A Origem do dilema de raças e das cotas no Brasil

A fabricação do racismo

Por José Maria e Silva em 10/11/2009 na edição 563

“Se Machado de Assis existiu, então o Brasil é possível.” (Nélida Piñon, escritora)

No livro Uma Gota de Sangue, o sociólogo Demétrio Magnoli demonstra que o movimento negro não passa de uma cria artificial e bem paga da Fundação Ford, mas defende – de modo equivocado – que raças não existem.

Punhos erguidos, olhos fechados, mãos dadas. Na boca, palavras; nos olhos, esperança. E a multidão de rostos negros, sob a regência da belíssima voz de Joseph Shabalala, entoa a comovente canção: “Nkosi Sikelel´ iAfrika (Deus abençoe a África) / Maluphakanyisw´ uphondo lwayo (Que se exalte a sua glória) / Yizwa imithandazo yethu (Ouvi as nossas preces / Nkosi sikelela, thina lusapho lwayo (Deus nos abençoe a nós, seus filhos).” A língua é o zulu. O ano é 1987. O cenário é a África do Sul. Dez anos antes, o jovem líder negro Steve Biko havia morrido no chão do hospital de uma prisão. Quatro anos depois, um irmão do próprio Shabalala também seria vítima da luta racial. Ainda faltavam sete anos para que a eleição de Nelson Mandela pusesse fim ao apartheid, por isso, a canção Nkosi Sikelel´ iAfrika, para a multidão que ali estava, era mais do que o hino do Congresso Nacional Africano – era a prece dos negros dirigida aos deuses, em forma de dor e esperança.

É quase impossível não se comover com essa canção. Nkosi Sikelel´ iAfrika é para a África do Sul o que Asa Branca é para o Nordeste. Talvez com mais dor. Ela traduz a alma do povo zulu e, naquele concerto de 22 anos atrás, a cantora Miriam Makeba, que o entoava com Shabalala e outros artistas, tinha plena consciência disso. A circunspecta figura de “Mamma África” (que morreria em novembro do ano passado, num palco da Itália, aos 76 anos) em nada lembrava a bela jovem de olhos esgazeados, que, na década de 70, acompanhada por um trio jazzístico, contorcia-se, carnal, ao som do inusitado violão do sanfoneiro Sivuca. E tanto na súplica, quanto na lascívia, Miriam Makeba parecia nascer da terra. Por isso era chamada de “Mamma África”, rainha do histórico concerto do Ladysmith Black Mambazo, em que Joseph Shabalala, líder do grupo, com a benção do norte-americano Paul Simon, resgatava as raízes do zulu.

No entanto, essas raízes são frágeis e, em muitos casos, inventadas, compondo uma África de cartão postal, como o Rio das Olimpíadas, que faz Lula chorar. É o que nos garante o sociólogo Demétrio Magnoli. Ele acaba de lançar o livro Uma Gota de Sangue (Editora Contexto, 2009, 400 páginas), em que conta a história da construção das raças, combate as ações afirmativas e demonstra que o movimento negro, ao defender as cotas raciais, apenas substitui um racismo por outro – em vez de biológico, cultural. O livro é um instigante passeio pela história, biologia, sociologia, geografia, antropologia, direito, ciência política e outras disciplinas. Sedimentado em dados precisos e escrito num estilo fluente, Uma Gota de Sanguedestoa da glossolalia de inspiração francesa que reina nas universidades brasileiras. Demétrio Magnoli filia-se à clareza da tradição anglo-americana e é que com base nela que desmascara o movimento negro no mundo e no Brasil. Para ele, as cotas raciais baseiam-se num passado de ficção e, ao defendê-las, os negros de passeata hipotecam o futuro do país.

Pol-Pot africano

Magnoli não trata da canção africana, mas ela serve para ilustrar o quanto o passado de um povo é, em larga medida, uma reconstrução do seu presente, ainda por cima imantado pelo futuro. Nkosi Sikelel´ iAfrika, apesar da unção com que os músicos negros de vários países da África a incluem em seu repertório, não é uma criação autóctone – ela deve muito aos colonizadores brancos. A canção – que se tornou hino do Congresso Nacional Africano em 1912 e hoje é o hino oficial da África do Sul – é um bordado étnico, composto em zulu, chosa, sesoto, africâner e duas palavras em inglês (“South Africa”). A melodia e os quatro versos iniciais, em zulu e chosa, foram compostos em 1897 por Enoch Sontonga (c.1875-c.1902), um nativo tembo. Mas ele nasceu, cresceu e se formou em torno de uma missão evangélica européia, tornando-se professor e regente de coro da Igreja Metodista até sua morte precoce.

O próprio Ladysmith Black Mambazo, que disseminou a canção pelo mundo, é fruto da imbricação entre tradições nativas e cultura ocidental. Joseph Shabalala, que fundou o grupo em 1964, nasceu nas terras de um proprietário branco, ficou órfão ainda criança e resolveu migrar para a cidade em busca de trabalho para ajudar no sustento da família. Começou a gravar e fazer sucesso no país em 1972, mas nem a projeção internacional com a participação do Mambazo no disco Graceland, de Paul Simon, em 1986, livrou-o das tragédias típicas de uma nação dividida. Em 1991, seu irmão Headman Shabalala foi morto por um segurança branco. Em 2002, sua esposa Nellie, 31 anos mais nova do que ele, foi assassinada num suposto assalto e um dos filhos do cantor foi considerado suspeito pela polícia. Em 2006, outro de seus irmãos, Ben Shabalala, também foi baleado e morto.

Quando sua esposa e também cantora foi morta, Joseph Shabalala teve a mão ferida ao tentar defendê-la. Nos jornais da época, ele apareceu de repente envelhecido, com a mão enfaixada, negando que o próprio filho tivesse protagonizado o assassinato da madrasta. Nem parecia o músico vencedor de vários Grammy, parceiro de artistas de sucesso em todo o mundo (incluindo Maria Bethania) e figura constante nos principais palcos da Europa e da América do Norte com os belíssimos arranjos vocais que cria e lidera. Essa mescla de lirismo e brutalidade das grandes metrópoles sul-africanas lembra o Rio de Janeiro, onde a fama flerta com a lama e um craque internacional pode envolver-se com um gângster de morro. Em parte, essa tragédia de luxo e miséria é fruto da mistura e de seu reverso, a segregação – que é racial, na África do Sul, e econômica, no Rio de Janeiro – ao menos, por enquanto.

O grupo Ladysmith Black Mambazo é reconhecido como embaixador cultural da África do Sul, sendo convidado pelo próprio Nelson Mandela para cantar na cerimônia em que lhe foi entregue o Nobel da Paz, em 1993. Entre as tradições africanas que o grupo leva para o mundo está a memória do rei Shaka Zulu (c.1778-1828), “venerado como uma figura singular que fez nascer o indomável espírito de luta dos zulus — o mesmo espírito que permitiu aos sul-africanos perseverar em meio à dominação européia de sua pátria por quase dois séculos de apartheid”. Essa versão da história contada pelo Mambazo e recontada numa “narrativa de sangue e honra” (nas palavras de Demétrio Magnoli ao se referir ao nacionalismo negro da elite política zulu) nasce não dos fatos, mas da embalagem ideológica que os transforma em arma.

O rei Shaka Zulu notabilizou-se por esmagar tribos vizinhas – negras como a sua própria tribo – através do terror nas guerras. Seu curto império de 12 anos fez dele o “Napoleão Negro” ou o “Átila da África”, no dizer de historiadores. O economista e psicanalista holandês Manfred Kets de Vries, especialista em liderança empresarial, coloca Shaka Zulu ao lado de Pol-Pot, Mao Tse-tung e Fidel Castro e analisa sua trajetória como protótipo do líder totalitário. O Império Zulu fundado pelo terror de Shaka é um exemplo de que não existe a telúrica África ancestral do movimento negro, ligada à pureza da terra e infensa à ganância de poder. Pelo contrário, o próprio tráfico negreiro praticado pelos europeus se assentava na escravidão pré-existente na África.

Professores assassinos

Em seu livro, Demétrio Magnoli analisa passado e presente de muitas nações africanas e desnuda a intrincada teia que envolve colonizadores e nativos, capaz de enredar o negro em fictícias identidades étnicas criadas pelo branco. Na África do Sul, por exemplo, as nove etnias que emergiram das leis raciais de meados do século passado eram recriações etnológicas do império britânico: “Os sábios classificadores não se envergonharam sequer de inventar a etnia ndebele, mesmo `ndebele´ sendo apenas um termo da língua shoto usado para designar os zulus”. E aí mora o perigo: “Quando um rótulo étnico tem potenciais repercussões na vida prática, as pessoas forjam novas identidades ou selecionam, entre mais de uma identidade viável, aquela mais bem adaptada a seus interesses.” Como estão fazendo os vestibulandos brasileiros para se adaptarem aos tribunais de raça das universidades públicas.

Os ditadores africanos e os defensores das cotas raciais no Brasil têm algo em comum – a reivindicação de identidades étnicas supostamente ancestrais, brotadas do solo africano. “Invoca-se o selo de autenticidade étnico com base em supostas tradições pré-coloniais, mas um exame dessas narrativas evidencia que as `etnias´ e as `tribos´ em nome das quais falam as lideranças políticas não passam, no mais das vezes, de referências estabelecidas justamente pelas administrações coloniais”, sustenta Magnoli. O próprio conceito de “negro” – que na linguagem politicamente correta se opõe a “preto”, por carregar uma suposta ancestralidade africana – não passa de invenção do colonizador. Como observa Magnoli, “nos tempos pré-coloniais os africanos não eram `negros´, mas apenas integrantes de um clã, uma comunidade, um reino; a raça foi importada da Europa e da América, como conceito diferenciador”. Constatação que levou o jornalista polonês Ryszard Kapuscinski, autor de Ébano, a dizer que a África não existe. O que vale também para o nosso índio: uma ficção que se define a partir de outra – o “branco”.

Mesmo em Ruanda, onde as fronteiras entre hutus e tutsis são demarcadas pelo sangue que jorra de corpos igualmente negros, picotados a facão, quase nada sustenta os mitos étnicos que levam os dois povos ao genocídio recíproco. Como informa Magnoli, as diferenças entre tutsis (proprietários de rebanho), hutus (camponeses) e tuás (empregados domésticos) foram intensificadas com a opressiva colonização belga, após a Segunda Guerra, quando a rivalidade interna da Bélgica entre valões e flamengos potencializou os conflitos na colônia. O banho de sangue começou em 1959, quando uma insurreição dos camponeses, “descrita pelos intelectuais hutus como uma Revolução Francesa na África”, matou dezenas de milhares de tutsis e levou outros 150 mil a fugirem do país, com destino a Uganda.

E o que é mais grave: o novo genocídio deflagrado pelo governo hutu em 1994, responsável pelo massacre de cerca de 1 milhão de pessoas, teve origem nas cátedras universitárias, como afirma Michael Chege, do Centro de Estudos Africanos da Universidade da Flórida. No artigo “Africa´s Murderous Professors” (“Os Professores Assassinos da África), publicado em 1996, ele sustenta que o “catecismo da loucura” que se abateu sobre Ruanda “não era da autoria de algum mágico africano exaltando a supremacia da raça hutu em antigas guerras `tribais´, mas uma realização de historiadores profissionais, jornalistas e sociólogos ruandeses”. Entre esses intelectuais estavam Ferdinand Nahimana (doutor em história pela Universidade de Paris, com tese sobre as origens do Estado ruandês), Casimir Bizimungo (médico com doutorado nos Estados Unidos), o historiador Leon Mugesira e o jornalista e editor Hassan Ngeze. “Todo o morticínio em Ruanda foi cuidadosamente planejado por intelectuais e esses intelectuais passaram por esta universidade”, admitiu Emmanuel Bugingo, o novo reitor da Universidade de Ruanda após o genocídio.

Balcanização artificial

Outras Ruandas podem estar em gestação nas universidades do mundo – inclusive nas brasileiras. Talvez o maior mérito do livro de Demétrio Magnoli seja a demonstração de que as estridentes minorias contemporâneas – com seu enjoativo discurso autoflagelante – não passam de crias bastardas do cruzamento de ONGs com universidades, nutridas pelo dinheiro farto da Fundação Ford. Aborígenes da Austrália, tártaros da Criméia, nativos da Cordillera filipina e até o governo separatista da Chechênia, entre dezenas de outras minorias, integram a Organização das Nações e Povos Não Representados (Unpo), que recebe generosas doações da União Européia, de agências públicas de Taiwan, Holanda, Suíça e países nórdicos, da Fundação MacArthur e, sobretudo, da Fundação Ford. Cada uma dessas minorias quer criar um regime de autonomia regional em seus respectivos países. É a balcanização artificial do mundo financiada pelas ONGs transnacionais – com as bênçãos da ONU, a nova Internacional Comunista.

Demétrio Magnoli é taxativo ao descrever esse fenômeno: “Diferentemente das nações, que emanam de um processo complexo de fabricação de uma história, uma literatura e uma geografia, as `minorias´ da globalização emergem apenas de uma postulação étnica superficial. Nações podem até ser interpretadas como imposturas, mas são imposturas nas quais o povo acredita. As `minorias´, em contraste, são imposturas nas quais nem mesmo os impostores acreditam.” Para Magnoli, as elites multiculturalistas que formam essas minorias artificiais “não precisam de apoio popular, pois a sua legitimidade se conquista nos salões suntuosos das instituições internacionais”. Os “povos indígenas” – que Magnoli grafa entre aspas – são parte significativa dessa farsa.

Com um patrimônio de 13,7 bilhões de dólares, a Fundação Ford destinou 280 milhões de dólares, em 2001, para criar programas de pós-graduação voltados para a formação de “lideranças emergentes de comunidades marginalizadas fora dos EUA”. Segundo Magnoli, “as subvenções da Fundação replicaram nas universidades brasileiras os modelos de estudos étnicos e de `relações raciais´ aplicados nos EUA e consolidaram uma rede de organizações racialistas que começaram a produzir os discursos e demandas dos similares norte-americanos”. Hoje, as organizações não governamentais dividem com as universidades o ouro de Ford: elas já ficam com 54% das doações, quando na década de 70 ficavam com 4%. Mas praticamente todas elas têm um grupo universitário de pesquisa por trás, o que dá no mesmo.

Ao financiar universidades brasileiras, a Fundação Ford privilegiou aquelas que instituíram políticas de cotas raciais. Vale a pena transcrever o que diz Demétrio Magnoli sobre as doações feitas pelo escritório da Fundação Ford no Brasil, instalado em 1962 no Rio de Janeiro: “A Universidade Estadual do Rio de Janeiro recebeu uma doação de 1,3 milhão de dólares, que figura na lista das maiores da história do escritório, em 2001, quando implantou seu programa pioneiro de cotas raciais. A Universidade de Brasília implantou seu programa em 2004 e nos anos seguintes recebeu sucessivas doações. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul resistiu até 2007, quando instituiu cotas raciais e recebeu 130 mil dólares. A Universidade Federal de São Carlos, outra `retardária´, foi contemplada com uma doação excepcional de 1,5 milhão de dólares, em 2007, ano em que aderiu ao sistema de cotas.”

Ao longo dos últimos dez anos, o filósofo Olavo de Carvalho tem escrito que o movimento social e os acadêmicos militantes são financiados pela Fundação Ford e organizações do gênero, mas os intelectuais nunca deram crédito a essa informação, alegando que o filósofo é um “direitista”. Agora, quem está mostrando o caráter ideológico e até mercenário do movimento social e de boa parte das pesquisas ditas científicas é um intelectual integrado ao próprio sistema universitário. O sociólogo Demétrio Magnoli é doutor em geografia humana pela USP e membro do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional da mesma instituição. Sua atitude é de uma rara coragem para um acadêmico brasileiro, o que o coloca ao lado do filósofo gaucho Denis Lerrer Rosenfield, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que também desmascara muitas farsas acadêmicas.

Demétrio Magnoli faz essa denúncia com base em duas fontes insuspeitas: relatórios da Fundação Ford, incluindo o livro Os 40 Anos da Fundação Ford no Brasil: Uma Parceria para a Mudança Social, organizado por Nigel Brooke e publicado em 2002 pela própria fundação em co-edição com a Editora da USP; e o livroFoundations and Public Policy: The Mask of Pluralism (Fundações e Políticas Públicas: A Máscara do Pluralismo), publicado em 2003 pela cientista política Joan Roelofs, professora emérita da Universidade do Keene, nos Estados Unidos, e marxista, além de ter sido militante de uma ONG alternativa. Joan Roelofs analisa no mundo o que Nigel Brooke confirma no Brasil: de 1962 a 2001, a Fundação Ford investiu no país 347 milhões de dólares, em valores corrigidos pela inflação. Indígenas, negros e outras minorias artificialmente criadas por militantes travestidos de cientistas sociais foram os principais beneficiários desses recursos.

Ataque aos mestiços

Uma Gota de Sangue mostra que o multiculturalismo atua em duas frentes: uma teórica, dentro da academia, e outra prática, através do ativismo social. Foi assim em praticamente todos os países que adotaram ações afirmativas e no Brasil não é diferente. O marco da luta teórica no país é a tese de cátedra do sociólogo Florestan Fernandes, A Integração do Negro na Sociedade de Classes, defendida em 1964 na USP. Demétrio Magnoli admite que “a publicação da obra de Florestan inaugurou uma etapa de revisão ideológica implacável de Casa Grande & Senzala“, a clássica obra de Gilberto Freyre, publicada em 1933 e responsável por valorizar a miscigenação ocorrida na sociedade brasileira, consolidando-a num arcabouço teórico profundo, já que, em si, a tese de Freyre não era radicalmente nova e estava presente, por exemplo, no próprio espírito da Semana de Arte Moderna de 1922.

A própria Unesco, quando financiou o estudo de Florestan Fernandes sobre os negros, tinha o objetivo de compreender a “harmonia que existe no Brasil” entre as raças, sem imaginar que o tiro sairia pela culatra, pois o patriarca da sociologia uspiana, com o olho enviesado pelo marxismo, consolidou o caminho para a fabricação do racismo no país, através da importação para o Brasil do cenário racial dos Estados Unidos. Florestan Fernandes reforçou o “pulo do gato” que já tinha sido dado dez anos antes por Oracy Nogueira, aluno do brasilianista Donald Pierson e filiado ao Partido Comunista, que, em 1954, distinguiu o racismo norte-americano, calcado na “origem”, e o suposto racismo brasileiro, baseado na “aparência”. “O contraste entre os dois países era óbvio demais para ser ignorado, mas os sociólogos do pós-guerra estavam propensos a bombardear Freyre e a mestiçagem que lhes pareciam uma ordem social injusta. A ofensiva se deu por meio da importação das categorias bipolares norte-americanas [branco e negro]”, afirma Magnoli.

O sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso daria continuidade a essa tendência com a publicação, em 1962, dos estudos Cor e Mobilidade Social em Florianópolis Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional, criticados com muita propriedade pelo sociólogo e jornalista Ali Kamel, diretor de jornalismo da TV Globo, no livro Não Somos Racistas. Toda essa produção marxista sobre os negros, capitaneada pela USP, seria abençoada pelo brasilianista Thomas Skidmore, autor de Preto no Branco, publicado em 1976, e crítico visceral de Gilberto Freyre. “Os brasilianistas de meados do século 20 inspiravam-se no Brasil para atacar a segregação racial nos EUA. Skidmore inspirou-se nos EUA para atacar, com uma mistura de virulência e desinformação, a identidade nacional brasileira”, critica Demétrio Magnoli, com uma franqueza inusitada nos meios acadêmicos brasileiros.

Esse racismo à brasileira – fabricado pelas universidades – acabou repercutindo nas leis. O esforço para dividir legalmente o país entre brancos e negros, negando o aspecto positivo da miscigenação, foi dado em 13 de maio de 1996, com o Programa Nacional de Direitos Humanos, de Fernando Henrique Cardoso. Entre os objetivos do programa constava: “Determinar ao IBGE a adoção do critério de se considerar os mulatos, os pardos e os pretos como integrante do contingente da população negra”. Para Magnoli, “o sociólogo feito presidente, usando algo menos que um decreto, assinava o termo de execução simbólica de Gilberto Freyre”. Segundo ele, entre os governos FHC e Lula “há continuidade e ruptura no tema das políticas raciais”. Lula continuou o tom multiculturalista de seu antecessor, mas rompeu a moderação prática, dando mais autonomia às organizações racialistas dentro do aparelho de Estado.

Com a criação da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, o governo Lula implantou uma série de políticas racialistas, como a “classificação racial compulsória dos estudantes em todos os níveis” e a criação do Programa de Saúde da População Negra, que, para Magnoli, “tem vastas repercussões identitárias”. Essas políticas foram sintetizadas no Estatuto da Igualdade Racial, proposto pelo senador Paulo Paim, do PT do Rio Grande do Sul. Segundo Magnoli, a pretexto de promover o negro, o Estatuto suprime a igualdade e a cidadania de todos: “Como na Ruanda dos belgas ou na África do Sul do apartheid, os brasileiros passariam a portar um rótulo oficial de raça.” O verbo está no condicional porque, quando Magnoli concluiu o livro, em meados deste ano, o Estatuto da Igualdade Racial ainda estava parado na Câmara, barrado pela bancada ruralista, mas, em 8 de setembro último, ele foi aprovado e voltou para o Senado, que deve aprová-lo, cremando o que sobrou de Gilberto Freyre – simbolicamente executado por Fernando Henrique e esquartejado por Lula.

As conseqüências dessa política de Estado voltada para a racialização compulsória do Brasil são imprevisíveis. A miscigenação entre brancos e negros é um fato que desmente a tese de que no Brasil existe um racismo igual ou pior do que o que houve nos Estados Unidos. O objetivo das políticas de cotas é criar o ódio racial no Brasil – desconhecido até mesmo no tempo da escravidão. Tanto que, em 1849, o naturalista alemão Karl Friedrich Von Martius defendia que o Brasil se originou da “mescla de três raças”, que ele chamou de “confluência de três rios, que simbolizariam as raças branca, negra e indígena”. Mas os arautos do multiculturalismo, como observa Magnoli, “estão dizendo que o Brasil fracassou como nação e deve começar de novo”, pois, para eles, “a mestiçagem é uma mentira abominável” sobre a qual o país se ergueu.

Dogma do DNA

Insurgindo-se contra essa pregação racialista, Demétrio Magnoli encerra seu livro afirmando que “há algo de muito positivo, para toda a humanidade, no projeto nacional do Brasil” e, retomando a metáfora de Von Martius, conclui: “Nós imaginamos que as águas podem e – e devem! – se misturar. Que a única raça importante é a raça humana”. Essa afirmação do autor é feita com base nos últimos achados da genética que contestam a existência de raças. Magnoli lembra que, no ano 2000, os geneticistas Francis Collins e Craig Venter, lideres do projeto de mapeamento do genoma humano, declararam conjuntamente que “nós todos somos 99,9% geneticamente iguais, independente de raças”. Para intelectuais como Demétrio Magnoli, essa constatação comprova que não existem raças, logo, não pode haver cotas raciais.

Ao pensar assim, Magnoli, sem perceber, flerta com o racismo científico do século 19, que ele tanto condena. Ancorar-se na igualdade biológica supostamente ditada pelo DNA para combater o racismo é tão perigoso quanto nutrir-se da falaciosa ancestralidade étnica que, a pretexto de proteger as minorias, destrói a própria igualdade humana. Não existe a certeza biológica de que não há as raças (até porque uma verdadeira ciência só tem certezas provisórias) – o que há é a proibição de se tocar no assunto. Diversos cientistas de peso continuam acreditando em raças e até mesmo em diferenças entre elas. Mas essa visão pode custar o emprego do cientista, como afirmou o sociólogo norte-americano Charles Murray, autor do livro The Bell Curve (A Curva do Sino) em parceria com o psicólogo Richard Hernstein (1930-1994), numa entrevista à Folha de S.Paulo, em 5 de novembro de 2007, a propósito de uma polêmica declaração de James Watson (Prêmio Nobel de 1979 e um dos descobridores do DNA) a respeito da inteligência dos negros, que, segundo ele, seria menor que a dos brancos.

Magnoli está convicto de que a genética demonstrou “a natureza literalmente superficial das diferenças entre as chamadas raças”. Ora, a diferença genética entre homem e mulher também é superficial, então, por que não negarmos o sexo biológico, como quer o movimento gay, instaurando o Estatuto da Igualdade de Gêneros, que transformaria transexuais de toda ordem numa categoria tão concreta quanto “homem” e “mulher”? Os obstetras, no ato do parto, seriam proibidos de dizer à mãe: “É menino” ou “É menina”. Teriam que dizer: “Seu filho é genitalmente masculino, mas ainda não sabemos qual será a sua orientação de gênero” – e vice-versa. Parece piada, mas não é. Na prática, é o que já começa a ocorrer, pois as escolas públicas de todo o país estão sendo obrigadas a permitir que travestis usem o banheiro feminino, caso queiram, ainda que uma menina de 11 anos venha a se assustar com o pênis avantajado daquela suposta mocinha de 16 que se despe diante dela no banheiro escolar freqüentado pelas estudantes pré-adolescentes e adolescentes de várias idades.

Mas o perigo de fazer do DNA a palavra final sobre raças vai muito além. Se não podemos falar de raças porque as diferenças genéticas entre elas não passam de 6%, como lembra Magnoli, logo não poderemos falar de “homens” em relação a “animais”, pois a similaridade genética entre homens e chimpanzés chega a 99,4%. Sem dúvida, a genética vem embaralhando não só as fronteiras entre as raças, mas até mesmo entre as espécies. Em 1999, o polêmico geneticista italiano Severino Antinori fecundou esperma de quatro homens estéreis em testículos de rato, gerando quatro crianças. E, em 2002, cientistas da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, conseguiram fazer com que testículos de ratos produzissem esperma funcional de porcos e bodes.

Como a diferença entre o material genético de homens, ratos e macacos é desprezível, levar em conta apenas o DNA é abrir caminho para que a ciência reivindique o homem como cobaia. O premeditado assassinato de Terry Schiavo é um prenúncio desse sombrio “admirável mundo novo” que a ciência nos reserva, como profetizou Aldous Huxley. Se a cultura, interpretando mal a biologia, leva à segregação racial, a biologia, desprezando completamente a cultura, leva a experimentos macabros. No fundo, a alternativa que nos propõe Magnoli é entre Gobineau e Mengele. Ou seja, se desprezarmos completamente a cultura, que – com base em diferenças biológicas – criou as raças, o resultado não será uma humanidade mais igual e, sim, uma humanidade nula.

De assassinatos a prostituição

“As pesquisas indicam que a perseguição racial no Brasil é percebida como um fenômeno bastante minoritário, ainda que algumas de suas manifestações sejam intensas. O exemplo notório de uma dessas manifestações é a seleção, por agentes policiais, de jovens de pele mais escura como suspeitos prévios de atos ilícitos.” Essa afirmação é de Demétrio Magnoli no momento mais infeliz das 400 páginas de Uma Gota de Sangue. Era de se esperar que um autor tão preparado não repetisse esse preconceito tacanho contra os policiais, acusando-os explicitamente de “perseguição racial”. Por acaso, nossa polícia é constituída de gendarmes teutônicos que fazem do negro o seu judeu predileto?

Como o próprio Magnoli não se cansa de dizer em seu livro, o Brasil é pardo. Ora, policiais e bandidos também são pardos — e há muitos pretos entre eles, pois também são pobres. Essa idéia de que a polícia é racista e persegue os negros devia acarretar processos por calúnia e difamação contra os intelectuais universitários. Quem sabe assim eles não abdicassem de sua empáfia e tentassem compreender melhor a psicologia de um policial, que – para garantir a nossa tranqüilidade – é obrigado a viver entre lobos.

Imaginar que um policial escolhe suspeitos pela cor é primitivismo mental de quem não conhece o dinamismo da vida. Na cabeça de intelectual brasileiro, policial é menos do que verme. A socióloga Áurea Guimarães, doutora pela Unicamp, conversando com um policial da escola que lhe serviu de objeto de pesquisa, ficou espantada ao ver que ele “conseguiu perceber que haviam diferenças não só entre as pessoas mas entre as escolas”. Ora, se até os cães percebem diferenças entre as pessoas, por que a doutora da Unicamp achou que um policial não fosse capaz de percebê-las?

Mas Demétrio Magnoli não é menos depreciativo em relação à polícia. A sua acusação de que os policiais perseguem os negros implica em considerar duas hipóteses: ou os policiais são conscientemente racistas ou eles agem exclusivamente por instinto. A primeira hipótese é o próprio Magnoli quem a descarta, uma vez que ele não reconhece racismo no Brasil e os policiais são brasileiros, não são ETs. Resta a segunda hipótese e, nesse caso, Demétrio Magnoli se comporta como Áurea Guimarães, ou seja, não consegue ver no policial mais do que um cão estrumado pelo soldo que recebe.

Não passa pela cabeça da elite universitária que o trabalho da polícia é muito mais dinâmico do que sua burocrática atividade acadêmica e que um policial, em sua ronda noturna, elege o suspeito não por conta de um único fator, mas com base numa série de fatores, no mais das vezes, corretos. A suspeição não está na cor, mas no olhar, nos gestos, na linguagem, no andado, nas companhias, no local, no horário, enfim, num conjunto de sinais que o policial experiente sabe perceber e analisar com mais argúcia do que a de muitos semióticos das universidades.

Sem contar que a polícia acompanha a sociedade e o que ontem era fator de suspeição hoje não é mais. Na minha infância, todo e qualquer careca, se não fosse vestibulando ou recruta, tendia a ser egresso da cadeia, e a polícia – cumprindo seu dever – tratava-o como suspeito. A mesma coisa ocorria com os tatuados. Hoje, tatuagem e cabeça raspada – dois bárbaros costumes que nasceram nas penitenciárias – ganharam cabeça e corpo da população, e a polícia, obviamente, já não sai revistando todo tatuado e careca.

A acusação leviana de que a polícia é racista torna os intelectuais universitários ainda mais responsáveis pela tragédia do Rio de Janeiro, que não decorre da falta de Estado nas favelas, como dizem os acadêmicos, mas da falta de lei nas penitenciárias. O poder de fogo do tráfico só é possível porque os próprios presos controlam todas as penitenciárias do país. Nelas, sim, o Estado não entra. A partir das cadeias, inclusive as de segurança máxima, os presos deflagram as mais variadas ações criminosas, desde assassinatos por encomenda até a prostituição de meninas, passando por guerras urbanas como a do Rio de Janeiro, cuja topografia peculiar ajuda suas operações.

O outro lado do AfroReggae

A leniência do Estado com os bandidos foi reforçada pelo mito criado nas academias de que a polícia persegue os mais escuros. Grande parte das benesses concedidas pelo Estado aos presidiários decorre da tese de que eles foram presos por serem negros e pobres. No Rio de Janeiro, há toda uma cultura que reforça esse mito. Prova disso é que o abate do helicóptero pelos bandidos foi facilmente eclipsado pela morte de Evandro João da Silva, o líder do AfroReggae. Antes mesmo de qualquer investigação, já se tinha o culpado por essa morte – a polícia. Aliás, se há um suspeito de todos os crimes no Brasil, inclusive daqueles crimes que não comete, esse suspeito chama-se “polícia”.

Diante de qualquer cadáver, o investigador deve fazer a pergunta básica: “A quem interessa o crime?” No caso de Evandro João da Silva, a resposta é óbvia: sua morte interessa aos bandidos. Justamente quando a ação mais cinematográfica dos traficantes ameaçava reverter-se contra eles (uma vez que a queda do helicóptero poderia levar a nação a exigir uma represália à altura), o líder do Afro-Reggae foi morto com a suposta cumplicidade de policiais, que, antes de qualquer investigação, foram tratados pelo próprio governador Sérgio Cabral como cúmplices do assassinato.

O morto era amigo da bandidagem dos morros, prova disso é que andava sozinho, altas horas da madrugada, em plena guerra do tráfico. Deve ter reagido por achar impensável ser morto por pessoas que provavelmente o conheciam. (Aliás, a imprensa, que condena apressadamente a reação de qualquer vítima, não condenou a dele.) Qualquer polícia do mundo, na primeira entrevista à imprensa sobre o caso, aventaria a hipótese de que o crime pode ter sido encomendado pelos chefões do tráfico para acuar o Estado. Mesmo se ficasse comprovada a participação dos policiais, essa hipótese não poderia ser descartada, uma vez que também há policiais na folha de pagamento dos traficantes.

Mas o que jamais poderia ocorrer acabou ocorrendo — o crime dos bandidos contra a população do Rio foi totalmente eclipsado pelo crime dos policiais contra um membro do AfroReggae. E nem há certeza de que eles realmente cometeram o crime de omissão de socorro de que estão sendo acusados. Eles podem não ter visto mesmo o corpo agonizante de Evandro ou podem tê-lo confundido com um morador de rua bêbado. Talvez os policiais estejam falando parcialmente a verdade, omitindo apenas o fato de que roubaram os bandidos. Mas esse é um crime quase normal, levando em conta que o Rio é uma terra sem lei, onde policial bom é policial morto.

Senão vejamos. Em 7 de maio de 2006, a Folha de S.Paulo publicou reportagem sobre a visita que 21 membros do Comitê de Jovens Empreendedores da Fiesp fizeram a favelas do Rio. A convite de José Júnior, líder do AfroReggae, eles visitaram alguns dos famosos redutos do narcotráfico – Vigário Geral, Cantagalo, Complexo do Alemão e Parada de Lucas. No morro do Cantagalo, foram recebidos num prédio de 40 andares, onde funciona uma espécie de “ongolândia”, segundo Laura Capriglione, autora da reportagem. Ela observou que os moradores da favela estão tão acostumados com celebridades subindo e descendo o morro que nem ligaram para os jovens da Fiesp.

“Os visitantes notaram a profusão de tênis lindos, novíssimos e custando até R$ 700 nos pés dos favelados, que também tinham `bombetas´ (bonés) e camisas Nike. Enquanto isso, o diretor do Comitê de Jovens Empreendedores da Fiesp, Ronaldo Koloszuk, tinha um mero All Star de R$ 54 nos pés”, contou a repórter. Depois, os jovens da Fiesp foram levados para o Complexo do Alemão, sendo recebidos por crianças: “Meninos risonhos fazem gestos estranhos com os dedos da mão direita. Parece um `V´ da vitória que cai de lado e volta a ficar de pé.” Um cicerone esclareceu aos visitantes: era o “CV” de Comando Vermelho.

Mas o pior vem a seguir: “Os paulistas descem das vans. Um deles vê uma fila bem organizada e, paulista que é, entra nela, imaginando ser a fila para entrar no baile funk que todos sabiam ser o destino do passeio. Logo, nota que entrara na fila de uma barraca de cocaína, onde garotos esticavam caprichosamente carreiras de pó, para consumo de narizes vorazes. `Proibido fotografar´, avisa o produtor JB, do AfroReggae, ele mesmo ex-traficante, vinculado ao CV.”

E tem mais: “A passeatinha de paulistas vai andando pela rua principal e trombando com dezenas de favelados que despejam – sem economizar – cocaína em cima de folhas de papel, depois enroladas como canudos que serão vertidos diretamente nas narinas dos usuários. Droga demais. O cigarro de maconha normal, lá, não pode ser apelidado de `fininho´. Com diâmetro de 1,5 cm e comprimento de 10 cm, a brasa grande brilhando na escuridão, parece um charuto”.

O passeio dos jovens da Fiesp nos morros controlados pelo narcotráfico teve até um carro desfilando devagar, com oito fuzis apontados em suas janelas abertas. “Os traficantes queriam ser vistos”, conta a repórter. Tudo isso, é bom lembrar, sob a coordenação do AfroReggae, criado em 1993 com o objetivo de valorizar e divulgar a cultura negra, segundo informa a página do grupo na internet. Se esse cenário descrito pela repórter fosse de fato “cultura negra”, Demétrio Magnoli não poderia se queixar de racismo caso a polícia fizesse a pergunta óbvia: “De que lado está o AfroReggae? Da lei ou do crime?”

http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a_fabricacao_do_racismo

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