Do absurdo da vida sem Deus #3

Verdade Absoluta e Tolerância

 

“Quase que, invariavelmente as pessoas formam suas crenças

não baseada nas provas, mas naquilo que acham atraente.”   

Pascal

Verdade é o contrário de tudo o que nosso senso comum e os currículos escolares tentam ensinar como sendo relativos. Verdade é algo válido à toda pessoa, em qualquer época e lugar; ela é absoluta, completa e exclusiva. Desse modo, ela nunca pode ter sido inventada, ela existe, independentemente de nossa busca ou de nossa capacidade para empreender tal busca; a verdade é imutável e não está sujeita ao caráter de quem a professa (uma pessoa mesquinha não invalida a verdade que acaso professa do mesmo modo que uma pessoa sincera e pia não torna verdadeiro seu erro).
Aí caímos na questão muito debatida entre verdade e crença. É possível – e de fato é assim – que crenças sejam meras opiniões e, muitas vezes, contraditórias entre si; posso acreditar que algo seja verdade, mas não posso fazer que seja, de fato, verdadeira. Verdade contraditória, por outro lado, é uma coisa impossível de existir.

Outro dia conversando com um amigo a respeito da falta de educação das crianças em idade escolar e o descompromisso delas com a escola e o desprezo aos professores, chegamos à infeliz conclusão de que o problema reside na ‘falta de valores’ que nada mais é que a constatação de que o lema do pós-moderno “toda verdade é relativa” ecoa em toda educação e acaba por culminar na prática diária dos alunos (e conseqüentemente dos cidadãos) de que, se não existe verdade, então por que aprender algo, o que quer que seja? E qual o objetivo da escola, se o que pretende ensinar é justamente sua incapacidade de construir conhecimento objetivo? E, qual a razão de respeitar pais e professores, obedecendo à proibições éticas, se não existe parâmetro e nem real diferenciação entre uma conduta certa de outra errada? De fato, isso não é delírio, mas constatação que ocorre em nosso meio; justamente por assimilares muito bem esses ideais pós-modernos é que nossas crianças e jovens comportam-se de acordo com elas! Por que afinal eles deveriam agir de maneira ‘correta’ quando ensinamos é justamente que não existe essa coisa de ‘correto’?

Acontece que idéias falsas sobre a verdade terminam em falsas idéias sobrea vida, com a natural inversão que causa em um comportamento imoral ser não só aceito como justificável. Por exemplo, ‘colar’ numa prova escolar é uma forma de trapaça, é imoral. Mas é comum vermos professores não só aderindo à prática como justificando como parte do aprendizado. Ora, no intuito de se utilizar de uma imoralidade para a fixação do conteúdo, o professor, inconscientemente, justifica qualquer trapaça imaginável que a criança, em idade adulta, possa adotar em proveito próprio!

A questão da relativização da verdade é uma idéia tão pueril que quase sempre seus adeptos, quando pressionados, preferem abandonar a discussão à admitir estar ‘verdadeiramente’ enganda. Aí se percebe o quanto ela é uma questão de mera opinião pessoal apenas. Ora, agnósticos e céticos em geral fazem a afirmação verdadeira de que, na verdade, não se pode fazer afirmações verdadeiras. Dizem que a verdade não pode ser conhecida mas, então, afirma que sua visão é verdadeira. – Não é possível ter as duas coisas ao mesmo tempo!

No campo das religiões, por exemplo, enquanto a maioria tem algumas crenças que são verdadeiras, nem todas as crenças são verdade, pois elas são mutuamente excludentes. Ou seja, algumas crenças estão erradas. E aqui entra mais um termo que os relativistas pós-modernos adoram: ‘tolerância’.

Mais uma vez vemos a inversão de conceitos para sustentar desejos. Enquanto que ‘tolerar’ significa ‘suportar algo que você considera falso’, hoje ela significa ‘aceitar que toda crença seja verdadeira’! Mesmo em círculos cristãos isso está presente.

Ora, uma vez que crenças religiosas mutuamente excludentes não podem ser ambas verdadeiras, não faz sentido fingir que sejam! Quando os relativistas pluralistas ensinam que não se pode questionar as crenças religiosas de outrem e ainda acusam aqueles que fazem de ser dogmatizantes, acabam, eles mesmos, por se tornarem tão intolerantes quanto à ‘intolerância’ que denunciam, simplesmente por não concordarem com eles! Além disso, há o imperativo moral implícito, mas prontamente dissimulado. Se não podemos questionar as crenças religiosas essa é uma posição muito moral e por demais absoluta que carece de uma base moral verdadeira e absoluta para se suster. Uma vez que os relativistas rejeitam a verdade e, deste modo, invalidam a moral objetiva, sua tolerância não seria mera opinião imposta sobre nós? Essa imposição não me parece muito tolerante da parte deles. Nos círculos cristãos existe igualmente uma falsa tolerância baseada em um imperativo de Jesus muito mal interpretado encontrado em Mateus 7. Nessas igrejas é comum ouvirmos o sermão de não julgar; mas essa frase, por si só, já é um julgamento! Jesus nesse trecho não está proibindo o julgamento, mas alertando sobre esse veredito é correto ou não. E só pode haver julgamento correto se houver uma verdade objetivamente conhecida e absoluta.

Fato é que a maioria das pessoas que negam existir a verdade ou, pelo menos, afirmam que a verdade é subjetiva ou mera questão de opinião, não sejam verdadeiramente ignorantes a este respeito, mas propositadamente ignorantes. É possível que não queiram admitir a verdade porque ela é por demais evidente a ponto de convecê-los da falsidade que professam. Se parassem de se esconder do absurdo em si mesmo de que a verdade não pode ser conhecida, seriam capazes de ver, realmente, a verdade. Talvez ajam dessa forma pelo medo de que a verdade lhes restrinja a liberdade… Nós sempre devemos procurar a verdade onde ela se encontra de fato. O trecho abaixo pode auxiliar a compreender o que quero dizer:

O escritor e orador James Sire lidera um impressionante seminário interativo para universitários dos Estados Unidos. O seminário chama-se Por que alguém deve acreditar em alguma coisa? Apesar da grande variedade de respostas, Sire mostra que cada resposta obtida encaixa-se em uma dessas quatro categorias: sociológica, psicológica, religiosa e filosófica. [1]

Razões

sociológicas

Razões

psicológicas

Razões

religiosas

Razões

filosóficas

Pais Conforto Escrituras Uniformidade
Amigos Tranqüilidade Pastor/padre Coerência
Sociedade Significado Guru Inteireza (melhor
Cultura Propósito Rabino explicação de
  Esperança Líder religioso todas as provas)
  Identidade Igreja  

 

Começando da coluna da esquerda, Sire aborda as razões de cada categoria, perguntando aos estudantes: “Essa é uma boa razão para acreditar em alguma coisa?”. Se ele tiver à mão alunos bem afiados, o diálogo poderia seguir mais ou menos assim:

Sire: — Vejo que muitos de vocês citaram fatores sociológicos. Muitas pessoas, por exemplo, abraçam certas crenças porque seus pais tinham as mesmas crenças. Vocês acham que isso por si só é uma boa razão para acreditar-se em alguma coisa?

Alunos: — Não, os pais às vezes estão errados!

Sire: — Tudo bem. E quanto às influências culturais? Vocês acham que as pessoas devem acreditar em alguma coisa simplesmente porque aquilo é culturalmente aceitável?

Alunos: — Não, não necessariamente. Os nazistas tinham uma cultura que aceitava o assassinato de todos os judeus. Isso certamente não tornava sua posição correta!

Sire: — Bom. Agora, alguns de vocês mencionaram fatores psicológicos como conforto. Essa é uma razão boa o suficiente para se acreditar em alguma coisa?

Alunos: — Não, não estamos “confortáveis” com isso! Falando seriamente, o conforto não é um teste para a verdade. Podemos ser confortados pela crença de que existe um Deus em algum lugar lá fora que se importa conosco, mas isso não significa necessariamente que ele realmente exista. Do mesmo modo, um viciado pode ficar temporariamente confortado pelo uso de certo tipo de droga, mas, na verdade, aquela droga pode matá-la.

Sire: — Então você está dizendo que a verdade é importante porque pode haver conseqüências quando você estiver errado?

Alunos: — Sim, se alguém estiver errado sobre uma droga, poderá tomar uma dose muito grande e morrer. Do mesmo modo, se alguém estiver errado sobre a espessura do gelo sobre um lago, pode cair e morrer congelado na água.

Sire: — Portanto, por motivos pragmáticos, faz sentido que acreditemos apenas naquilo que é verdadeiro.

Alunos: — Naturalmente. A longo prazo, a verdade protege, e o erro ameaça.

Sire: — Muito bem. Portanto, razões sociológicas e psicológicas sozinhas não são bases adequadas para se acreditar em alguma coisa. E quanto às razões religiosas? Alguns mencionaram a Bíblia; outros mencionaram o Alcorão; ainda outros obtiveram suas crenças de sacerdotes ou gurus. É possível acreditar em alguma coisa simplesmente porque alguma fonte religiosa ou um livro sagrado diz assim?

Alunos: — Não, porque se levanta a seguinte questão: “Devemos acreditar em qual escritura ou em qual fonte?”. Além do mais, elas ensinam coisas contraditórias.

Sire: — Você poderia me dar um exemplo?

Alunos: — Bem, vamos tomar a Bíblia e o Alcorão como exemplos. Não é possível que os dois sejam verdadeiros porque contradizem um ao outro. A Bíblia diz que Jesus morreu na cruz e que ressuscitou três dias depois (lCo 15.1-8), enquanto o Alcorão diz que Jesus existiu, mas que não morreu na cruz (surata 4.157). Se um deles está certo, então o outro está errado. Se Jesus nunca existiu, então ambos estão errados.

Sire: — Então, como podemos julgar entre, digamos, a Bíblia e o Alcorão?

Alunos: — Precisamos de algumas provas exteriores a essas chamadas escrituras para que possamos descobrir qual é verdadeira, se é que alguma delas o é.

Sire: — De qual categoria devemos extrair tais provas?

Alunos: — Tudo o que nos resta é a categoria filosófica.

Sire: — Mas como é possível que a filosofia de alguém seja uma prova? Não seria apenas a opinião de uma pessoa?

Alunos: — Não, não estamos nos referindo à filosofia nesse sentido da palavra, mas em seu sentido clássico, no qual filosofia significa encontrar a verdade por meio da lógica, da evidência e da ciência.

Sire: — Excelente! Assim, com essa definição em mente, façamos a mesma pergunta à categoria filosófica. Vale a pena acreditar em alguma coisa se ela for racional, se for apoiada por comprovação e se melhor explicar todas as informações?

Alunos: — Isso certamente nos parece correto!”


[1] James SIRE, “Why ShouldAnyone Believe AnythingAt AlI?”, in: D. A. CARSON, ed. Telling the Truth. (Gtand Rapids, Mich.: Zondervan, 2000), p. 93-101 V tb. James SIRE, Why ShouldAnyone Bel’eve Anything At ALI. Downers Grave, m.: InterVarsity Press, 1994.

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