Homenagem à Hobsbawn ( 9 de junho de 1917 – 1 de outubro de 2012)

ERA DOS EXTREMOS: O breve século XX (1914-1991)

Eric Hobsbawm

“Se eu tivesse de resumir o século XX, diria que despertou as maiores esperanças já concebidas pela humanidade e destruiu todas as ilusões e ideais.” (Yehudi Menuhi – músico inglês)

 

 

PREFACIO E AGRADECIMENTOS      

“Não é possível escrever a história do século XX como a de qualquer outra época, quando mais não fosse porque ninguém pode escrever sobre seu próprio tempo de vida como pode (e deve) fazer em relação a uma época conhecida apenas de fora, em segunda ou terceira mão, por intermédio de fontes da época ou obra de historiadores posteriores. Meu tempo de vida coincide com a maior parte do meu tempo de vida – do inicio da adolescência até hoje – tenho tido consciência dos assuntos públicos, ou seja acumulei opiniões e preconceitos sobre a época, mais como contemporâneo que como estudioso. Este é um dos motivos pelos quais, enquanto historiador, evitei trabalhar sobre a era posterior a 1914 durante  quase toda a minha carreira, embora não me abstivesse de escrever sobre ela em outras condições. (…) Acho que já é possível ver o Breve século XX – de 1914 até o fim da era soviética – dentro de uma certa perspectiva histórica. (pág.: 7)

(…)

O SÉCULO: VISTA AÉREA         

“A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal às das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado publico da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo objetivo é lembrar o que outros esquecem, tornam-se cada vez mais importantes que nunca no fim do segundo milênio. Por esse mesmo motivo, porém, eles têm de ser mais do que simples cronistas, memorialistas e compiladores. (pág.: 13)

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            “Mesmo o mundo que sobreviveu ao fim da Revolução de Outubro é um mundo cujas instituições e crenças foram moldadas pelos que pertenciam ao lado vencedor da Segunda Guerra Mundial. Os que estavam do lado perdedor ou a ele se associam não apenas ficaram em silêncio ou forma silenciados, como foram praticamente riscados da historia e da vida intelectual, investidos do papel de “o inimigo” no drama moral do Bem versus Mal. Esse é um dos preços que se paga por viver num século de guerras religiosas, que têm na intolerância sua principal característica. Mesmo os que propalavam o pluralismo de suas não-ideologias acreditaram que o mundo não era grande o bastante para uma coexistência permanente com religiões seculares rivais. Confrontos ideológicos ou religiosos como os que povoaram este século erguem barricadas no caminho do historiador. A principal tarefa do historiador não é julgar, mas compreender. O que dificulta a compreensão, no entanto, não são apenas nossas convicções apaixonadas, mas também a experiência histórica que as formou. As primeiras são fáceis de superar, pois não há verdade no conhecido mas enganos ditado francês tudo compreender é tudo perdoar. Compreender a era nazista na historia alemã e enquadrá-la em seu contexto histórico não é perdoar o genocídio. De toda forma, não é provável que uma pessoa que tenha vivido este século extraordinário se abstenha de julgar. O difícil é compreender. (…)

            “Como iremos compreender o Breve Século XX, ou seja os anos que vão da eclosão da Primeira Guerra Mundial ao colapso da URSS, que, como agora podemos ver retrospectivamente, formam um período histórico coerente já encerrado? Não sabemos o que virá a seguir, nem como será o segundo milênio, embora possamos ter certeza de que ele terá sido moldado pelo Breve Século XX. Contudo, não há como duvidar seriamente de que em fins de 1980 e início da década de 1990 uma era se encerrou e outra nova começou.    (pág.: 14-15)

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            “A democracia só se salvou porque, para enfrentá-lo, houve uma aliança temporária e bizarra entre capitalismo liberal e comunismo: basicamente a vitória sobre a Alemanha de Hitler foi, como só poderia ter sido, uma vitória do Exército Vermelho. De muitas maneiras, esse período de aliança capitalista-comunista contra o fascismo – sobretudo as décadas de 1930 e 1940 – constitui o ponto critico da historia do século XX e seu momento decisivo. De muitas maneiras, esse é um momento de paradoxo histórico nas relações entre capitalismo e comunismo, que na maior parte do século – com exceção do breve período antifascismo – ocuparam posições de antagonismo inconciliável. A vitória da união Soviética sobre Hitler foi uma realização do regime lá instalado pela Revolução de Outubro, como demonstra uma comparação do desempenho da economia russa czarista na Primeira Guerra Mundial com a economia soviética na Segunda Guerra. Sem isso, o mundo hoje (com exceção dos EUA) provavelmente seria um conjunto de variações sobre temas autoritários e fascistas, mais que de variações sobre temas parlamentares liberais. Uma das ironias deste estranho século é que o resultado mais duradouro da Revolução de Outubro, cujo objetivo era  derrubada global do capitalismo, foi salvar seu antagonista, tanto na guerra quanto na paz, fornecendo-lhe incentivo – o medo – para reformar-se após a Segunda Guerra Mundial e, ao estabelecer a popularidade do planejamento econômico, oferecendo-lhe alguns procedimentos para sua reforma.(…)

 “E, no entanto, como agora podemos ver retrospectivamente, a força do desafio socialista global ao capitalismo era a da fraqueza de seu adversário. Sem o colapso da sociedade burguesa do século XIX na Era da Catástrofe, não teria havido Revolução de Outubro nem URSS.” (pág.:17)

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            “Como e por que o capitalismo, após a Segunda Guerra Mundial, viu-se, para surpresa de todos, inclusive dele próprio, saltar para a Era de Ouro de 1947-73, algo sem precedentes e possivelmente anômalo? Eis, talvez, a questão central para os historiadores do século XX. Ainda não se chegou a um consenso e não tenho a pretensão de oferecer uma resposta persuasiva. Talvez seja  preciso esperar que toda a ‘longa onda’ da segunda metade do século XX possa ser vista em perspectiva para que surja uma analise mais convincente, mas, embora hoje possamos ver a Era de Ouro, retrospectivamente, como um todo, no momento em que escrevo as Décadas de Crise que o mundo viveu desde então ainda não estão completas. Contudo, já podemos avaliar com muita confiança a escala e o impacto extraordinários da transformação econômica, social e cultural decorrente, a maior, mais rápida e mais fundamental da história registrada. (pág.: 18)

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            “Paradoxalmente, uma era cuja única pretensão de benefícios para a humanidade se assentava nos enormes triunfos de um progresso material apoiado na ciência e na tecnologia encerrou-se numa rejeição destas por grupos substanciais da opinião publica e pessoas que se pretendiam pensadoras do Ocidente.

            “Contudo, a crise moral não dizia respeito apenas aos supostos da civilização moderna, mas também ás estruturas históricas das relações humanas que a sociedade moderna herdara de um passado pré-industrial e pré-capitalista e que, agora vemos, havia possibilitado seu funcionamento. Não era a crise de uma forma de organizar sociedades, mas de todas as formas. Os estranhos apelos em favor de uma sociedade civil não especificada, de uma comunidade, eram vozes de gerações perdidas e á deriva. Elas se faziam ouvir numa era em que tais palavras, tendo perdido seus sentidos tradicionais, se haviam tornado frases insípidas. Não restava outra maneira de definir identidade de grupo senão definir os que nele não estavam. (pág.: 21)

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            “O mundo estava repleto de uma tecnologia revolucionária em avanço constante, baseada em triunfos da ciência natural previsíveis em 914 mas que na época mal haviam começado e cuja conseqüência política mais impressionante talvez fosse a revolução nos transportes e nas comunicações, que praticamente anulou o tempo e a distancia. Era um mundo que podia levar a cada residência, todos os dias, a qualquer hora, mais informação e diversão do que dispunham os imperadores em 1914. Ele dava condições às pessoas de se falarem entre si, cruzando oceanos e continentes ao toque de alguns botões e, para quase todas as questões praticas, abolia as vantagens culturais da cidade sobre o campo. (pág.: 22)

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1 – A ERA DA GUERRA TOTAL

            “‘As luzes se apagam em toda a Europa’, disse Edward Grey, secretário das Relações Exteriores da Grã-Bretanha na noite em que Grã-Bretanha e Alemanha foram à guerra. ‘Não voltaremos a vê-las acender em nosso tempo de vida.’ Em Viena, o grande satirista Karl Kraus preparava-se para documentar e denunciar essa guerra num extraordinário drama-reportagem a que deu o título de Os últimos dias da humanidade. Ambos viam a guerra mundial como o fim de um mundo, e não foram os únicos. Não foi o fim da humanidade, embora houvesse momentos, no curso dos 31 anos de conflito mundial, entre a declaração de guerra austríaca á Servia, a 28 de julho de 1914, e a rendição incondicional do Japão, a 14 de agosto de 1945 – quatro dias após a explosão da primeira bomba nuclear – , em que o fim de considerável proporção da raça humana não pareceu muito distante. Sem dúvida houve momentos em que talvez fosse de esperar-se que o deus ou os deuses que os humanos pios acreditavam ter criado o mundo e tudo o que nele existe estivesse arrependidos de havê-lo feito. (…)

            “Pra os que cresceram antes de 1914, o contraste foi tão impressionante que muitos – inclusive a geração dos pais deste historiador, ou pelo menos de seus membros centro-europeus – se recusaram a ver qualquer continuidade com o passado. ‘Paz’ significava ‘antes de 1914’: depois disso veio algo que não merecia mais esse nome. Era compreensível. Em 1914 não havia grande guerra havia um século, quer dizer, uma guerra que envolvesse todas as grandes potencias, ou mesmo a maior delas, sendo que os grandes participantes do jogo internacional da época eram as seis grandes potencias européias (Grã-Bretanha, França, Rússia, Áustria-Hungria, Prússia – após 1871 ampliada para Alemanha – e, depois de unificada, a Itália), os EUA e o Japão. (pág.: 30)

(…)

            “Tudo isso mudou em 1914. A Primeira Guerra Mundial envolveu todas as grandes potencias, e na verdade todos os Estados europeus, com exceção da Espanha, os Países Baixos, os três países da Escandinávia e a Suíça. E mais: tropas do ultramar foram, muitas vezes pela primeira vez, enviadas para lutar e operar fora de suas regiões. Canadenses lutaram na França, australianos e neozelandeses forjaram a consciência nacional numa península no Egeu – Gallípoli tornou-se seu mito nacional – e, mais importante, os Estados Unidos rejeitaram a advertência de George Washington quanto a ‘complicações européias’ e mandaram seus soldados para lá, determinando assim a forma da história do século XX. Indianos foram enviados para a Europa e o Oriente Médio, batalhões de trabalhadores chineses vieram para o Ocidente, africanos lutaram no exército francês. Embora a ação militar fora da Europa não fosse muito significativa a não ser no Oriente Médio, a guerra naval foi mais uma vez global: a primeira batalha travou-se em 1914, ao largo das ilhas Falkland, e as campanhas decisivas, entre submarinos alemães e comboios aliados, deram-se sobre os mares do Atlântico Norte e Médio.

            “É quase desnecessário demonstrar que a Segunda Guerra Mundial foi global. Praticamente todos os Estados independentes do mundo se envolveram, quisessem ou não, embora as repúblicas da América Latina só participassem de forma mais nominal. As colônias das potências imperiais não tiveram escolha. Com exceção da futura República da Irlanda e de Suécia, Suíça, Portugal, Turquia e Espanha, na Europa, e talvez do Afeganistão, fora da Europa, quase todo o globo foi beligerante, os nomes de ilhas melanésias e assentamentos nos desertos norte-africanos, na Birmânia e na Filipinas, tornaram-se tão conhecidos dos leitores de jornais e radiouvintes – e essa foi essencialmente a guerra dos noticiários radiofônicos – quanto os nomes de batalhas no ártico e no Cáucaso, na Normandia, em Stalingrado e em Kursk. A Segunda Guerra Mundial foi uma aula de geografia. (pág.: 32)

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            “Os horrores [da Primeira Guerra] na Frente Ocidental teriam conseqüências ainda mais tristes. Sem dúvida, a própria experiência ajudou a brutalizar tanto a guerra como a política: se uma podia ser feita sem contar os custos humanos ou quaisquer outros, por que não a outra? Quase todos os que serviram na Primeira Guerra Mundial – em sua esmagadora maioria soldados rasos – saíram dela inimigos convictos da guerra. Contudo, ex-soldados que haviam passado por aquele tipo de guerra sem se voltarem contra ela ás vezes extraíam da experiência partilhada de viver com a morte e a coragem um sentimento de incomunicável e bárbara superioridade – inclusive em relação a mulheres e não combatentes – que viria a formar as primeiras fileiras da ultradireita pós-guerra. Adolf Hitler era apenas um desses homens para quem o fato de ter sido frontsoldat era a experiência formativa da vida. Contudo, a reação oposta teve conseqüências igualmente negativas. Após a guerra, tornou-se bastante evidente para os políticos, pelo menos nos países democráticos, que os banhos de sangue de 1914-18 da Grã-Bretanha e da França, tal como a estratégia pós-guerra nos EUA, baseava-se nessa crença. A curto prazo, isso ajudou os alemães a ganhar a Segunda Guerra Mundial no Ocidente em 1940, contra uma França empenhada em agachar-se por trás de suas fortificações incompletas e, uma vez rompidas estas, simplesmente não querendo continuar a luta; e uma Grã-Bretanha desesperada por evitar meter-se no tipo de guerra terrestre maciça que dizimara seu povo em 1914-18. A longo prazo, os governos democráticos não resistiram á tentação de salvar as vidas de seus cidadãos, tratando as dos outros países inimigos como totalmente descartáveis. O lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki em 1945 não foi justificado como indispensável para a vitória, então absolutamente certa, mas como um meio de salvar vida de soldados americanos. É possível, no entanto, que a idéia de que isso viesse a impedir a URSS, aliada dos EUA, de reivindicar uma participação preponderante na derrota do Japão tampouco estivesse ausente das cabeças do governo americano. (pág.: 34-35)

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“Por que, então, a Primeira Guerra Mundial foi travada pelas principais potencias dos dois lados como um tudo ou nada, ou seja, como uma guerra que só podia ser vencida por inteiro ou perdida por inteiro?

            “o motivo era que essa guerra, ao contrário das anteriores, tipicamente travadas em torno de objetivos específicos e limitados, trava-se por metas ilimitadas. Na Era dos Imperios a política e a economia se haviam fundido. A rivalidade política internacional se modelava no crescimento e competição econômicos, mas o traço característico disso era precisamente não ter limites. (…) No papel, sem dúvida era possível o acordo neste ou naquele ponto dos quase megalomaníacos ‘objetivos de guerra’ que os dois lados formularam assim que a guerra estourou, mas na prática só um objetivo contava naquela guerra: a vitória total, aquilo que na Segunda Guerra Mundial veio a chamar-se ‘rendição incondicional’ (pág.: 37-38)

‘havia a necessidade de controlar a Alemanha, que afinal quase tinha derrotado sozinha toda a coalizão aliada. Por motivos óbvios, essa era, e continuou sendo desde então, o maior interesse da França. Também tinha de ser redividido o mapa da Europa, tanto para enfraquecer a Alemanha quanto para preencher os grandes espaços vazios deixados na Europa e no Oriente Médio pela derrota e colapso simultâneos dos impérios russo, habsburgo e otomano. Os muitos pretendentes à sucessão, pelo menos na Europa, eram vários movimentos nacionalistas que os vitoriosos tendiam a estimular, contanto que fossem antibolcheviques como convinha. (pág.: 39)

(…)

            “As origens da Segunda Guerra mundial produziram uma literatura histórica incomparavelmente menor sobre suas causas do que as da Primeira Guerra, e por um motivo óbvio. Com as mais raras exceções, nenhum historiador serio jamais duvidou de que a Alemanha, Japão e (mais hesitante) a Itália foram os agressores. Os Estados arrastados à guerra contra os três, capitalistas ou socialistas, não queriam o conflito, e a maioria fez o que pôde para evitá-lo. Em termos mais simples, a pergunta sobre quem ou que causou a Segunda Guerra Mundial pode ser respondida em duas palavras: Adolf Hitler.

            “As respostas a perguntas históricas não são, claro, tão simples. Como vimos, a situação mundial criada pela Primeira Guerra era inerentemente instável, sobretudo na Europa, mas também no Extremo Oriente, e portanto, não se esperava que a paz durasse. A insatisfação com o status quo não se restringia aos Estados derrotados, embora estes, notadamente a Alemanha, sentissem que tinham bastante motivos para ressentimento, como de fato o tinham. Todo partido na Alemanha, dói comunistas na extrema esquerda aos nacional-socialistas de Hitler na extrema direita, combinavam-se na condenação do Tratado de Versalhes como injusto e inaceitável. (pág.: 43)

(…)

            “A guerra em massa exigia produção em massa. (pág.: 52)

            “A guerra total sem dúvida revolucionou a administração. Até onde revolucionou a tecnologia e a produção? Ou, perguntando de outro modo, até onde adiantou ou retardou o desenvolvimento econômico? Adiantou visivelmente a tecnologia, pois o conflito entre beligerantes avançados era não apenas de exércitos, mas de tecnologia em competição para fornecer-lhes armas eficazes e outros serviços essenciais. Não fosse pela Segunda Guerra Mundial, e o medo de que a Alemanha nazista explorasse as descobertas da física nuclear, a bomba atômica certamente não teria sido feita, nem os enormes gastos necessários para produzir qualquer tipo de energia nuclear teriam sido empreendidos no século XX. Outros avanços tecnológicos conseguidos, no primeiro caso, para fins da guerra mostraram-se consideravelmente de aplicação mais imediata na paz – pensamos na aeronáutica e nos computadores – mais isso não altera o fato de que a guerra ou a preparação para a guerra foi um grande mecanismo para acelerar o progresso técnico, ‘carregando’ os custos de desenvolvimento de inovações tecnológicas que quase com certeza não teriam sido empreendidos por ninguém que fizesse cálculos de custo-benefício em tempo de paz, ou teriam sido feitos de forma mais lenta e hesitante. (pág.: 54)

(…)

            “A guerra promoveu o crescimento econômico? Num certo sentido, é evidente que não. As perdas de recursos produtivos foram pesadas, sem contar a queda no contingente de população ativa.

            “Por outro lado, as guerras foram visivelmente boas para a economia dos EUA. Sua taxa de crescimento nas duas guerras foi bastante extraordinária. Sobretudo na Segunda Guerra Mundial, quando aumentou mais ou menos 10% ao ano, mais rápido que nunca antes ou depois. Em ambas os EUA se beneficiaram do fato de estarem distante da luta e serem o principal arsenal de seus aliados, e da capacidade de sua economia de organizar a expansão da produção de modo mais eficiente que qualquer outro. É provável que o efeito econômico mais duradouro das duas guerras tenha sido dar á economia dos EUA uma preponderância global sobre todo o Breve Século XX, o que só começou a desaparecer aos poucos no fim do século. Em 1914, já eram a maior economia industrial, mas ainda não a dominante. As guerras, que os fortaleceram enquanto enfraqueciam, relativa ou absolutamente, suas concorrentes, transformaram sua situação. (pág.: 55)

(…)

            “Outro motivo, porém, era a nova impessoalidade da guerra, que tornava o matar e estropiar uma conseqüência remota de apertar um botão ou virar uma alavanca. A tecnologia tornava suas vitimas invisíveis, como não podiam fazer as pessoas evisceradas por baionetas ou vista pela mira de armas de fogo. Diante dos canhões permanentemente fixos na Frente Ocidental estavam não homens, mas estatística (pág.: 57)

            “A Segunda Guerra Mundial na verdade trouxe soluções, pelo menos por décadas. Os impressionantes problemas sociais e econômicos do capitalismo na Era da Catástrofe aparentemente sumiram. A economia no mundo ocidental entrou em sua Era de Ouro; a democracia política ocidental, apoiada por uma extraordinária melhora na vida material, ficou estável; baniu-se a guerra para o Terceiro Mundo. Por outro lado, até mesmo a revolução pareceu ter encontrado seu caminho para frente. Os velhos impérios coloniais desapareceram ou logo estariam destinados a desaparecer. Um consórcio de estados comunistas, organizados em torno da União Soviética, agora transformada em superpotência, parecia disposto a competir na corrida pelo crescimento econômico com o Ocidente. Isso se revelou uma ilusão, mas só na década de 1960 essa ilusão começou a desvanecer-se. Como podemos ver agora, mesmo o cenário internacional se estabilizou, embora não parecesse. Ao contrário da Grande Guerra, os ex-inimigos – Alemanha e Japão – se reintegraram na economia mundial (ocidental), e os novos inimigos – EUA e a URSS – jamais foram realmente às vias de fato. (pág.: 59)

2 – A REVOLUÇÃO MUNDIAL

            “À medida que avançava o Breve Século XX, essa imagem da política mundial como um duelo entre as forças de dois sistemas sociais rivais (cada um após 194, mobilizado por trás de uma superpotência a brandir armas de destruição global) se tornou cada vez mais irrealista. Na década de 1980, tinha tão pouca relevância para a política internacional quanto as Cruzadas. Mas podemos entender como veio a existir. Pois, mais completa e inflexivelmente até mesmo que a Revolução Francesa em seus dias jacobinos, a Revolução de Outubro se via menos como um acontecimento nacional que ecumênico. Foi feita não para proporcionar liberdade e socialismo à Rússia, mas para trazer a revolução do proletariado mundial. Na mente de Lênin e seus camaradas, a vitoria bolchevique na Rússia era basicamente uma batalha na campanha para alcançar a vitoria do bolchevismo numa escala global mais ampla, e dificilmente justificável a não ser como tal. (pag.: 63)

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            “A Rússia madura para a revolução social, cansada da guerra e á beira da derrota, foi o primeiro dos regimes da Europa Central e Oriental a ruir sob as pressões e tensões da Primeira Guerra Mundial (…). Assim, contra as expectativas, a Rússia sobreviveu à Revolução. Os bolcheviques mantiveram na verdade ampliaram, seu poder não só por mais tempo que a Comuna de Paris de 1871, mas durante anos de ininterrupta crise e catástrofe, conquista alemã e imposição de paz punitiva, separações regionais, contra-revolução, guerra civil, intervenção armada estrangeira, fome e colapso econômico. Não podia ter estratégia ou perspectiva além de optar, dia a dia, entre as decisões necessárias para a sobrevivência imediata e as que arriscavam um desastre imediato. Quem podia dar-se o luxo de considerar as possíveis conseqüências a longo prazo, para a Revolução, de decisões que tinham de ser tomadas já, do contrário seria o fim da Revolução e não haveria outras conseqüências a considerar? Uma a uma, as medidas necessárias foram tomadas. Quando a nova República soviética emergiu de sua agonia, descobriu-se que essas medidas haviam levado para um lado muito distante do que Lênin tinha em mente. (pág.: 70)

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“Como os primeiros cristãos, a maioria dos socialistas pré-1914 era de crentes na grande mudança apocalíptica que iria abolir tudo o que era mal e trazer uma sociedade sem infelicidade, opressão, desigualdade e injustiça. O marxismo oferecia à esperança do milênio a garantia da ciência e da inevitabilidade histórica; a Revolução de Outubro agora oferecia a prova de que a grande mudança começara.(pág.: 78)

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            “Em suma, ser um social-revolucionário cada vez mais significava ser um seguidor de Lênin e da Revolução de Outubro, e cada vez mais um membro ou seguidor de algum partido comunista alinhado a Moscou; e tanto mais quando, após o triunfo de Hitler na Alemanha, esses partidos adotaram a política da união antifascista que lhes permitiu sair do isolamento sectário e conquistar apoio de massa tanto entre os trabalhadores quanto entre os intelectuais. Os jovens que tinham sede de derrubar o capitalismo tornaram-se comunistas ortodoxos, e identificaram sua causa com o movimento internacional centrado em Moscou; e o marxismo, restaurado por Outubro como ideologia da mudança revolucionária, significava o marxismo do Instituto Marx-Engels-Lênin de Moscou, que agora era o centro global para disseminação dos grandes textos clássicos. Ninguém mais à vista se oferecia para interpretar o mundo e mudá-lo, nem parecia melhor capacitado para fazer isso. Assim ia continuar depois de 1956, quando a desintegração da ortodoxia marxista na URSS e do movimento comunista internacional centrado em Moscou trouxe os pensadores, tradições e organizações marginalizados da heterodoxia esquerdista para a esfera pública. Mesmo assim, ainda viviam sob a grande sombra de Outubro. Embora qualquer um com o mais leve conhecimento de história da ideologia pudesse reconhecer mais o espírito de Bakunin, ou mesmo de Nechaev, do que de Marx nos radicais estudantes de 1968 e movimentos anarquistas. Ao contrário, 1968 produziu uma enorme voga intelectual para o marxismo em teoria – geralmente em versões que teriam surpreendido Marx – e para uma variedade de seitas e grupos “marxistas-leninistas”, unidos pela rejeição a Moscou e aos velhos partidos comunistas como não suficientemente revolucionários e leninistas.

“Enquanto o movimento comunista manteve unidade, coesão e impressionante imunidade a fissão, foi, para a maioria dos que, no mundo, acreditavam na revolução global, a única opção. Além disso, quem podia negar que os países que romperam com o capitalismo na segunda grande onda de revolução social no mundo, de 1944 a 1949, o fizeram sob os auspícios de partidos comunistas ortodoxos, orientado pelos soviéticos? Só depois de 1956 os que pensavam em revolução tiveram uma verdadeira pretensão a efetividade política ou insurrecional. Mesmos esses – vários tipos de trotskismo, maoísmo e grupos inspirados pela revolução cubana de 1959 – ainda eram mais ou menos de derivação leninista. Os velhos partidos comunistas continuavam  sendo em grande parte os maiores grupos de extrema esquerda, mas a essa altura o velho movimento comunista perdera o ânimo. (pág.: 80-81)

(…)

 

            “A revolução mundial, que os inspirara, avançara vissivelmente. Em vez de uma única URSS fraca e isolada, emergira, ou estava emergindo, algo como uma dezena de Estados da segunda grande onda de revolução global, chefiada por uma das duas potências no mundo merecedoras deste nome. Tampouco se exaurira o ímpeto da revolução global, pois descolonização das velhas possessões ultramarinas prosseguia em franco progresso. Não se poderia esperar que isso levasse a mais avanços na causa do comunismo? Não temia a própria burguesia internacional pelo futuro que restava do capitalismo, ao menos na Europa? (pág.: 88)

(…)

            “As revoluções de fato feitas em nome do comunismo se exauriram, embora seja demasiado cedo para orações fúnebres sobre elas enquanto os chineses, um quinto da raça humana, continuam a viver num país governado por um Partido Comunista. Contudo, é óbvio que um retorno ao mundo dos anciens regimes desses países é tão impossível quanto era na França de pois da era revolucionária e napoleônica, ou, aliás, quanto se revelou ser a volta das ex-colônias à vida pré-colonial. Mesmo onde se reverteu a experiência do comunismo, o presente dos países ex-comunistas, e presumivelmente seu futuro, traz e continuará trazendo as marcas específicas da contra-revolução que substituiu a revolução. Não há como apagar a era soviética da história da Rússia ou do mundo, como se não tivesse havido. Não há como São Petersburgo voltar a 1914. (pág.: 89)

 

3 – RUMO AO ABISMO ECONÔMICO

            “Suponhamos que a Primeira Guerra Mundial tivesse sido apenas uma perturbação temporária, apesar de catastrófica, numa economia e civilização fora isso estáveis. A economia teria então voltado a alguma coisa parecida ao normal após afastar os detritos da guerra e dais seguido em frente. (…) Como teria sido o mundo entreguerras nessas circunstâncias? Não sabemos, e não há sentido em especular sobre o que não aconteceu, e quase certamente não poderia ter acontecido. Mas a pergunta não é inútil, porque nos ajuda a captar o profundo efeito na historia do século XX do colapso econômico entreguerras.

            “Sem ele, com certeza não teria havido Hitler. Quase certamente não teria havido Rooselvet. É muito improvável que o sistema soviético tivesse sido encarado como um serio rival econômico e uma alternativa possível ao capitalismo mundial. (…) Em suma, o mundo da segunda metade do século XX é incompreensível se não entendermos o impacto do colapso econômico. (…) Mas a Primeira Guerra Mundial foi seguida por um tipo de colapso verdadeiramente mundial, sentido pelo menos em todos os lugares em que homens e mulheres se envolviam ou faziam uso de transações impessoais de mercado. Na verdade, mesmo os orgulhosos EUA, longe de serem um porto seguro das convulsões dos continentes menos afortunados, se tornaram o epicentro deste que foi o maior terremoto global medido na escala Richter dos historiadores econômicos – a Grande Depressão do entreguerras. Em suma: entre as guerras, a economia mundial capitalista pareceu desmoronar. Ninguém sabia exatamente como se poderia recuperá-la. (pág.: 91)

(…)

            “A história da economia mundial desde a Revolução Industrial tem sido de acelerado progresso técnico, de contínuo mas irregular crescimento econômico, e de crescente ‘globalização’, ou seja, de uma divisão mundial cada vez mais elaborada e complexa de trabalho; uma rede cada vez maior de fluxos e intercâmbios que ligam todas as partes da economia mundial ao sistema global. O progresso técnico continuou e até se acelerou na Era da Catástrofe, transformando e sendo transformado pela era de guerras mundiais. Embora na vida da maioria das pessoas as experiências econômicas centrais da era tivessem sido cataclísmicas, culminando na Grande Depressão de 1929-33, o crescimento econômico não cessou nessas décadas. Apenas diminuiu o ritmo. (…) Contudo, com certeza sob um aspecto ela não se achava em expansão. A globalização da economia dava sinais de que parara de avançar nos anos entreguerras. Por qualquer critério de medição, a integração da economia mundial estagnou ou regrediu. (pág.: 92-93)

(…)

            “Por que esta estagnação? Sugeriram-se vários motivos, como por exemplo que a maior das economias do mundo, a dos EUA, passara a ser praticamente auto-suficiente, exceto pelo suprimento de umas poucas matérias-primas; jamais dependera particularmente do comercio externo. Contudo, mesmo países que tinham sido comerciantes de peso, como a Grã-Bretanha e os Estados escandinavos, mostravam a mesma tendência. Os contemporâneos concentravam-se numa causa de alarme mais óbvia, e com certeza quase tinham razão. Cada estado agora fazia o mais possível para proteger suas economias de ameaças externas, ou seja, de uma economia mundial que estava visivelmente em apuros.

            “Tanto homens de negócios quanto governos tinham a esperança que, após a perturbação temporária da guerra mundial, a economia mundial de alguma forma retornasse os dias felizes de antes de 1914. (…) Contudo, o reajuste mostrou-se mais difícil que o esperado. Os preços e o boom desmoronaram em 1929. (pág.: 93-94)

(…)

            “A Grande Depressão confirmou a crença de intelectuais, ativistas e cidadãos comuns de que havia alguma coisa fundamentalmenet errada no mundo em que viviam. (pág.: 106)

            “De qualquer modo, o que era uma economia de livre mercado numa época em que a economia era cada vez mais dominada por imensas corporações que tornavam balela o termo ‘perfeita competição’, e economistas críticos de Karl Marx podiam observar como ele se mostrara correto, especialmente em sua previsão da crescente concentração de capital? (pág.: 107)

(…)

            “ Provavelmente nada demonstra mais a globalidade da Grande Depressão e a severidade de seu impacto do que essa rápida visão panorâmica dos levantes políticos praticamente universais que ela produziu num período medido em meses ou num único ano, do Japão à Irlanda, da Suécia à Nova Zelândia, da Argentina ao Egito. Contudo, não se deve julgar seu impacto apenas, ou mesmo principalmente, por seus efeitos políticos de curto prazo, por mais impressionantes que muitas vezes tenha sido. Trata-se de uma catástrofe que destruiu toda a esperança de restaurar a economia, e a sociedade, do longo do século XIX. O período de 1929-33 foi o abismo a partir do qual o retorno a 1913 tornou-se não apenas impossível, como impensável. O velho liberalismo estava morto, ou parecia condenado. Três opções competiam agora pela hegemonia intelectual-política. O comunismo marxista era uma. Afinal, as previsões de Marx pareciam estar concretizando-se. Um capitalismo privado de sua crença na otimização de livre mercados, e reformado por uma espécie de casamento não oficial ou ligação permanente com a moderada social-democracia de movimentos trabalhistas não comunistas, era a segunda, e, após a Segunda Guerra Mundial, mostrou-se a opção mais efetiva. (…) A terceira opção era o fascismo, que a Depressão transformou num movimento mundial, e, mais objetivamente, num perigo mundial. O fascismo em sua versão alemã beneficiou-se tanto da tradição intelectual alemã, que (ao contrário da austríaca) se mostrara hostil às teorias neoclássicas do liberalismo econômico, transformadas em ortodoxia internacional desde a década de 1880, quando de um governo implacável, decidido a livrar-se do desemprego a qualquer custo. (pág.: 111-112)

(…)

 

            “As forças geradas pela economia tecnocientífica do pós-guerra são agora suficientemente grandes para destruir o meio ambiente, ou seja, as fundações materiais da vida humana. As próprias estruturas das sociedades humanas, incluindo mesmo algumas das fundações sociais da economia capitalista, estão na iminência de ser destruídas pela erosão do que herdamos do passado humano. Nosso mundo corre o risco de explosão e implosão. Tem de mudar.” (pág.: 562)

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