Prometheus movie (2012) #1

“O segredo (…) é não se importar com a dor…”

 

Prometheus é um filme grandioso. Parte da grandiosidade dele não é tanto de seu enredo, mas daquilo que deixa em aberto e também naquilo que, visualmente, nos mostra. O filme, óbviamente, bebe diretamente da fonte que consagrou o diretor: Alien o Oitavo Passageiro, contudo, muito deve às questões que levaram um outro grupo de cientistas a desvendar os mesmos segredos do universo – quem somos nós, de onde viemos e para onde vamos –  e cabaram por dar num enigmático monólito preto. Sim, estou falando de 2001: Uma Odisséia no Espaço, de Kubrick. Mas as semelhanças terminam por aí, pois Prometheus não dá conta daquela dimensão filosófica e introspectiva que há em 2001, mas isso não impede que o filme não desperte as mesmas indagações.

Criado no ano de 2012, Prometheus teve de adequar-se ao espírito do tempo e, dessa forma, teve de ser raso como é raso a filosofia na grande massa de nosso sociedade, razão pela qual o enredo se perde em desviar-se das respostas para preencher tempo com algum susto, explosões e heroísmos desnecessários, isso sem dizer da totalmente descartável atuação de boa parte do elenco, que nada acrescentou à trama, chegando quase a subtrair a nossa atenção. Verdade seja dita que, apesar de não ser uma obra excepcional que todos esperavam pelo que foi vinculado em trailers e virais, Prometheus é, de longe, um dos mais sensacionais, originais e pertubadores filmes já realizados nessa época de blockbusters; se não chega a encantar, tem o mérito de se destacar com inteligência num meio que prima pelo medíocre, como é a indústria cinematográfica de nossos dias.

Evidentemente que quem foi às salas de cinema para ver a origem do xenomorpho de Alien de 1979, ficou decepcionado. Não que a explicação para ele tenha sido decepcionante, mas porque as respostas foram poucas perto das novas perguntas que se somaram às antigas. O universo de Prometheus é o mesmo de Alien, também o retorno de Ridley Scott ao gênero de ficção, além de uma fotografia e trilha que dispensam comentários para aqueles já assistiram ao filme. Contudo, a abordagem e a dinâmica imagética riquíssima de Prometheus – sua amplidão, clareza e beleza diferem diametralmente da claustrofóbica Nostromo, sua escuridão e sujidade. A busca não é por sobreviver – mas saber por que se vive, afinal. É a busca pelas origens.

Bebendo de fontes cinematográficas como: 2001(1968), para a construção do discurso; Solaris (1972) , para a construção visual; O Homem que Caiu na Terra (1976), para a construção do argumento cibernético e, também, do seu próprio Blade Runner (1982), para enfatizar o enredo dualista e em aberto, Scott estabelece a excelente atriz Noomi Rapace como o novo Prometeu encarnado em sua personagem Elizabeth que voa ao Olimpo em busca do fogo divino, a centelha da criação, a peça primeira de toda tecnologia e sabedoria superior, estando disposta a sentir em sua própria carne o preço por tal investida. Neste ponto Scott completa a gênese de sua mitologia, aprontando-a para seguir adiante, já que fica estabelecido a ancestralidade tanto de sua heroína, Ripley, como de seu monstro negro. Na mitologia clássica, Prometeu é um titã e assaz defensor da humanidade que roubou o fogo de Zeus para dar aos mortais. Enraivecido, Zeus envia à terra Pandora, em cuja caixa estava toda maldade e terror que hoje existem., Enquanto Prometeu foi castigado a um tormento sem fim, aos homens restou apenas a esperança.

Também não poderia deixar de mencionar na evidente inspiração obtida pela força e presença da atuação de Peter O’Tolle em Lawrence da Arábia, (1962), que dá uma grande chave para decodificar a história:  “Grandes coisas tem começos pequenos, mimetizado aqui por David, o androide brilhantemente interpretado por Michael Fassbender. David  é um completo estranho numa terra igualmente ignorada, uma criatura que transita entre a fronteira do humano e do não humano, inteligente e curioso sobre o processo que leva um ser a querer criar outro, vê-se enredado numa moral que lhe é mais artificial que si mesmo, uma moral que, por não ser compreendida, não é assimilada e, por isso mesmo, sua voz parece tão fria e insensível quanto àquela outra sinistra inteligência artificial que aprendemos a chamar de HAL.

Um dos problemas do filme é seu roteiro ambicioso demais, como vimos. Isso poderia ter sido bom se seus elementos não fossem tão mal explorados em alguns momentos ou, por outro lado, solucionar o monstruosos problema em questão de segundo. Além disso, por conter um número excessivo de personagens, não consegue dar a devida atenção a todos, explorando mal até aqueles que são cruciais para a trama. Mesmo falhando filosoficamente e, às vezes, até falhando como entretenimento, Prometheus é um ótimo filme, mas que parece perdido em algumas cenas, talvez porque não se sabia o tom certo a dar numa história desse calibre em uma industria que é medida pelo sucesso imediato de bilheteria, e não pelo quanto pode vir a ser cultuado à longo prazo.

Prometheus é um filme que não cansa de olhar, é um daqueles poucos filmes que você se surpreende em ver o fim sem se dar conta de ter passados os minutos sentados na poltrona; contudo, Prometheus termina sem acabar, o que era de se esperar já que um dos roteiristas é Damon Lindelof, de Lost.

Aos poucos algumas perguntas do universo Alien vão sendo respondidas, ao mesmo tempo que outros novos e difíceis dilemas se abrem a serem desbravados; e é aí que uma possível sequência do filme faz-se necessária mas não determinante para que Prometheus figure, junto a 2001, ao Oitavo Passageiro e a Blade Runner, na galeria de filmes Cult.

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