Ainda não 1984

Este mês celebram-se os trinta anos da empresa Apple. Muito foi divulgado nas redes sociais o vídeo de lançamento do Mac, intitulado 1984, título do emblemático livro de George Orwell. No vídeo publicitário somos advertidos de que o ano de 1984 não será como “1984”.
                Ligando um ponto ao outro, meu texto não discorrerá sobre computadores, nem do ano de 1984, menos ainda da obra de Orwell, mas de algo que tem a ver com tudo isso, mas vai além, é algo atual na vida de cada um de nós, mas que, por omissão ou sinceros “dar de ombros”, temos ignorado.

O simples ato de escrever demanda da capacidade anterior de ler e interpretar não só um texto, mas imagens, signos, sons e a vida como um todo. Isso certamente é tão óbvio que quase sempre deixamos passar despercebido, razão pela qual fiquei estarrecido pelo fato de que ao escrever neste blog tenho procurado dar cada vez mais um posicionamento claro e objetivo das razões que me levam a pensar de certa maneira e não de outra, que quase deixei passar que alguns textos traduzem um pensamento diferente daquele que sustento hoje.
                Ora, nasci e fui criado num país jovem na história do mundo e, por essa razão, deficiente ainda de um pensamento racional e lógico de si mesmo enquanto nação, por isso tanto o país como cada um de nós, e eu individualmente procurei durante minha juventude buscar essa definição do que seria pertencer ao Brasil, ser um cidadão brasileiro, em suma.

Evidentemente que a escola foi quem mais fortemente imprimiu em mim o caráter político que carrego comigo e que, muito naturalmente, tombou muito para a esquerda – e não é difícil justificar esse esforço: o mal, a pobreza, a discriminação, as injustiças, a história de explorados e explorados, a dificuldade individual de vencer na vida, o egoísmo… todas estas são características grandes o suficientes para, por si mesmas, justificar o ideal vermelho – pelo menos dentro de cada indivíduo. Razão pela qual, talvez, aprendemos e ajudamos a perpetuar a frustrada idéia de que o sucesso (individual ou empresarial) é efeito de uma conspiração das classes dominantes, resultante da máquina de exclusão social arquitetada nas mentes astutas dos burgueses. Nesse ambiente imaginário ensinado nem tão sorrateiramente por baixo de textos, imagens e sensações diversas nós, brasileiros, aprendemos que os capitalistas apenas maquinam o mal dos pobres, impedindo-os de galgarem postos de sucesso na vida ao mesmo tempo que os entretém com a possibilidade, seja pelo trabalho, pela Mega-Sena ou pelo Big Brother. Assim, o capitalismo é descrito como sendo a sociedade planificada, racional, fria e lógica, manipulada por uns poucos – algo como aquilo que Huxley previra.

Eis que nessa metáfora surge, retumbante, a doutrina socialista! Nela, o companheiro se submete à militância partidária, sacrificando mesmo seus impulsos particulares e sua moralidade pessoal, ao ideal comunista; assim de tal modo engajados, uns com os outros, em unanimidade e coletividade propiciada pelo partido, cria-se um sentimento de parentesco e proteção recíprocos para aquilo que ideologicamente lhes são propostos como o início da sociedade ideal, sociedade esta que contrasta diametralmente aquela em que se vive na realidade: se no partido ele encontra paz, proteção, sentido e propósito, segue-se que na vida real, onde o capitalismo impera, só existe pobreza, maldade e a lei do “cada um por si”. A revolução, por si só, se sustenta.

Ora, entender essa confusão crucial criada na minha cabeça exigiu de mim o mesmo esforço que me fez fortalecer a fé. Se, para isso foi preciso andar à beira do abismo da descrença para encontrar, no vazio da vida destituída de s valor objetivo, a força e a luz da fé que a tudo dá significado, o mesmo exercício deveria ser feito, também, para encontrar a verdade por trás dos hábitos. Por isso que, analisando friamente pode-se dizer que numa democracia liberal as regras são fixas e as finalidades individuais e esforços sociais são sempre deixados como resultado do tempo e das pessoas e que no socialismo as finalidades (utopia) é sempre a mesma e são as regras que mudam conforme os interesses não dos indivíduos, mas os do partido.

– Eis aí o paradoxo da incompatibilidade de um para com o outro!

Se há algum esforço em juntar estes dois modos de atuar na realidade econômica, tal esforço digno de Frankenstein resultaria em contradição anda maior: se os socialistas desistem da total estatização e os capitalistas aquiescem no princípio da intervenção estatal, temos o que se chama de “terceira via”, também conhecido como Neo-liberalismo. Esse monstro social-democrata nada mais é do que ricos de joelhos ante um Estado forte e pobres com bens sociais assegurados às custas de ter sua vida privada controlada. Fascismo, Nazismo, Castrismo, Maoísmo, Stalinismo, Getulismo e Lulismo… tudo são variantes mais ou menos iguais de uma mesma ideologia.

Por isso que iniciei este texto afirmando que toda escrita exige um esforço adicional de leitura e ponderação e uma boa dose de bom senso, porque depois que escrevi um texto crítico às Jornadas de Junho, sob o título de Fascismo de Esquerda, nem reconheci que estava ainda repetindo os erros de minha educação ideologicamente dirigida e de que ambos os termos retratam uma mesma realidade político-econômica no mundo que ainda hoje se encontra em operação, senão vejamos:
Marx queria uma sociedade libertária e, para isso, exigia a supressão do Estado, pois em seu ver este era o instrumento que justificava as ações da classe dominante. Era óbvio que a transferência dos meios de produção para os proletários anulariam automaticamente a dependência do povo para com o Estado. Contudo, se os meios de produção agora pertenciam à sociedade, quem decide em nome dela, quem a representa? Para evitar cair em mero Anarquismo aventou-se a criação dos conselhos de fábrica, mas isso não era democrático o suficiente por impedia  que aqueles que não trabalhassem nela tomassem participação das decisões. Lênin contribuiu com uma solução ao passar o poder estatal da sociedade para o próprio Partido (que, nesse momento, recebe um P maiúsculo), que nada mais é do que trocar seis por meia dúzia!

No lugar do Estado burguês, temos o Partido único. Ora, mesmo Rosa Luxemburgo percebeu que só haveria democracia se os outros partidos fossem permitidos, mas como permitir outros partidos se o Partido é o próprio Estado? Seguindo essa lógica simples e verdadeira Stálin liquidou qualquer debate dentro do próprio partido! Ou seja, em toda administração comunista o ideal socialista provou-se incompatível com o ideal democrático de liberdade, de organização privada e de valores individuais. Por isso que o socialismo necessita do liberalismo para existir, mas ele não consegue alcançá-lo plenamente pois rejeita fundamentalmente o capitalismo, de modo que, na luta contra o sistema opressor, ele mesmo se torna cada vez mais  totalitário e beligerante ao implementar reformas econômicas e políticas. Assim, a economia socialista é impraticável e hoje em dia, após a queda da URSS, o socialismo está dividido entre alguns poucos comunistas que querem acabar com o capital, mesmo sem nenhuma forma objetiva de como chegar a isso, e entre os muitos conhecidos como social-democratas que respeitam a democracia mas querem-na de forma totalizadora, e encontram no capital uma forma de ascensão ao poder.

                Neo-liberalismo, portanto, é a roupagem nova que a esquerda inventou para manter viva a ideologia socialista e para escapar ao problema econômico e administrativo intrínseco ao pensamento teórico. Desse modo a esquerda sobe ao poder através da esfera tributária e não mais pela econômica. Ao impor aos trabalhadores e empresários medidas que retirem deles todo sucesso de seu esforço de trabalho os esquerdistas estão fazendo exatamente o que criticam no capitalismo: comprando os horas trabalhadas de seus cidadãos através de um Estado cada vez mais centralizador que extorque o dinheiro e o lucro através da sempre crescente taxa de juros e de impostos. Isso só funciona porque como indivíduos estamos sendo domesticados de maneira a aceitar qualquer imposição estatal por julgar ele poderoso demais para irmos contra. Essa aceitação ocorre fruto de um mecanismo simples de condicionamento: primeiro o Estado dissemina a idéia sempre crescente da luta de classes, fomentando-a através de legislações que favoreçam de modo absurdo as reivindicações qualquer das minorias, utilizando-se delas como massa de manobra de seus interesses, aumentando a hostilidade dentro da sociedade que, sem essas legislações, sequer haveriam, de forma que o Estado/Partido se ergue como árbitro plenipotenciário da questão, impondo cada vez mais restrições e legislações de natureza social, de modo a controlar a tudo e a todos. Esses mecanismos repressores são financiados pelo próprio dinheiro público, acatados por uma opinião popular cada vez mais desiludida e confundida que delega ao Estado, cada vez mais inchado, o poder de interferir em todos os aspectos da vida humana, elevando-o a salvador dos problemas que ele mesmo é a causa – esta é a forma sutil e sofisticada de se estar fazendo socialismo em nosso país e no mundo.

                Por isso, quando decretei que em junho de 2013 o levante das ruas brasileiras era o brado da esquerda por mais Estado, os esquerdistas não entenderam isso como fascismo; nem que quando disse que as pessoas preferem a libertinagem à liberdade, elas estavam apoiando o socialismo. O que concluí dos gritos nas ruas nesses dias foi que as pessoas querem urgentemente algo que estabeleça a ordem, lhes dê um norte e lhes restabeleça valores, ao mesmo tempo que garanta o direito de se fazer o que quiser e ter tudo o que se sonha… “rolezinhos” em shoppings centers nada mais são do que a constatação de que o sistema educacional, há tanto tempo assim manipulado, dá as suas caras à favor da ideologia vermelha. Um Estado forte, total, regulamentador e socialmente engajado é o desejo do povo em resposta ao que foi semeado em anos de doutrinação e omissão de uma direita verdadeira como alternativa.

                Se antes da Segunda Guerra Mundial o grito fascista exigia a mesma coisa sob os arroubos de patriotismo e de raça como justificação, hoje o mesmo grito se justifica pela dissolução do indivíduo na coletividade, da supressão dos valores morais e religiosos, bem como do discurso globalista e ecologicamente comprometido.
Não surpreenda que discursos em Davos para a economia e em Copenhagen para a Ecologia tenham sempre um mesmo eco: o fortalecimento da União Européia, a taxação universal e a criação de blocos cada vez mais fortes economicamente. Não me admira que daqui há pouco não surja, de dentro do Mercosul, a idéia maior da URSAL, a União das Repúblicas Socialistas da América Latina – um ode à falecida URSS!

                Obviamente este texto é um pequeno apanhado do que percebo dos rumos que nossa sociedade brasileira está tomando, uma letargia corre por todo cidadão brasileiro. É interessante notar que eu mesmo, neste blog, escrevi um texto congratulando-me da ascensão de Dilma à presidência da República. Isso, contudo, não deve ser visto como uma incompatibilidade de idéias, antes representa acertadamente que os anseios que levo no peito são genuínos e encontram eco dentro da militância de esquerda, mas isso não significa que terei de sacrificar minha mente em favor da ideologia totalitária socialista apenas por achar que o mundo seja injusto! O mundo é injusto, porque o problema é a própria natureza humana, não haverá discurso ou plano governamental que nos livre de nós mesmos, mas isso nunca deve ser desculpa para suprimirmos a liberdade nos colocando voluntariamente sob o jugo da escravidão social e hegemônica!

                Espero sinceramente e muito apreensivamente que ainda não estejamos vivendo em 1984, menos ainda no Admirável Mundo Novo, mas aos poucos sinto o peso da realidade marchar de modo inexorável sobre as areis do tempo e da história, substituindo o homem pelo seu correlato autômato.

  1. No trackbacks yet.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: