO 7: Um Inveja

“Quando TODO Mundo e corcunda, o belo porte Torna-se uma monstruosidade” Honoré de Balzac

 

O socialismo começou no céu, junto com Lúcifer, que queria apenas justiça já que ele e os demais anjos também deveria ter algum tipo de adoração para si, e não somente a um Deus tirano, burguês, coxinha, fascista, misógino e egoísta! Expulso daquela convivência opressora, Lúcifer conseguiu arregimentar(talvez pagando um pouco mais de R$ 35,00 e prometendo muito mais depois de instaurado seu governo popular) a terça parte das hostes celestes para fazer frente ao sistema divino como militantes contra tudo que eles classificariam como Imperialismo. Foi nesse momento que, chegando ao Inferno, estabeleceram que a cor vermelha seria a bandeira que distinguiria sua Revolução do azul opressor e elitista.

Não demorou para convencer Eva das injustiças de ela não ter a mesma igualdade com Deus, afinal, que opressão contra as mulheres é esta de não permitir que ela se alimente do que quiser, e não coma o que ela bem entender? Meu Corpo, Minhas Regras – bradou ela –  e comeu do fruto, num ato corajoso de enfrentamento ao machismo que regia o Paraíso; desse dia em diante, ao contrário do que suas descendentes fazem hoje, Eva tratou logo de esconder suas tetas! A primeira feminista teve vergonha de ser confundida como vadia. Vai entender?

Naturalmente que num lar onde o pai foi corneado por um serpente, os filhos não sairiam muito diferente, e a inveja que motivou o ato revolucionário de Lúcifer no céu, determinou o primeiro crime de fatricídio na terra. Mas Caim não saiu de todo impune, afinal, ele deveria ter recebido melhor atenção em seus esforços, não era justo que seu irmão fosse mais beneficiado do que ele, o assassinato, portanto, é um mero meio necessário para um fim glorioso que é a igualdade dos homens, mesmo que ao custo de morte de tantos outros que não concordem. Dali em diante Caim ficou marcado, pois em sua fronte, agora, ostenta um boné vermelho do MST, vagando sem terra, reclamado o paraíso perdido que foi arrendado para usufruto exclusivo do grande imperialista, israelense, branco, homem, cristão, chamado Deus.

Óbvio que é uma anedota, mas é uma tolice notável que circula de boca em boca, desde então, contra os males do capitalismo, intensificado pelo mau ensino de história nas escolas, é a identificação do capitalista moderno com o usurário medieval, que enriquecia com o empobrecimento alheio.

Lugar- comum da retórica socialista, essa ideazinha foi no entanto criação autêntica daquela entidade que, para o guru supremo Antonio Gramsci, era a inimiga número um da revolução proletária: a Igreja.

Desde o século XVIII, e com freqüência obsessivamente crescente ao longo do século XIX, isto é, em plena Revolução Industrial, os papas não cessam de verberar o liberalismo econômico como um regime fundado no egoísmo de poucos que ganham com a miséria de muitos.

Mas que os ricos se tornam mais ricos à custa de empobrecer os pobres é coisa que só é possível no quadro de uma economia estática, onde uma quantidade mais ou menos fixa de bens e serviços tem de ser dividida como um bolo de aniversário que, uma vez saído do forno, não cresce mais.

Já no século XIII, São Tomás, com razão, condenou os juros como tentativa de ganhar algo em troca de coisa nenhuma. Numa economia estática como a ordem feudal, ou mais ainda na sociedade escravista do tempo de Aristóteles, o dinheiro, de fato, não funciona como força produtiva, mas apenas como um atestado de direito a uma certa quantidade genérica de bens que, se vão para o bolso de um, saem do bolso de outro. Aí a concentração de dinheiro nas mãos do usurário só serve mesmo para lhe dar meios cada vez mais eficazes de enganar o próximo.

Mas pelo menos do século XVIII em diante, e sobretudo no XIX, o mundo europeu já vivia numa economia em desenvolvimento acelerado, onde a função do dinheiro tinha mudado radicalmente sem que algum papa desse o menor sinal de percebê-lo. No novo quadro, ninguém podia acumular dinheiro embaixo da cama para acariciá-lo de madrugada entre delírios de perversão fetichista, mas tinha de apostá-lo rapidamente no crescimento geral da economia antes que a inflação o transformasse em pó. Se cometesse a asneira de investi-lo no empobrecimento de quem quer que fosse, estaria investindo na própria falência.

São Tomás, sempre sensato, havia distinguido entre o investimento e o empréstimo, dizendo que o lucro só era lícito no primeiro caso, porque implicava participação no negócio, com risco de perda, enquanto o emprestador, que se limitava sentar-se e esperar com segurança, só deveria ter o direito à restituição da quantia emprestada, nem um tostão a mais. Na economia do século XIII, isso era óbvio – aquele tipo de coisa que todo mundo enxerga depois que um sábio mostrou que ela existe. Mas, no quadro da economia capitalista, mesmo o puro empréstimo sem risco aparente já não funcionava como antes – só que nem mesmo os banqueiros, que viviam  essa mudança no seu dia a dia e aliás viviam dela, foram capazes de explicar ao mundo em que é que consistia. Eles notavam, na prática, que os empréstimos a juros eram úteis e imprescindíveis ao desenvolvimento da economia, que portanto deviam ser alguma coisa de bom. Mas, não sabendo formular teoricamente a diferença entre essa prática e a do usurário medieval, só podiam enxergar-se a si próprios como usurários, condenados, pois, pela moral católica. A incapacidade de conciliar o bem moral e a utilidade prática, tornou-se aí o vício profissional do capitalista, contaminando de dualismo toda a ideologia liberal . Marx procurou explicar o dualismo liberal pelo fato de que o capitalista ficava no escritório, entre números e abstrações, longe das máquinas e da matéria – como se fazer força física ajudasse a solucionar uma contradição lógica, e aliás como se o próprio Karl houvesse algum dia carregado algum instrumento de trabalho mais pesado que uma caneta ou um charuto.

Mas esse dualismo não era nada de inerente ao capitalismo enquanto tal, e sim o resultado do conflito entre as exigências da nova economia e uma regra moral cristã criada para uma economia que já não existia mais. O único sujeito que entendeu e teorizou o que estava acontecendo foi um cidadão sem qualquer autoridade religiosa ou prestígio na Igreja: o economista austríaco Eugen Böhm-Bawerk. Este gênio mal reconhecido notou que, no quadro do capitalismo em crescimento, a remuneração dos empréstimos não era apenas uma conveniência prática amoral, mas uma exigência moral legítima. Ao emprestar, o banqueiro simplesmente trocava dinheiro efetivo, equivalente a uma quota calculável de bens na data do empréstimo, por um dinheiro futuro que, numa economia em mudança, podia valer mais ou menos na data da restituição. Do ponto de vista funcional, já não existia mais, portanto, diferença positiva entre o empréstimo e o investimento de risco. Daí que a remuneração fosse tão justa no primeiro caso como o era no segundo. Tanto mais justa na medida mesma em que o liberalismo político, banindo a velha penalidade da prisão por dívidas, deixava o banqueiro sem a máxima ferramenta de extorsão dos antigos usurários.

Um discípulo de Böhm-Bawerk, Ludwig Von Mises, explicou mais detalhadamente essa diferença pela intervenção do fator tempo na relação econômica: o emprestador troca dinheiro atual por dinheiro potencial, e pode fazê-lo justamente porque, tendo concentrado capital, está capacitado a adiar o gasto desse dinheiro, o que prestamista por seu lado necessita gastar imediatamente para tocar em frente o seu negócio ou sua vida pessoal. Von Mises foi talvez o economista mais filosófico que já existiu, mas nem por um instante pareceu se dar conta de que estava raciocinando em termos rigorosamente aristotélico-escolástico: o direito à remuneração provém de que o banqueiro não troca simplesmente uma riqueza por outra, mas troca riqueza em ato por riqueza em potência, o que seria rematada loucura se o sistema bancário, no seu conjunto, não estivesse apostando no crescimento geral da economia e sim apenas no enriquecimento da classe dos banqueiros. A concentração do capital para financiar operações bancárias não é, pois, um malefício que só pode produzir algo de bom se for submetido à “finalidades sociais” externas (e em nome delas policiado), mas é, em si e por si, finalidade socialmente útil e moralmente legítima.

São Tomás, se lesse esse argumento, não teria o que objetar e certamente veria nele um bom motivo para a reintegração plena e sem reservas do capitalismo moderno na moral católica. Mas São Tomás já estava no céu e, no Vaticano, ninguém deu sinal de ter lido Böhm-Bewerk ou Mises até hoje. Daí a contradição grosseira das doutrinas sociais da Igreja que, celebrando da boca para fora a livre iniciativa em matéria econômica, continua a condenar o capitalismo liberal como um regime baseado no individualismo egoísta, e terminam por favorecer o socialismo, que agradece essa colaboração instituindo, tão logo chega ao poder, a perseguição e a matança sistemática, isto é, aquilo que Leonardo Boff, referindo-se particularmente a Cuba, denominou “Reino de Deus na Terra”. Daí, também, que o capitalista continuasse a padecer de uma falsa consciência culpada da qual só pode encontrar alívio mediante à ascese mundana.

Uma das causam que produziram o trágico erro católico na avaliação do capitalismo do século XIX foi o trauma da Revolução Francesa, que, roubando e vendendo a preço vil os bens da Igreja, enriqueceu do dia para a noite milhares de arrivistas infames e vorazes, que instauraram o império da amoralidade cínica, o capitalismo selvagem tão bem descrito na obra de Balzac. Que isso tenha se passado logo na França, “filha dileta da Igreja”, marcou profundamente a visão católica do capitalismo moderno como sinônimo de egoísmo anticristão. Mas seria o saque revolucionário o procedimento capitalista por excelência? Se o fosse, a França teria evoluído para o liberal-capitalismo e não para o regime de intervencionismo estatal paralisante que a deixou sempre atrás da Inglaterra e dos Estados Unidos na corrida para a modernidade. Um governo autoritário que mete a pata sobre as propriedades de seus adversários para distribuí-las a seus apaziguados é tudo, menos liberal-capitalista; é, já, o progressismo intervencionista, no qual, por suprema ironia, a Igreja busca ainda hoje enxergar um remédio contra os supostos males do liberalismo, que, por seu lado, onde veio a existir, nunca fez mal algum a ela, só ajudou-a, inclusive na hora negra da perseguição e do martírio que sofreu nas mãos dos comunistas e de outros progressistas estatizantes, como os revolucionários do México que inauguraram nas Américas a temporada de caça aos padres. O caso francês, se alguma coisa prova, é que o “capitalismo selvagem” floresce à sombra do intervencionismo estatal, e não do regime liberal (coisa aliás arquiprovada, de novo, pelo cartorialismo brasileiro). Insistindo em dizer o contrário, movida pela aplicação extemporânea de um princípio tomista e vendo no estatismo francês o liberal-capitalismo que era seu inverso, a Igreja fez como essas mocinhas de filmes de suspense, que, fugindo do bandido, pedem carona a um caminhão… dirigido pelo próprio. A incapacidade de discernir amigos e inimigos, o desespero que leva o pecador a buscar o auxílio espiritual de satanás, são marcas inconfundíveis de burrice moral, intolerável na instituição cristã católica: a obstinação da Igreja em suas reservas contra o liberal-capitalismo e em sua conseqüente cumplicidade com o socialismo é talvez o caso mais prolongado de cegueira coletiva já notado ao longo de toda história humana.

Um empresário é um sujeito que ganha a vida organizando a atividade econômica. Ele acumula capital, investe, ganha, paga suas dívidas para com os fornecedores, os empregados o Estado,e  no fim, se tudo dá certo, tem um lucro. A quase totalidade do lucro é reinvestida no mesmo ou em outros negócios. Uma parte ínfima ele pode gastar em benefício próprio e da família. Se seu negócio é muito, muito próspero, mesmo essa parte ínfima basta para que compre mansões, iates, jatinhos e jatões, carros de luxo, cavalos de raça, e tenha, se é de seu gosto, múltiplas amantes. Em geral, contenta-se com muito menos.

Um político de esquerda é um sujeito que ganha a vida tentando jogar os empregados contra os empregadores. Ele mostra aos operários os aviões, os cavalos e os carros do patrão e grita: “roubo”! No começo, faz isso de graça. É um investimento. Assim como o empresário investe dinheiro, ele investe insultos, gestos, caretas de indignação, apelos à guilhotina. Em troca, dão-lhe dinheiro. Vive disso. Quando alcança o sucesso, pode dispor de mansões, iates, jatinhos e jatões, carros de luxo, cavalos de raça e amantes em quantidade não inferior às do próspero capitalista.

Tanto a atividade do empresário quanto a do político de esquerda pode ser exercida de maneira honesta ou desonesta. O empresário pode dar golpes em seus fornecedores, vender produtos falsificados, sonegar o pagamento aos operários, ou então pode pagar tudo direitinho e vender bons produtos. Do mesmo modo, o político de esquerda pode desviar dinheiro público, utilizar-se indevidamente de imóveis do Estado, possuir sob ameaça aterrorizadas empregadinhas como fazia Mao Tsé-tung. Ou então pode fazer tudo dentro da lei que ele próprio instaurou e ser incorruptível como Robespierre.

A diferença é a seguinte: da atividade do empresário, mesmo o mais desonesto, resultam sempre uma ativação da economia, uma elevação da produtividade, a expansão dos empregos. Esses resultados podem vir em quantidade grande ou pequena, mas têm de vir necessariamente, pela simples razão de que “empresa” consiste em produzi-los e em nada mais.

Da atividade do político, mesmo o mais honesto, resultam sempre um aumento do ódio entre as classes, o crescimento do aparato estatal que terá de ser sustentado, pelos padrões, com dinheiro extraído aos empregados e consumidores, a politização geral da linguagem, que transformará todos os debates em confrontos de força e, em última instância, desembocará num morticínio redentor. Esses resultados também podem vir em quantidade grandes ou pequenas, mas virão necessariamente, pois “política de esquerda” consiste em produzi-los e em nada mais.

Um empresário, honesto ou desonesto, está no auge do sucesso quando pode, sem prejuízo de seus investimentos, comprar mansões, iates, carros, de luxo, jatinhos, jatões, etc. Ele alcança isso quando se torna um megaempresário. Para chegar a esse ponto, tem de deixar em seu rastro fábricas, bancos, plantações, jornais, canais de TV e mil e um negócios dos quais vivem e prosperam milhares de pessoas.

Um político de esquerda, honesto ou desonesto, está no auge do sucesso quando destruiu toda oposição às suas idéias e comanda uma sociedade fielmente disposta a realizá-las. Ele alcança isso quando se torna o chefe de uma revolução vitoriosa. Para chegar a esse ponto, tem de deixar em seu rastro milhares ou milhões de cadáveres, edifícios destruídos, plantações queimadas, órfãos e viúvas vagando pelas ruas, fome, miséria e desepero.

O militante de esquerda não possui maturidade intelectual suficiente para perceber que o sucesso final de um empresário, mesmo o desonesto, traz sempre mais bem do que mal, e que o sucesso final do político que ele apóia, mesmo aquele inflexivelmente honesto, produz uma quantidade de mal acima do que qualquer bem poderá jamais reparar.

Isso é assim porque o militante e seu candidato possuem uma consciência moral deformada pelo uso falso da linguagem (novilíngua). Ouviu dizer na infância: “lucro egoísta”, “justiça social”, e impregnou-se de tal modo desses símbolos verbais do mal e do bem, que pôs sua vida a serviço do que lhe parece uma nobre causa: combater as coisas que têm nomes feios e louvar as que têm nomes bonitos. Uma coisa que criou as nações mais prósperas e livres da Terra deve ser muito má, pois tem o nome hediondo de “lucro egoísta”. Uma coisa que matou cem milhões de pessoas e escravizou um bilhão e meio de outras deve ser ótima, pois leva o belo nome de “justiça social”.

Romper a unidade mágica de nomes e coisas é uma operação dolorosa. Custa vergonhas e humilhações à mente altiva. Mas é o preço da maturidade. No julgamento são do homem maduro, via Aristóteles a única esperança de um governo justo, do predomínio, ainda que relativo e precário, do bem sobre o mal. Não existe bem onde não existe amor à verdade, e não existe amor à verdade onde uma mente obstinada se apega ao instinto pueril de julgar as coisas pelos nomes que ostentam, ou pelos seus pretensos fins, sem olhar os meios de que se utiliza para sua consumação.

Esse problema de uma mente assim dilacerada já foi diagnosticada por Jesus Cristo dois milênios atrás: “na verdade, amais o que devíeis odiar e odiais o que devíeis amar.” Eles pecaram contra o espírito, protegendo-se por trás das belas palavras contra a visão das realidades feias, e receberam como castigo exatamente aquilo que pediam: a cegueira forçada tornou-se espontânea, e hoje a sua moralidade invertida lhes parece a atitude mais natural do mundo, a única maneira possível de julgar as coisas – o caminho do bem, fora do qual tudo é perdição e “lucro egoísta”.
Não creio sequer que valha a pena rezar para que despertem. Eles não despertarão enquanto não enviarem milhões de seres humanos para o sono eterno em nome de um mundo melhor possível por vir.

Apegando-se à idéia de “justiça social”, o político e militante de esquerda tece seu discurso inflamado contra a propriedade e contra a ganância e ao egoísmo, ao mesmo tempo que se apegam aos seus bens materiais e fazem de tudo para expandi-los. O discurso e a prática se mostram incompatíveis. De fato, todo esquerdista que se preze defende a “igualdade”, não aquela perante as leis, mas a material mesmo. O típico militante tem uma vida confortável, luta sempre para maximizar seus lucros ou salários, não raro por meio de leis de incentivo públicas, mas adora pregar a “justiça social”: todos têm direito a uma vida “digna”.

As desigualdades precisam ser combatidas, não importa que a natureza seja bastante desigual na loteria genética, que cada um tenha habilidades e vocações distintas, que humanos, enfim, não sejam como cupins e formigas. O esquerdista é uma alma sensível, e luta por um “mundo melhor”.

Note que o mundo melhor não é aquele que reduz drasticamente a pobreza, que retira milhões da miséria. Não! Esse, o capitalismo é que permite. Um operário de classe média americanos tem, hoje, uma vida mais confortável do ponto de vista material do que tinha um senhor feudal na Idade Média. A começar pelo ar-condicionado, pelo carro, pelos avanços da medicina, pelos aparatos tecnológicos, etc.

O membro da esquerda que usufrui disso tudo e mais um “pouco”, não quer saber dessas coisas. Quer impor sua visão de justiça “cósmica”, uma grande colméia onde todos são iguais, onde as diferenças desaparecem, onde as contas bancárias são parecidas. À exceção dele próprio, claro. Todos são iguais, mas uns são mais iguais que os outros.

Basta ver como artistas famosos gostam de pregar maior igualdade, enquanto levam vidas  que fariam os aristocratas de antigamente morrer de inveja. Têm gente só para segurar o guarda-sol e proteger a pele, têm assistente para tudo, verdadeiras babás, regras excêntricas nos hotéis, e uma legião de puxas-sacos dispostos a tudo para agradar suas “excelências”. O poder e a fama corrompem.

E eis que num passe de mágica, ricos e famosos se transformam nos mais nobres combatentes da desigualdade no mundo. Começar a reduzir essa desigualdade em casa? Distribuir parte de seus próprios recursos? Sim, parece algo coerente para quem abraça com tanto fervor a ideologia socialista. Mas não esperem isso. É mero discurso destituído de prática.

A mentalidade igualitária ajudou a parir o Estado de bem-estar social, uma adaptação pragmática daqueles com inclinação socialista. Nele, cabe ao governo, “cuidar” de todos, garantir o “direito” à saúde, educação, casa, comida, roupa lavada, babá, tudo incluído no pacote de bondades estatais.

Todos têm direito à felicidade. Veja bem: não à busca da felicidade à sua maneira, mas a própria “felicidade” mesmo, garantida pelo Estado. Adeus mundo dos adultos responsáveis por seus atos, de meritocracia e liberdade. Agora, o “papai” governo vai distribuir benesses para todos, em nome da “justiça social”.

O Estado, como dizia Bastiat, transforma-se na grande ficção pela qual todos querem viver à custa de todos. A esquerda trata o Estado como uma entidade alienígena, que obtém recursos de Marte. Vivemos na era dos “direitos”, onde todos aprenderam a demandar, demandar e demandar, jogando a conta para ombros alheios.

“Quem não chora não mama”, já diz o ditado. O homem decente fica calado, e o oportunista leva a melhor nesse concurso de misérias. Nasce a “marcha dos oprimidos”. Até mesmo viagens ou banda larga são vistos agora como bens “essenciais” que o governo deve fornecer.

O popular conto inglês da galinha ruiva, que eu mesmo aprendi em forma musicada na infância, ilustra a história por trás do bem estar social. Um dia uma galinha ruiva estava ciscando no quintal e achou um grão de trigo. Ela teria então corrido para perguntar quem gostaria de ajudá-la a plantar este grão, ao que o patinho, o gatinho e o cachorrinho prontamente se negaram. A galinha, persistente, plantou-o sozinha.

Mais tarde, perguntaria sobre se os colegas a ajudariam na colheita. Novamente, porém, a resposta foi negativa, e a galinha fez o serviço sozinha. Para debulhar o trigo, a coisa se repetiu, e, para ir até o moinho produzir farinha, também. Por fim, negariam qualquer colaboração no processo que transforma a farinha em pão, e ela, mais uma vez sozinha, fez um pão muito bonito e com cheiro delicioso.

Todos os outros animais, contudo, quereriam – agora sim –  compartilhar do resultado do trabalho, “caridade” a que a galinha se recusou: não iriam provar sequer um pedacinho. Eram preguiçosos demais, disse. E, quando a preguiça é recompensada, quando quem trabalhaé forçado a sustentar quem não produz em nome da “igualdade”, o resultado só pode ser o aumento da preguiça e a redução dos esforços.

Dar esmolas estimula a preguiça e cria dependência. O famoso slogan marxista diz:  “Para cada um de acordo com sua necessidade, de cada um de acordo com sua necessidade”. Mas quando a  “necessidade” de alguém representa um reclamo perante a sociedade, e quando a capacidade representa um fardo, então todos começam a “necessitar” de tudo e ninguém mais é capaz de nada. Ayn Rand, em A Revolta de Atlas, coloca nas palavras de um personagem a explicação para o fracasso desse modelo:

“É como derramar água dentro de um tanque em que há um cano muito fundo puxando mais água do que entra, e cada  balde que a senhora derrama lá dentro do cano alarga mais um bocado, e quanto mais  a senhora trabalha, mais exigem da senhora, e no fim a senhora está despejando baldes quarenta horas por semana, depois 48, depois 56, para o jantar do vizinho, para a operação da mulher dele, para o sarampo do filho dele, para a cadeira de rodas da mãe dele, para a camisa do tio dele, para a escola do sobrinho dele, para o bebê que ainda vai nascer, para todo mundo a sua volta, tudo é para eles, desde as fraldas até as dentaduras, e só o trabalho é seu, trabalhar da hora em que o sol nasce até escurecer, mês após mês, ano após ano, ganhando só suor, o prazer só deles, durante toda sua vida, sem descansar, sem esperança, sem fim… De cada um, conforme sua capacidade, para cada um, conforme sua necessidade…”

Não há meio mais seguro de destruir um homem do que forçá-lo a um mecanismo de incentivo em que seu objetivo passe a ser não fazer o melhor, em que sua luta seja por produzir um trabalho ruim, dia após dia. Isso acabará com ele mais rápido que qualquer bebida ou mesmo ócio. A acusação mais temida é ser habilidoso acima do que se demonstra, pois sua habilidade será como uma hipoteca dos outros sobre você.

Por que alguém quereria ser mais habilidoso, e demonstrar ter tal habilidade, se seus ganhos estarão limitados pela “necessidade” e se suas habilidades significariam apenas mais trabalho pesado para que outros fiquem com os benefícios? Isso é uma jaula coletivista que aprisiona os indivíduos, que produz preguiça, ineficência e animosidade, pois o choro do filho dos outros passa a significar a necessidade de mais trabalho alheio para lhe pagar as fraldas e a papinha.

Se todos têm direito a casa, remédios, lazer, prostitutas (sim, na Escandinávia há casos de ações na justiça pelo ‘direito’ de ter putas pagas pelo Estado) e mais um monte  de outras coisas que demandam trabalho, resta perguntar: quem tem o dever de produzi-los? A “sociedade”? Só há um problema: como sabia Thatcher, tal não se passa de uma abstração; o que existem são indivíduos de carne e osso.

Logo, se José tem “direito” a uma casa, isso quer dizer que João tem o dever de construí-la. Se Pedro tem o “direito” a uma foda paga pelo erário, então Marcos  tem de trabalhar para pagar a farra do ilustre desconhecido. Isso só poderia ser visto como algo justo na cabeça de um “intelectual” das ciências humanas mesmo.

Sem falar dos resultados econômicos desse modelo. Qual o bem que faz aos passageiros de um avião um motor que falha em pleno vôo? Se o produto for comprado não pelo seu mérito e eficiência, mas por causa da necessidade dos empregados da fábrica incompetente, seria essa a coisa certa a ser feita pelo dono da empresa aérea? Se um cirurgião adquire um equipamento não pela sua qualidade, mas pela necessidade dos funcionários do produtor, seria isso correto com seu paciente?

Harry B. Acton, em The Morals of Markets, lembra que uma coisa é falar em ajuda para alívio do sofrimento dos mais necessitados; outra, completamente diferente, é falar em justiça. Se o pobre é ajudado porque é injusto que assimpermanecça, independente do que fez ou faz, então o caminho está aberto para dizermos que é injusto uns terem menos que os outros. E as comportas do socialismo estarão abertas.

Se, porém, o auxílio é dado com base em critérios humanitários, então não temos de dar prosseguimento ao processo de redistribuição para além do ponto onde o sofrimento é aliviado. Em suma, enquanto muitos entendem e aceitam que o sofrimento alheio pede uma ajuda imediata, por uma espécie de rede de proteção básica e desecentralizada, os coletivistas igualitários demandam remédios para a desigualdade em si, via redistribuição estatal.

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, notório esquerdista, escreveu em artigo na Folha: “A filantropia e a caridade são politicamente reacionárias quandfo, em vez de completar os direitos sociais, se substutuem a eles.” Ou seja, solidariedade voluntária é algo ruim e reacionário, pois reduz ou substitui a dependência do Estado, isto é, dos impostos dos outros, para pagar suas contas.

Esse modelo destrói a coesão social, pois a solidariedade, que jamais deveria ser dissociada do conceito de voluntariedade, acaba delegada ao governo. Os indivíduos se sentem, então, livres da responsabilidade de ajudar o próximo, pois pagam seus impostos que, supostamente, sevem para todo tipo de “filantropia”. Enquanto os americanos capitalistas são os maiores filantropos do mundo, muito chinês passa indiferente por um bebê jogado na rua. Afinal, a seta da moral e da obrigação social passou do indivíduo para o Estado, sendo que todo dever de amparo é responsabilidade da coletividade, encarnado na figura do Estado, e não mais das pessoas.

Tocqueville chamou a atenção, em seu clássico Democracia na América, justamente para a incrível proliferação de associações voluntárias nos Estados Unidos. Eram programas , comunidades locais que serviam para estreitar os laços e que hoje, sob o coletivismo, foram substituídos por programas centralizados no governo federal, distantes da realidade de cada localidade, burocratizados, ineficientes e muitas vezes corruptos.

O discurso igualitário vende bem, pois alimenta a paixão mais mesquinha de todas: a inveja. Adam Smith disse: “A inveja é a paixão que vê com maligno desgosto a superioridade dos que realmente  têm direito a toda superioridade que possuem”. O socialismo é pura idealização da inveja. Como disse Theodore Dalrymple, o ódio aos ricos é uma emoção muito mais forte do que o amor aos pobres. Não vemos uma turba invadindo uma cidade em busca de pobres a quem pudesse dar seus bens…

A esquerda usa esse discurso igualitário para agradar as massas, para se sair bem na foto, mesmo que na prática, suas vidas nada tenham de igual ao restante. São como os porcos de A Revolução dos Bichos, o clássico de George Orwell que é proibido em Cuba, o “paraíso” socialista.

Os porcos convencem os demais bichos a fazer a revolução em nome da justiça e da igualdade. Sansão é o cavalo que trabalha duro pelo ideal, o típico idiota útil. Já os porcos ficam com as comidas melhores, casas, privilégios, tudo garantido pelos ferozes cães treinados a somente obedecê-los. A igualdade socialista é sempre essa: uma nomenklatura no poder concentrando os recursos, cães raivosos protegendo O esquema e uma massa de miseráveis escravizados.

Bertrand de Jouvenel em The Ethics os Redistribution explica isso ao escrever: “A ingrata brutalidade dos reis em direção aos financiadores que os ajudaram sempre ganhou os aplausos populares. Isso talvez esteja relacionado ao profundo sentimento de que indivíduos não têm direito de serem ricos por eles mesmos e para eles mesmos, enquanto a riqueza dos governantes é uma forma de gratificação pessoal para as pessoas que pensam neles como o ‘meu’ governante.”

O autor mostra como a inveja pode estar por trás das políticas de redistribuição de renda através do aparato estatal. Cita o exemplo dos comunistas franceses que deram caros presentes a seu líder, aparentemente indo contra os próprios valores comunistas.

O burguês capitalista apresentaria duas convicções básicas que diferem desse sentimento popular: sabe que não deve sua riqueza a favores e se considera livre para gastá-la consigo mesmo, da forma como preferir, normalmente secreta. É preciso o reverso da atitude que justificaria uma renda excepcional sob a ótica popular. O povo quer sentir que essa renda é um presente dele, e quer demandar que os beneficiários façam um espetáculo público.

Por isso que o empresário independente que compra um iate é menosprezado, enquanto um presidente que vive no luxo, com roupas caras feitas de tecido egípcio, carro próprio para a cadela desfilar e viagens com avião novo pode ser admirado. Mesmo que seja um ex-operário eleito com discurso de redução da desigualdade material. A elite de esquerda aplaude o “homem do povo” que vive como um nababo, pois ele é, afinal, o povo! E assim o ex-metalúrgico pode se tratar nos mais caros hospitais privados, cobrar 200 mil reais por palestra e exigir jato particular como meio de transporte, tudo isso abrindo um fosso entre si e o verdadeiro povo que diz representar e defender. Mas ai do rico empreendedor que ostente legítima riqueza! Esse é membro da odiada “elite”.

O grito por justiça social logo começa: vamos taxar bastante os mais ricos! Na prática, é inviável executar essa redistribuição de renda tirando somente dos realmente ricos. Deixando de lado a injustiça em discriminar os mais abastados, ferindo a isonomia de tratamento, tal medida é totalmente ineficaz. Acaba que a classe média – para a alegria de Marilena Chauí – tem de ser vítima também.

No fundo, quem ganha são os burocratas do governo, que cobram enorme pedágio para realizar tanta “justiça”. A centralização é o resultado inevitável das políticas de redistribuição. Basta lembrar que Brasília possui de longe a maior renda per capita do país, tudo em nome da “justiça social”. E os itens mais produzidos por lá são leis estúpidas e muita corrupção.

O Estado que vai tirando mais e mais das classes média e alta, em nome dessa maior igualdade material, acaba tendo de compensá-las em parte, oferecendo serviços, substituindo as funções de poupança e investimento, garantindo subsídios, esmolas, etc. A conseqüência é um enorme avanço do papel do estado na economia, em ameaça às liberdades individuais.

Marx sabia disso, e defendeu um imposto bastante progressivo como meio para o proletariado tomar, pela via política, todo o capital da burguesia, centralizando os instrumentos de produção nas mãos do Estado. Lênin dizia que a burguesia venderia a corda a ser usada no próprio enforcamento. A esquerda, por culpa, vaidade ou estupidez, prega uma ideologia que, se realmente vingasse, representaria seu fim, à exceção de poucos “amigos do rei” que mantivessem o poder.

A defesa da “justiça social”, no entanto, não precisa ficar restrita aos bens materiais, ainda que os socialistas costumem ser os mais materialistas de todos. E as demais desigualdades? É justo uma mulher ser linda e tantas serem feias? O filósofo Pondé fez uma previsão dos rumos da situação: “Logo criarão uma lei que proibirá as mulheres de serem bonitas em nome da autoestima das feias, e proibirão os homens bem-sucedidos de terem carrões, em defesa da dignidade do ônibus ou do metrô. Duvida? Basta um mentiroso inventar que isso é necessário para um convívio democrático. Isso se chama “a ditadura dos ofendidos”.

Parece piada, mas a agenda da esquerda chegou ao limite patético de pregar a igualdade total. O escritor argentino Gonzalo Otálora causou polêmica há alguns anos ao defender a cobrança d impostos das pessoas consideradas mais belas para compensar o “sofrimento” daqueles que supostamente fossem menos favorecidos pela natureza.

O escritor disse que sua iniciativa tinha o objetivo de provocar um debate sobre o culto à beleza. Com um megafone, foi à frente da Casa Rosada reclamar os “direitos” dos feios. Esperava contar com o apoio do então presidente Néstor Kirchner, a quem classificara como “pouco atraente”.

Otálora alegava que os deboches sofridos na infância prejudicaram sua autoestima e atrapalharam na conquista de melhores empregos. Em sua opinião, um dos assuntos que deveriam ser debatidos era a representação de “todos os tipos de constituição física” nos desfiles de moda. A inveja é alçada ao patamar de justiça, e a mediocridade, enaltecida, enquanto o belo é condenado por suas virtudes, e não vícios. Quasímodo nas passarelas, eis a justiça social dos invejosos…

Na década de 1960, os igualitários ganharam força, levando George Orwerll a escrever 1984, uma distopia que explorava a inveja na política. O partido Trabalhista inglês, de esquerda, demandava uma sociedade de iguais “absolutos”. Um romance satírico exploraria esta “paixão antissocial”, como dizia John Stuart Mill, no campo do cotidiano. O escritor inglês L. P. Hartley era o aoutor, e a obra chamava-se Facial Justice, comentada no excelente livro Envy: a Theory of Social Behaviour. Na sátira, Hartley chegava a uma conclusão lógica, expressada por Schoeck em seu livro, sobre a estranha tentativa de legitimar o invejoso e sua inveja, de forma que qualquer um capaz de despertar inveja seria tratado como antissocial ou criminoso.

Em vez de o invejoso ter vergonha de sua inveja, é o invejado que deve desculpas por ser melhor. Há uma total inversão dos valores, explicada somente por uma completa aniquilação do indivíduo em nome da igualdade coletivista: “o desejo utópico por uma sociaedade igualitária não pode ter surgido por qualquer outro motivo que não a incapacidade de lidar com a própria inveja”.

Os humanos passam a ser tratados como insetos gregários, e o indivíduo que ousa se destacar, como um inimigo da “sociedade”. Tal como a ave de Fernão Capelo Gaivota, que ousa desafiar seus próprios limites e testar até quanto seria capaz de voar, tornando-se assim uma “renegada” no bando. O rico, ainda que tenha criado sua riqueza de forma honesta, através de trocas voluntárias, é exacrado pelos invejosos. O sucesso individual é um pecado!

A heroína da novela de Hartley chama-se Jael, uma mulher que, desde cedo, não se conforma com a visão igualitária, recusando-se a aceitar que pessoas mais bonitas ou inteligentes devessem se anular enquanto indivíduos por causa da inveja alheia. A obra se passa no futuro, depois de uma Terceira Guerra Mundial, e as pessoas são divididas de acordo com o grau de aparência. A meta era criar uma hegemonia facial, pois a material já não bastava para acabar com a inveja: alguns sempre terão  algo que os outros não têm.

Havia um Ministério da Igualdade Facial, e a extirpação dos rostos tipo Alfa, os mais belos, não era suficiente, uma  vez que os de tipo Beta ainda estavam em patamar superior aos Gama. Enquanto TODOS não tivessem a mesma aparência, não haveria “justiça”. Ninguém poderia ser um “desprivilegiado facial”. Hartley combate a utopia dos igualitários, mostrando que a equiparação financeira jamais aboliria a inveja na sociedade. Durante sua vida, demonstrou aversão a todas as formas de coerção estatal.

No livro Teoria da personalidade, o psiquiatra G. J. Ballone diz: “Todas as tendências ideológicas que enfatizam a igualdade dos seres humanos, num total descaso para com as diferenças funcionais, ecoam aos ouvidos despreparados com eloqüente beleza retórica, romântica, ética e moral. Transportando tais ideais do papel para a prática, sucumbem diante de incontáveis evidências em contrário: não resistem à constatação das flagrantes e involuntárias diferenças entre indivíduos, bem como não explicam a indomável característica humana que é a perene vocação das pessoas em quere destacar-se dos demais.”

O valor de alguém enquanto ser humano não se mede pela conta bancária. Eis algo que a Esquerda precisa compreender. No seu brilhante livro The Constitution of Liberty, Hayek trata da distinção entre valor e mérito, naquele que é um dos melhores capítulos da obra. Para Hayek, o único tipo de igualdade que podemos buscar sem destruir a liberdade é aquela perante as regras gerais, perante as leis. A igualdade dos resultados, porém, é totalmente incompatível com a liberdade. A demanda por tal tipo de equiparação costuma partir daqueles que gostariam de impor à sociedade um  padrão preconcecebido de distribuição. A coerção necessária para realizar essa suposta “justiça” seria fatal para a liberdade da sociedade. O ponto de largada indivdual nunca será igual. A herança genética já é diferente.

Em seguida, o ambiente familiar, a educação dos pais, os círculos de amizade,e nfim, inúmeras características terão influência na formação do indivíduo, sendo impossível determinar quanto de cada uma é responsável por suas escolhas. Hayek faz essa importante distinção entre valor e mérito: “Noutras palavras, devemos olhar para os resultados, não para as intenções ou motivos, e podemos permitir que alguém aja com base no seu próprio conhecimento apenas também se permitirmos que ele mantenha aquilo que os demais estão dispostos a pagar-lhes pelos seus serviços, independentemente do que se possa achar sobre a propriedade da remuneração do ponto de vista do mérito moral que o indivíduo possui ou da estima que temos por ele enquanto pessoa.”

Portanto, redistribuir riqueza com base numa visão de “justiça” não representa justiça de fato, e dificilmente será compatível com algo bem mais valioso do que o próprio dinheiro: a liberdade, o senso de realização advindo das conquistas pessoais, o orgulho de caminhar com as próprias pernas.

Sempre que se ouve um político ou militante de Esquerda verberar em tom profético a cobiça capitalista, pergunto-me se ele imagina mesmo que o anseio ao poder é uma paixão moralmente superior ao desejo de dinheiro, ou se simplesmente finge acreditar nisso para se fazer de santinho. Evidentemente, não há terceira alternativa. Nenhum militante esquerdista quer fazer uma revolução só para depois ir para casa viver como obscuro cidadão comum da república socialista: cada um deles é, por definição, o virtual detentor de uma fatia de poder no Estado futuro. Essa é, entre os adeptos de um partido, a única diferença entre o militante e o simples eleitor. Ao assumir a luta revolucionária, o mínimo que um sujeito espera é um cargo de comissário do povo. Afinal, não teria sentido que, após ter arcado com a responsabilidade de líder ativo na destruição do capitalismo, desse menos de di à “construção do socialismo”.

Toda militância revolucionária é, pois, inseparável da ânsia de poder, e é preciso um brutal descaramento ou uma inconsciência patológica para não perceber que essa paixão é infinitamente mais destrutiva que o desejo de riqueza. A riqueza, por mais que as abstrações dos financistas tentem relativizá-la, tem sempre um fundo de materialidade – casas, comidas, roupas, utensílios – que faz dela uma coisa concreta, um bem visível que vale por si só, independente da opulência ou miséria circundantes. Já o poder, como bem viu Nietzsche, não  é nada senão é MAIS poder.  Isto é coisa mais óbvia do mundo: por mais mediada que esteja as relações sociais, a riqueza é, em última instância, domínio sobre as coisas. O poder é o domínio sobre os homens. Um rico não se torna pobre quando seus vizinhos também enriquecem, mas um poder que seja igualados por outros poderes se anulam automaticamente. A riqueza desenvolve-se por acréscimos de bens, ao passo que o poder, em essência, não aumenta pela ampliação de seus meios, e sim pela supressão dos meios de ação dos outros homens. Para instaurar um Estado policial não é preciso dar mais armas à polícia; basta tirá-las dos cidadãos. O ditador não se torna ditador por arrogar novos direitos, mas por suprimir velhos direitos do povo.

Foi preciso que a inteligência humana descesse a um nível quase infranatural para que uma filosofia – ou coisa assim – chegasse a inverter equação tão evidente, vendo na miséria o fundamento da riqueza e no poder político o instrumento criador de igualdade.

O fenômeno mais característico do século XX, o totalitarismo, não foi um desvio ou acidente de percurso no caminho do sonho democrático: foi a conseqüência inescapável de uma aposta suicida na superioridade moral do poder político e na sua missão social igualitária. O resultado dessa aposta está diante dos olhos de todos. A prometida igualdade econômica não veio, mas em contrapartida, a diferença de meios de ação entre governados e governantes cresceu a um ponto que os mais ambiciosos tiranos da Antiguidade não ousaram sequer sonhar. Júlio César, Átila ou Gêngis Khan recuaria horrorizados se alguém lhes oferecesse os meios de escutar todas as conversas particulares ou de desarmar todos os homens adultos. Hoje, governantes já estudam como programar geneticamente a conduta das gerações futuras. Não se contentam com o poder destrutivo dos demônios; querem o poder criador dos deuses.

É uma das mais atrozes perversidade da nossa época que o homem imbuído do simples desejo de enriquecer seja considerado um tipo moralmente lesivo e quase um criminoso, enquanto o aspirante ao poder político é visto  como um belo exemplo de idealismo, bondade e amor ao próximo. Um século que pensa assim clama aos céus para que lhe enviem um Stálin ou um Hitler!

Extraído e Adaptado de:

Carvalho, Olavo de. O Mínimo that rápido Você Precisa Saber Pará de: Não Ser Idiota hum. Record, 2013.

Constantino, Rodrigo. Esquerda Caviar. Record, 2013

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