Fascismo de Esquerda

Característica marcante das sociedades contemporâneas, as mudanças acontecem incessantemente, devido, acredito, no aumento expressivo dos dispositivos tecnológicos. Essas invenções e a conseqüente difusão cultural de idéias engendram processos que propiciam mudanças sociais que podem ser insignificantes ou então capazes de alterar quase que todos os setores da vida social.

A Revolução Industrial foi uma dessas grandes reviravoltas que mudaram por completo o rumo da história humana, contudo, é somente a terceira fase desta, a chamada Revolução da Informação, que mais rápida e intensa mudança nos trouxe ainda no fim do último século. O advento da era da máquina e o sonho de emancipação do homem de seu trabalho a fim de resultar em maior produtividade e mais horas de lazer lhe custaram, paradoxalmente, seu tempo e seu emprego.

A economia, regida daí pra frente de acordo com o temperamento frio e racional das bolsas de valores, é capaz de tirar o sono tanto do operário do chão de fábrica quanto do investidor em seu terno de corte italiano, pois ninguém mais está seguro em seu emprego, e o medo do desemprego se espalha na mesma proporção que o avanço tecnológico obriga cada vez mais a especialização da mão-de-obra e não cessa em substituir o homem pela máquina.

Se as primeiras fases da Revolução Industrial se caracterizaram no trabalho em massa para a produção de bens e serviços, a última fase baseia-se no uso de uma pequena e altamente especializada força de trabalho que opera através de sofisticados computadores, de modo que só aumente a virtual eliminação dos postos de trabalho. Aí nota-se que o desemprego não está necessariamente atrelado à ausência de crescimento econômico ou à crise financeira, pois ele coexiste mesmo ante taxas de crescimento e prosperidade econômicas; de fato a máquina, ao fazer mais com menos, sacrifica o homem e sobrecarrega o mercado, e isto é algo irreversível, levando-nos à constatação de que hoje em dia, ao contrário das razões que levaram às Guerras mundiais, o capital perdeu seu interesse na força proletária de modo que tem trazido uma nova dinâmica social na qual a massa trabalhadora, numa inversão sem precedentes e imprevisível da história, passa a se queixar não mais da exploração exagerado de seu labor, mas da ausência dessa exploração.

Pois é neste contexto histórico, social e cultural do novo milênio, ainda não bem assimilado na contemporaneidade, que surge, fruto da intensa informatização e das relações virtualmente estabelecidas pela Internet, um movimento sem par na história do Brasil. Evidentemente que tal movimentação, tido por alguns como espontânea e popular, impressiona e deixa ainda várias lacunas em aberto, principalmente em referência a seu real motivo, propósito e destinação final. Ainda que justo e perfeitamente compreensível dentro do escopo dos recentes escândalos políticos e da alta taxa paga em impostos que não retornam efetivamente em benefício da população e às vésperas de Copa do Mundo de futebol e Olimpíadas, confunde em razão da dificuldade em definir se ete é um movimento legítimo e se se enquadra numa das antigas definições políticas herdadas ainda da Revolução de 1789 de Direita e Esquerda.

Alguns teóricos da História tem argumentado sobre o difícil e não menos polêmico tema do fim da História, termo este levantado ainda na filosofia de Hegel e sempre trazida à tona em momentos de crise ou marasmo sociológico, como característica fundamental nas relações humanas, principalmente depois de 1989; segundo tal pensamento, a humanidade teria atingido o ponto final de sua evolução ideológica com o triunfo da democracia liberal ocidental sobre todos os concorrentes de então, como o nazismo e o comunismo; dentro dessa problemática, o fim da História não significa a cessação de mudanças e conflitos, antes refletem simplesmente o esgotamento de quaisquer alternativas viáveis ao desenvolvimento econômico e social. Depois do fim da Guerra Fria, emerge vencedor o Estado dito Liberal e Democrático, significando reconhecer por leis o direito à liberdade e subsistindo com o consentimento geral. Essa fase do capitalismo, diga-se, é aquele destituído dos valores que nortearam-no até então, pois afasta-se do ideário Reformado e entra numa grande secularização influenciado pela mesma secularização que preenche o mundo moderno, resultado da confiança na ciência e na razão, tornando-se cada vez mais mecânico e sem moralidade norteadora. Em mesma proporção, a abundância do consumo e o crescimento da mecanização expôs o cidadão de nosso tempo à mesmice, abrindo um vácuo ideológico que poderia ser – e de fato o foi – preenchido por qualquer doutrina forte e sedutora o suficiente para ressignificar a vida moderna de modo a devolver os ideais e os impulsos heróicos em um tempo envolto na monotonia de comprar, vender e votar. Um tempo em que a arte e a filosofia seriam apenas formalmente praticadas e a educação deixaria de ser formadora para ser apenas técnica, resultando numa ética utilitarista e relativista.

Se admitirmos que o universo como um todo não seja resultado aleatório, mas uma seqüencia de processos naturais, mais ou menos lineares, de ocorrências possíveis e previsíveis, a história pode ser igualmente vista – e até manipulada – de modo que o entrelaçamento dessas causas componha o tecido social em que o acidental e o essencial tornam-se passíveis de explicação e previsibilidade, e que eventos aparentemente desconexos, mas repetidos com suficiente freqüência, produziriam resultados esperados. Dessa forma é possível especular se as manifestações no Brasil não possam ser algo maior e mais perigoso do que aquilo que aparenta superficialmente, pois se o problema fosse meramente o preço dos transportes públicos, os manifestantes deveriam estar atentos ao fato de que o problema residia na grande presença estatal no setor e seu elevado grau intervencionista e de controle, mas ao contrário disso, as convenções sociais e as explicações lógicas não encontram ouvidos dispostos a ouvir e entender, levando ao questionamento não só das instituições legais e das autoridades estabelecidas, como, paradoxalmente, a súplica por mais intervenção do Estado na questão; por causa do alto índice de corrupção e de impunidade, inconscientemente incorporamos a noção de que tudo é permitido e que nada pode ser punido, levando ao clima mentalmente anárquico que, historicamente, descamba na tirania, como na Revolução Francesa, que foi capaz de modificar muitas coisas, mas também um longo período de sangue e luta e que acabou por gerar uma ditadura militar imperialista.

Ainda que exista a China dita comunista, depois da queda do Muro de Berlin, mais nenhuma forma política e econômica parece agora concebível no cenário mundial, como se tivesse esgotado todas as experiências históricas do homem, restando somente a reciclagem ou o cruzamento dos elementos até então inventados. Com o Socialismo e o Fascismo derrotados, a democracia social ocidental reina soberana. Entretanto, neste estágio final do capitalismo, parece-me que uma hibridização começa a surgir no horizonte, de grande variedade superficial mas de profunda fixidez interna: o advento dos mercados comuns são uma fase dita democrática de algo que, na verdade, é um socialismo de mercado, que atua através da regulamentação, de um forte sistema tributário, de um governo do bem-estar social e de um regime parlamentar que pretende a síntese de um liberalismo de esquerda. O poder do capital, a liberdade hedonista, a preponderância de mercados e as instituições regulamentadoras internacionais são imunes à democracia e, paradoxalmente, são aceitas por nós como democráticas, ainda que nem um pouco representativas. Um mercado comum, como o Europeu, por exemplo, ao estabelecer uma soberania coletiva superior é menos sujeita à prestação de contas do que os Estados que a compõe, portanto, se o equilíbrio ambiental não pode ser realizado, nem a vida social melhorada, nem a segurança assegurada, também a soberania popular é absorvida numa conformação internacional. A família, portanto, sendo aquela instituição que mantinha-se incólume e estável apesar das tensões do Estado, agora é o leito onde justamente ocorrem as maiores mudanças, pois os padrões tradicionais – resquícios de uma era conservadora – enfraquecem-se em razão da emancipação feminina e da afirmação do indivíduo acima da sociedade e da proeminência do Estado como regulador dos direitos do indivíduo, de modo que tais reivindicações fossem rapidamente atrelados ao pensamento de Esquerda. Foi no vácuo ideológico deixado pelo capitalismo que o socialismo prosperou: na literatura, na arte, na cultura, na educação e no pensamento ‘livre’ e intelectual. Se o socialismo ainda não está completo é justamente em razão de que a própria democracia não está ainda completada: a meta do socialismo consiste nisso. Nos países desenvolvidos as sociedades possuem um Estado robusto, com alto nível de coordenação de mercados e na corporativização das relações industriais, de modo que as sociedades são tão heterogêneas e com diferentes combinações institucionais que a própria noção de ‘sistema capitalista’ contra qual muitos hoje em dia ainda insistem em lutar contra, pode ser abandonada, pois o futuro do liberalismo é a expansão da democracia social como socialismo verdadeiramente existente.

Se antes se pensava que a economia socialista poderia ser construída e mantida internamente numa só nação, mas que sucumbiu diante das pressões do mercado externo circundante, hoje, ao invés de querer fazer o mesmo e erigir um muro protecionista à sua volta (admitindo com isso sua fraqueza enquanto doutrina), pretende-se tornar o mundo inteiro socialista, através da globalização de mercados e da dissolução de Estados nacionais em Mercados Comuns.

Analisando cruamente o recrudescimento na escala de obras públicas, na absorção de importantes montantes de capital por encargos fiscais e empréstimos públicos, na expansão da tributação externa e na seguridade social assegurada pelo Estado bem como nas legislações trabalhistas e mesmo aquelas leis que pretendem regular toda a vida privada, como leis de aborto e do casamento de homossexuais, apontam inevitavelmente para um socialismo que está sendo implantado gradual e progressivamente em todo o mundo e, no Brasil, aceleradamente e descaradamente através do governo, da oposição e da população engajada midiaticamente. Assim, pode-se afirmar que foi, portanto, dentro do próprio capitalismo liberal que a cultura de Esquerda se fortificou e prospera: a socialização de mercado se dá através do controle do crédito, do estímulo ao consumo, ao voto, na representação e minorias e na estatização progressiva da vida privada, principalmente quando se desacredita na representatividade partidária no Executivo e na tentativa de uma revisão constitucional no Legislativo.

Hoje os programas políticos são restritos  e o interesse popular na política declinou; nessa condição de apatia cria-se um novo nacionalismo e nasce a idéia da construção de oberanais supranacionais, que se coadunam com a política de blocos transnacionais, de maneira a constituir-se numa espécie de controle geral capaz de contestar o descontentamento com o poder da ‘mão invisível’ como árbitro dos destinos coletivos; desta forma, das tensões do capitalismo, surgiria uma nova e integradora agenda internacional de reconstrução social e global, onde o socialismo seria redimido como legítimo programa para um mundo mais igual e mais habitável. E nada é mais urgente que a crise ecológica.

Essa “Revolução Ambiental” é a desculpa para uma rápida reviravolta politica e econômica: ao estabelecer um culpado pelo caos ambiental, comumente retratado como “O Sistema”, a Revolução é considerada unanimemente legítima e necessária. Se o socialismo classicamente é reconhecido como sinônimo de planejamento, a Revolução Ambiental é o plano para a consumação de seus intentos, criando assim uma nova dinâmica para mais um período antes do definitivo fim da História.

Ao fazer este apanhado histórico e combiná-lo com os recentes acontecimentos em solo brasileiro, não é difícil constatar que o movimento é eminentemente de Esquerda em suas reivindicações centrais e se apóia justamente em questões tidas como importantes de serem reformadas perante o senso comum. Contudo, muito admira que também haja um forte sentimento típico de manifestações conservadoras de direita, como o apartidarismo e o nacionalismo, o que parece levar a confundir ainda mais qualquer análise que se pretenda fazer a fim de classifica-lo dentro de um ou de outro contexto. Essa constatação de incongruência interna foi a razão única que deixa ainda muita gente perplexa, e a mim particularmente, colocando-me numa posição contrária à todo fervor entusiástico, mesmo que essa possa ser uma análise feita ainda no calor dos fatos.

Entretanto, apesar de termos aprendido a repudiar o totalitarismo, a corrupção e a fraqueza das instituições no pós-guerra, somente o socialismo ainda permaneceu sendo não só tolerado mas louvado, principalmente ao recorrer à democracia como estratégia de estabelecer-se legitimamente. Contudo, muito ainda estribados na velha forma de definir qualquer ideologia em apenas duas categorias, direita ou esquerda, não percebem que o socialismo, geralmente associado à esquerda, possui enormes variantes e flexibilidade, na qual o Fascismo desponta como representante de um socialismo de direita, que muitos estudiosos e intelectuais se esquecem de apontar.
O Fascismo é o socialismo que visa o controle econômico, a intervenção estatal no mercado, o endividamento público e privado através de empréstimos e uma forte regulamentação nos impostos, não mais estatizando os meios de produção, mas cartelizando o setor privado, planejando centralizadoramente e subsidiando a economia, de modo a exaltar o poder estatal como fonte de ordem e de verdadeira democracia, pois a estabilidade justificaria a ampliação de seu poder contra as flutuações financeiras e a economia de mercado, criando para isso planos de expansão de crédito e oferta de capital de bens e serviços através de financiamentos públicos, em contrapartida haveria uma cada vez mais forte presença fiscal e tributária ao socializar investimentos deste capital em grandes obras públicas, na educação, na saúde e na infra-estrutura.

Esse controle central do dinheiro e do crédito é a base histórica exata de uma política fascista e, na Itália de Mussolini, foi o que motivou os socialistas aderirem ao fascismo, pois estes perceberam que tal sistema poderia ser usado com muito mais sucesso contra o capitalismo, já que ambos preconizam da autoridade central e do planejamento ostensivo.

O mais incrível fenômeno do fascismo, e que parece despontar em nosso tempo, é a quase inacreditável forma de sua concepção, pois ele resulta da colaboração entre a extrema-direita e a extrema-esquerda, resultando num socialismo de centro capaz de atuar liberalmente ao mesmo tempo que cumpre com seu papel patriarcal. Portanto a dicotomia que não conseguimos mais perceber nos atuais manifestos, se de esquerda ou de direita, é resultado e evidência de que as classes estão diluídas num cooperativismo irrestrito com o Estado na forma de consciência neo-nacionalista: sob o facismo, a divisão entre esquerda e direita não existe.

As características do fascismo socialista é tão arraigado em nosso inconsciente coletivo que se torna praticamente imune ao estudo e à sua verificação, pois ele se utiliza do apoio conseguido democraticamente como forma legítima de atuar que sequer conseguimos percebê-lo em sua real forma, por isso que para o Estado fascista, mais importante que indivíduos prósperos é um país sem pobreza, na qual números, estatísticas, grandes empreendimentos para a aceleração do crescimento, bem como grandes eventos públicos e esportivos são patrocinados como forma de exaltar a grandeza nacional.

Atuando através do senso comum e popular, a religião não é proibida, a propriedade privada não é extinta, nem a liberdade cerceada, tudo permanece como está, embora tudo deva ser devidamente legalizado e juridicamente imputável, de modo que a teia estatal se espalhe sobre tudo e a grande aranha tudo supervisione.

A evidente dificuldade em definir os atuais movimentos populares como sendo deste ou daquele grupo, o ódio à representatividade partidária e o arroubo estusiástico por um nacionalismo são provas mais do que suficientes de que essa é uma articulação não-espontânea, eminentemente fascista e dirigida, sob os auspícios de um governo conivente e alinhado à políticas internacionais patrocinadas por grandes grupos institucionais, diante de uma mídia criticamente desprovida de idealismos.

Nenhuma lei, constituição, eleição ou convenção popular é capaz de limitar o poder deste fascismo de esquerda. Tudo o que acompanhamos, portanto, não passa de massa de manobra para a implantação dessa agenda no mais curto espaço de tempo possível. Como na filosofia que adota e é  aprendida e repetida, tudo é relativo, inclusive o indivíduo, que é diluído na coletividade, servindo apenas como meio para um fim que é o próprio Estado, que é o único absoluto: ele possui o poder total. Por isso não é de admirar que, para fazer um contraponto cultural, este poder político e econômico esteja flertando com a única força disponível como alternativa ao pensamento cristão: o Islamismo. Mas esta é uma análise para um próximo ensaio.

Tomara que eu esteja errado.

  1. “A evidente dificuldade em definir os atuais movimentos populares como sendo deste ou daquele grupo, o ódio à representatividade partidária e o arroubo estusiástico por um nacionalismo são provas mais do que suficientes de que essa é uma articulação não-espontânea, eminentemente fascista e dirigida, sob os auspícios de um governo conivente e alinhado à políticas internacionais patrocinadas por grandes grupos institucionais, diante de uma mídia criticamente desprovida de idealismos.”

    Peraí, quer dizer que para o autor se um movimento não é de um ou outro grupo, se ele quer ser apartidário (diferente de anti-partidário) isso é prova de uma articulação não-espontânea? Que é dirigida invisivelmente por grupos institucionais? Isso é presumir e afirmar que a população – sem partidos – é incapaz de ter senso crítico e questionar seu governo? Parece que o autor nunca leu nada sobre como nasceu a política. Qual foi a forma que iniciou a política na Grécia? Não era através dos próprios cidadãos – que só eram cidadãos a medida que politcamente se envolviam nas decisões da Polis – que participavam das comunas/assembléias?

    • LLLLLLLL
    • 7 julho, 2013

    SOFISMA !!

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