A Lógica do Reino

A espiritualidade apresentada por Cristo desafia até os mais religiosos

Recentemente, assisti a um sermão numa igreja paulistana, cuja mensagem fazia parte de uma série de pregações com título no mínimo provocativo: “Ateísmo cristão”. No primeiro culto, o pastor daquela congregação justificou a série comparando dois tipos de ateus. O primeiro é cético; por isso, nega a existência de Deus. O segundo é professo cristão, mas vive como se Deus não existisse. Em seguida, o ministro disse que esse tipo de religioso é encontrado em todas as denominações, inclusive naquela comunidade. E desafiou os fiéis: “Esta série é para quem tem a coragem de admitir suas próprias hipocrisias.”

Durante três meses, aquela congregação refletiu sobre a incoerência de professar o cristianismo, mas não conseguir perdoar, desconfiar da justiça de Deus, viver preocupado, não testemunhar, buscar o sucesso a qualquer custo, ter vergonha do próprio passado e não acreditar que Jesus voltará em breve. Aquela igreja foi confrontada com a superficialidade de sua fé.

Essa série me fez lembrar de outro sermão contracultural e de aplicação universal. No conhecido Sermão do Monte, Jesus falou sobre a lógica do reino, ou seja, os príncípios que regem o Céu e que devem caracterizar a vida dos Seus discípulos. João Batista (Mt 3:1, 2) e Cristo (Mt 4:17) pautaram seu ministério pelo preparo de pessoas para o reino. Porém, por incrível que pareça, a mensagem de Jesus contestou a lógica da espiritualidade de Seu povo, especialmente dos que eram tidos como mais religiosos.

Mas por que as inspiradoras palavras do Mestre sobre felicidade (bem-aventuranças), testemunho, relacionamentos, oração, jejum e prioridades enfrentaram a resistência de muitos? Jesus contrariou a expectativa do público. Ele falou de autenticidade num tempo em que “o espírito de verdadeira devoção se havia perdido na tradição e no cerimonialismo” (O Maior Discurso de Cristo, p. 2, 3).

Cristo não ficou na superfície, Ele condenou a mera aparência de piedade. Tratou da essência da espiritualidade humana. Questionou a razão da prática religiosa de Seus contemporâneos. Levou o povo a pensar em religião além do nível do comportamento e das crenças (aceitação cognitiva), mas discutiu fé no nível do sistema de valores e visão pessoal de mundo. Fez isso porque sabia que é apenas nessa dimensão que se consegue real transformação e mudanças duradouras.

Outra expectativa da multidão que Jesus contrariou foi quanto à natureza espiritual e não política de Seu reino. Os escribas e fariseus imaginavam o dia em que “teriam domínio sobre os odiados romanos, e possuiriam as riquezas e o esplendor do maior império do mundo” (ibid., p. 5). Por sua vez, os pobres camponeses e pescadores esperavam trocar a “única e ordinária vestimenta que os cobria de dia e lhes servia de cobertor à noite” pelos “ricos e custosos trajes de seus conquistadores” (ibid.).

Diante desse quadro, fica mais fácil entender quão paradoxais soaram as palavras de Cristo. Ele associou felicidade com humildade, mansidão, paz, pureza, misericórdia e perseguição. Disse para marginalizados que eles poderiam fazer a diferença, sendo o sal da Terra e a luz do mundo. Afirmou que não tinha vindo contradizer Moisés nem qualquer profeta, mas exemplificar no mais alto sentido os princípios revelados no Antigo Testamento. Em Seu discurso, Ele apresentou o espírito da lei para uma geração que havia aprendido a viver explorando as brechas da letra da lei. Para esses, Cristo disse que ódio é igual a homícidio e cobiça é igual a adultério.

No fim do sermão, os que estavam espiritualmente famintos havia muito tempo se sentiram saciados. Foram alimentados pelo Pão da Vida. A multidão ficou maravilhada com Sua doutrina, porque, ao contrário dos escribas, Ele ensinava com autoridade (Mt 7:28, 29). Autoridade de quem personificou a lógica do reino.

 

Wendel Lima é editor associado da Revista Adventista e editor da revista Conexão JA

Envolva-se: http://reavivamentoereforma.com/ 

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