Prometheus movie (2012) #3

Teorias e Conspiração

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“Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram. Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama.

E viu o SENHOR que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente. Então arrependeu-se o SENHOR de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração.E disse o SENHOR: Destruirei o homem que criei de sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito.”                                    
 (Gênesis capítulo 6)

Segundo a Bíblia, os Engenheiros aparentemente já visitaram nosso planeta e eram conhecidos como Nefilins, ou gigantes. Foi Erich Von Daniken que iniciou ou, pelo menos popularizou o tema e a divulgação de que fomos visitados no passado por seres superiores que nos ensinaram a língua, as artes e a ciência.

Este é, como não poderia deixar de  ser, um tema apaixonante e inevitavelmente maleável a ponto de absorver qualquer teoria que se queira agregar. Por essa razão não são poucos os filmes e publicações que discorrem sobre o mito do ‘extraterrestre’; mesmo canais como Discovery e History já se debruçaram sobre o tema em séries de grande sucesso vinculados na TV. A mera pesquisa no Google ou Youtube traz uma infinidade de artigos, vídeos e imagens sobre o assunto. Na esteira desse tremendo sucesso e na aposta de retornar ao gênero que ajudou a definir, Ridley Scott lidera o retorno de nossas mentes aos confins estelares e, por vezes, estéreis do universo intergaláctico.

Prometheus tende, desde seu início – e por início refiro-me aos spots e trailers vinculados – a ser algo grandioso e filosoficamente engajado, mas o que recebemos na exibição do longa é mais um daqueles filmes dualísticos como 2001, Solaris, Matrix e A.I., isso não desabona, mas forçam toda interpretação a ser subjetiva em extremo, ainda mais que nada é declarado como evidente, tudo permanece um grande mistério

Fica bem evidente que os chamados engenheiros disseminam a vida na terra a partir da fragmentação de seu próprio DNA – isso pode ser claramente percebido nos extras contidos no disco adicional em blu-ray, mas a cena do sacrifício que abre o filme parece-me mais um ritual de quem possui um tipo de crença do que um ato de cientistas intergalácticos; por essa razão é que, por motivos ainda insondáveis, exista a tentativa de eliminação da vida terrestre. Isso sempre nos leva à próxima pergunta: sabe-se que o planeta que a nave aterrissa é uma espécie de posto militar avançado, isso pode significar que a substância negra seja algum tipo de matéria não fabricada pelos Engenheiros, mas usada por eles a fins militares e científicos, mas altamente instável a ponto de, em algum momento, ter infectado toda a população que vivia em LV-223, razão pela qual eles estão desesperados para fugir do local; também significa que os Engenheiros poderia ter criado a nós como uma experiência e após terem recolhido todos os dados necessários decidiram terminar a experiência e com isso a nossa existência, mas é bem improvável dado o aspecto ritualístico no início do filme. Ou queriam testar a eficácia mortal da substância negra em outra espécie e decidiram por isso sacrificar uma das raças que ajudaram a criar em prol da evolução e da ciência. Mas acredito que decidiriam eliminar a raça humana por razão de sua rápida evolução para o mal, de maneira que, desiludidos, concluíram que os seres humanos não tinham salvação possível e que poderiam representar um perigo real para outras raças graças à sua mentalidade egoísta e violenta; um paralelo muito parecido com a descrição das razões divinas para o Dilúvio de Noé.

Seja o que for, o filme toca fundo nas questões parentais de criador/criatura pai/filho. Falos e vulvas estilizadas são notórios em todo visual do filme e eles não estão lá em vão. A pergunta crucial: ‘quem me criou?’ ecoa desde as pinturas rupestres, passando pelo ceticismo ateísta de Holloway e na mente crédula de Shaw, indo de encontro com o dilema de Meredith e seu pai, passa pelo dilema de afirmação existencial de David, culminando no desejo megalomaníaco e instintivo de todo ser humano pela necessidade de imortalidade, retratado na figura de Weyland. E aí a reviravolta do filme se torna total – o ser humano, criatura, tende a se igualar perante seu criador. Peter Weyland acende a ira dos deuses ao encarnara, também, Prometeu e intentar roubar o fogo, a chama imortal, do Olimpo! Neste ínterim, David permanece fiel às suas configurações, mas já tende a querer libertar-se do jugo de suas programações impostas, estando impulsionado pelo desejo primitivo de sobrevivência a qualquer custo; sendo isento de moral por razões existenciais, suas convenções de certo e errado se estribam no utilitarismo ético e, tal qual Lawrence da Arábia, se encontra no centro de uma guerra que não é sua, e da qual não tira partido de nenhum dos lados, ele segue ainda seus desejos, ainda que obscuros.

Essa relação parental, portanto, é o mote do filme e é levado ao ápice da personagem de Shaw: órfã, estéril e fervorosa na fé, segue sua jornada ao encontro do fundo de sua própria alma. Se, contudo, nossos deuses eram astronautas de outros mundo, nenhum outro lugar é mais rico em pistas do que na antiga Suméria, graças à teorias elaboradas por Zacharia Sticin e seus Anunnaki; as referências estão por toda parte: na língua, na escrita, nos murais e até na música, pois as notas que David toca para ligar a nave alienígena nada mais é do que o som do Hino Hurriano nº 6, que é a mais antiga partitura musical já encontrada (veja link no YouTube, abaixo). A relação toda do filme com teorias conspiratórias, a dualidade da fé e razão, ciência e religião fazem deste mais um daquelas grandes obras que serão debatidas por gerações. Isso porque pode-se enxergar o filme não só como um amontoado de referências, mas como uma parábola do que se pretende insinuar em larga escala. Uma cena que abre esse precedente é aquela em que Holloway observa um mural de um Xeromorfo aparentemente crucificado. Qual o propósito daquele mural em particular receber essa atenção e figurar no tempo normal do filme, sendo que este teve cortes bem mais significativos? Porque esta cena, desconexa e sem importância, não foi eliminada? Aparentemente tanto a figura cristã de Shaw como a cena igualmente despropositada de pinheiro de Natal pode querer estabelecer que todos os grandes mestres, inclusive Jesus, eram esses “Engenheiros” que, de tempos em tempos, descem à Terra para encaminhar a raça humana; mas que foi morto nas mãos de pessoas inescrupulosas – razão que determinara  nossa destruição, talvez?

Shaw pode figurar no filme como uma cristã, os chavões podem dar a entender que o filme possui um forte vínculo religioso, mas isso é uma pretensão enganosa: se a fé de Shaw é abalada, ela prontamente é restabelecida numa compreensão mais ampla: ela logo aceita que seu redentor seja um ser albino de outro mundo, trocando o Jesus de Nazaré pelo Cristo cósmico, desprezando a crença de seu pai em prol da nova concepção, pois foi, em suas palavras – No que escolhi acreditar.

 

 

“Nada mais pobre conheço
Sob o sol do que vós, ó Deuses!
Mesquinhamente nutris
De tributos de sacrifícios
E hálitos de preces
A vossa majestade;
E morreríeis de fome, se não fossem
Crianças e mendigos
Loucos cheios de esperança.

“Quando era menino e não sabia
Pra onde havia de virar-me,
Voltava os olhos desgarrados
Para o sol, como se lá houvesse
Ouvido pra o meu queixume,
Coração como o meu
Que se compadecesse da minha angústia.

“Quem me ajudou
Contra a insolência dos Titãs?
Quem me livrou da morte,
Da escravidão?
Pois não foste tu que tudo acabaste,
Meu coração em fogo sagrado?
E jovem e bom — enganado —
Ardias ao Deus que lá no céu dormia
Tuas graças de salvação?!

“Pois aqui estou! Formo Homens
À minha imagem,
Uma estirpe que a mim se assemelhe:
Para sofrer, para chorar,
Para gozar e se alegrar,
E pra não te respeitar,
Como eu!

Goethe – Prometheus

http://www.youtube.com/watch?v=hsmoXGRSVuo


 

 

 

    • Sandro
    • 3 dezembro, 2012

    Belo texto, caro amigo… ainda preciso ver o filme…. Abraço.

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