Do Absurdo da Vida sem Deus #1

Considerações preliminares:

Quem sabe um pouco está convicto de que a ciência vai refutar a religião. Quem, porém, de fato sabe um pouco mais enxerga que a cada passo se aproxima de uma concepção correspondente à da religião.
Jean Guitton

Antes de iniciar essa série de textos que procuram mostrar, não que existe um Deus, mas antes do absurdo de vida pautada a partir do ateísmo, quero deixar claro o apreço e o carinho que tenho pelo livre pensar e principalmente para com os ateus que são, antes de qualquer rotulação, pessoas sinceras e autênticas que afirmam aquilo que pensam, ainda que sofrendo um certo desprezo por parte de alguns. Esse texto, portanto, inicia-se justamente nesta admiração que eu mesmo tentei, ainda por um período bastante curto, seguir – o caminho sem Deus – e que, para mim, mostrou-se infrutífero. Desse modo, ao afirmar do absurdo de uma vida sem Deus, afirmo-o a partir de um ponto de vista muito particular e subjetivo, mas que não poderia deixar de compartilhar.

Ainda que meu texto possa incorrer numa certa agressividade ou em afirmações categóricas, elas estão abertas ao questionamento constante e goza de uma certa indulgência no sentido de que , para mim, Deus significa de muitas maneiras, mais que mera idéia, mas uma pessoa de fato – aspecto esse que somente à fé importa, não sendo possível ao leitor ir além da minha mera afirmação.

Ora, falar sobre Deus e sua inexistência é um desses temas que podem passar despercebido, ou ser mera conversa de bar ou ser algo que realmente tira o seu sono. Sinceramente eu acredito que é um debate enriquecedor, ainda que eu mesmo não tenha perdido nenhuma noite de sono por pensar que ele poderia deixar de existir. Posso dizer que para mim é bastante natural admitir essa existência, ainda que admitir isso não prova coisa alguma.

Uma das coisas que me deixa sobremodo perplexo é uma certa divisão asséptica entre ciência e religião. Ela redunda em uma desinformação por parte dos cientistas em assuntos de religião assim como agravou o déficit de formação científica na Igreja e na teologia – acentuando a desconfiança mútua. Esse isolamento de cada parte resulta numa grave e quase irremediável desintegração do saber, haja visto que o homem é um ser integral, não somente cérebro ou razão, nem somente coração ou espírito. E aqui entra um conceito forte de História: pois há uma só história e nela não pode haver dicotomia; isso significa dizer que há uma só realidade; pois religião e ciência tratam dos mesmos fenômenos e do mesmo ser humano que observa e interage junto a esses fenômenos. Essa separação é esquizofrênica, pois leva o homem a enxergar o mundo com os olhos vesgos: no âmbito particular crê de determinada forma, no âmbito do público, age de acordo com o padrão “cientificamente aceito”, impedindo-o de juntar as peças de sua existência ao impor a obrigação de viver em ambientes desiguais, dispondo de valores desiguais.

Contudo, não pode haver mera nivelação desses conhecimentos, pois fé e razão (entendidas aqui como religião e ciência, termos que serão usualmente utilizados nesta série como sinônimos) são e devem permanecer como distintas, mas não antagônicas. É necessário uma aproximação e penso que a aproximação deve ser dada com liberalidade e boa vontade; é preciso, desde agora, estar disposto a encontrar a verdade, mesmo que essa contradiga minha opinião atual. Com isso quero dizer que é preciso, por parte dos leitores, a disposição em firmar-se na verdade e não na vontade, pois eu posso ser religioso por mera vontade, mesmo que muitos argumentos sejam dados contra minha crença, e posso querer permanecer agnóstico ou ateu por mero querer, e não porque os argumentos foram convincentes. Talvez aí possamos ultrapassar as tradicionais barreiras decorrentes das suspeitas de que a ciência atrofia o discurso religioso e sofre inibição por parte da religião; ao perguntar da importância da fé para a ciência é justo que se pergunte da importância da ciência para a fé.

Do Absurdo da Vida sem Deus busca trazer alguns argumentos, talvez ainda muito apaixonados, que procuram demonstrar justamente isso: que a vida é totalmente absurda e sem sentido sem admitirmos a existência desse Ser Supremo. Uma das coisas que acho fantástica é que o ateísmo se propõe a demonstrar a inexistência de Deus, ou pelo menos a falácia da afirmação de sua existência, ainda que mantenha certos valores que só podem ser admitidos se Deus de fato existe. Isso quer dizer que, ou aceitamos a idéia de um universo sem Deus e com Ele tudo o mais, ou aceitarmos certos aspectos da Sua existência e trazemos Deus de volta: não se pode abandonar Deus e ficar com suas bênçãos. Esse texto buscará, portanto, trazer à tona alguns questionamentos e ajudar, talvez, a que o leitor se decida de uma vez. Pois a pior coisa é um homem dividido, no sentido de não saber se crê ou descrê. É preciso em nosso tempo tomar partido e sair de sobre o muro: os religiosos temerosos devem devotar sua vida à sua fé ou abandoná-la de vez e os agnósticos devem crer em Deus ou agarrar-se ao ateísmo. Você não pode crer em Jesus e em Maomé ao mesmo tempo. Não pode ser cristão e duvidar da criação do mundo por Deus, nem pode ser ateu e gozar de certas noções que só são verdadeiras se admitirmos um Deus existente.

Este texto irá seguir uma linha muito simples de pensamento: da impossibilidade prática do ateísmo. A única solução que um ateu têm a oferecer é aquilo que Russell disse sobre estabelecer nossa vida sobre “o firme fundamento do desespero incessante”. Ou seja, no reconhecimento de que o universo é um lugar terrível e sem sentido e que a vida é um absurdo e, justamente por isso, devemos viver em amor uns para com os outros.

Isso parece bonito assim escrito e assim lido, mas o problema fundamental com essa solução é que é impossível viver de modo coerente e feliz a partir dessas verdades, pois quem procurar viver coerente, não será feliz; e quem estiver feliz, necessariamente não está sendo coerente. Francis Schaeffer explica que o homem contemporâneo mora um mundo de dois andares. No andar de baixo está o mundo finito e sem Deus, onde a vida é absurda; no andar de cima estão sentido, valor e propósito. O ateu (e o agnóstico) moram no andar de baixo, pois aceitam a total ou parcialpossibilidade da não existência de Deus. Só que ele não pode viver feliz num mundo absurdo, por isso constantemente dá saltos de fé ao andar superior a fim de estabelecer sentido, valor e propósito à sua existência, ainda que não tenha direito a isso por não crer em Deus. Esse homem é totalmente incoerente ao dar esse salto – e ele de fato o dá, sem suspeitar ou sem admitir sua fé de conveniência.

Ao meu ver existem cinco fenômenos que são evidentes em nossa experiência imediata que só podem ser explicados se admitirmos a existência de Deus, mas que aqueles que o negam também experienciam sem, contudo, perceber a contradição implícita, a saber: a racionalidade que dá sentido à nossa experiência do mundo físico; a vida, a capacidade de agir de forma livre; a consciência; o pensamento conceitual ou a capacidade de articular e entender símbolos, tais como a linguagem e, por último, a personalidade humana, o centro da consciência, do pensamento e da ação.

Apenas para estabelecer parâmetro, escrevo a partir do predicamento humano, que é um tipo de apologética considerada “cultural” pois não se preocupa tanto em questões positivas mas numa tentativa de demonstrar as conseqüências desastrosas para a existência, para a sociedade e para a cultura humana se Deus não existisse. Nesse sentido, pode-se dizer que é uma forma de Existencialismo, pois os precursores desse tipo de apologética também foram os que deram forma ao Existencialismo como Blaise Pascal, Dostoiévsky, Kierkegaard e Francis Schaeffer. Assim não escrevo a partir de um vácuo, mas de uma escola filosófica que possui um método e uma visão muito particular, ainda que excepcionalmente abrangente.

Essa série é dedicada ao amigo e amante do pensar, Hilton Gil, nunca alguém foi tão importante ao ponto de me fazer descrer da fé como ele. A você, Gil, dedico esses pequenos ensaios na esperança de não só ouvir teus comentários mas também abalar, de alguma forma, tua descrença!

  1. Bem já li. Considerações que já posso fazer:
    a) O artigo é longo e aborda já nessa primeira parte muitos pontos o que me leva a concluir que meu comentário ficará um pouco gigante e talvez a melhor forma de visualizá-lo não fosse através de um comentário mas de um artigo. Todavia, vou manter o padrão seguido até o momento.
    b) Continuo achando que o debate a respeito do tema sempre é válido. Ainda que nenhum dos confrontantes mude totalmente de opinião esse enfrentamento consequentemente nos leva a: 1) rever nossas posições; 2) melhorar nossos argumentos; 3) adquirir mais conhecimento. Então não vejo como isso pode ser ruim.
    c) Em relação a dedicatória cuja referência aponta a minha pessoa. Eu sinceramente não posso dizer que ao apresentar minha opinião sobre algum assunto (no caso aqui a religião) não espere/eo tenha por intenção convencer aquele com quem matenho o diálogo. Não obstante, nesse interagir sempre tento manter em mente duas coisas: 1) A minha posição pode estar equivocada. Portanto, sempre devemos analisar a posição contrária verificando se ela prevalece ou não sobre os argumentos que temos como verdadeiros; 2) Nunca quis impor o meu pensamento. Parece estranho mas explico. Pensamento é diferente de Forma de Pensar, nesse sentido, eu não nunca quis, nem procurei que qualquer pessoa partisse de uma conclusão minha. Penso que cada um deve chegar a uma conclusão por si mesmo. Então o que por vezes tento fazer é demonstrar e refinar a forma de pensar (o método/procedimento) pelo qual aquela pessoa chega a uma conclusão. As pessoas devem chegar a uma conclusão por si, não incorporar a conclusão de outros. Aprender a pensar de forma crítica, compreendendo o porque daquilo, não apenas aceitando como verdade algo que foi dito. Não há nada de desrespeitoso em se verificar novamente conclusões já assumidas, ainda que essas conclusões sejam a de pessoas que gozem de certa autoridade no assunto.
    d) Não penso que retirar a fé de qualquer crença seja um mérito. Aliás, como já disse antes, eu não tenho como objetivo fazer isso. Tenho como objetivo debater sobre o assunto e essa decisão deve partir da própria pessoa. Se em algum dado momento ela concluir que suas convições estavam equivocadas, ela assim o fará, caso contrário mantendo inabalada suas convições, é minha obrigação respeitar isso. Além disso minhas críticas são direcionadas ao objeto do debate (a religião) e não a pessoa. Por isso seria importante haver essa distinção para não levar as críticas para o lado pessoal.

    Enfim, vamos ainda debater por um bom tempo.
    Abraço.

  2. Considerações preliminares:
    Quem sabe um pouco está convicto de que a ciência vai refutar a religião. Quem, porém, de fato sabe um pouco mais enxerga que a cada passo se aproxima de uma concepção correspondente à da religião.
    Jean Guitton

    Quanto a frase de Jean Guitton, só faltou ele explicar quais os fatos e fundamentos que levaram-no a concluir isso. Pois essa citação é tão vaga quanto se eu asseverar: “Quem sabe um pouco está convicto de que a ciência a cada passo se aproxima de uma concepção correspondente à da religião. Quem, porém, de fato sabe um pouco mais enxerga que a cada passo a ciência cada vez mais refuta a religião.”

    Antes de iniciar essa série de textos que procuram mostrar, não que existe um Deus, mas antes do absurdo de vida pautada a partir do ateísmo, quero deixar claro o apreço e o carinho que tenho pelo livre pensar e principalmente para com os ateus que são, antes de qualquer rotulação, pessoas sinceras e autênticas que afirmam aquilo que pensam, ainda que sofrendo um certo desprezo por parte de alguns.

    Certo. Da minha parte eu também nutro o respeito pela pessoas de qualquer um independente da religião que a pessoa pratique.

    Esse texto, portanto, inicia-se justamente nesta admiração que eu mesmo tentei, ainda por um período bastante curto, seguir – o caminho sem Deus – e que, para mim, mostrou-se infrutífero.

    Acho que você se equivocou um pouco nas afirmações. Explico. No parágrafo acima você destaca que: “quero deixar claro o apreço e o carinho que tenho pelo LIVRE PENSAR(…) Logo depois afirma que em razão dessa admiração que entendo, referir-se ao Livre Pensar, você aduz que inclusive “tentou” e complementa “seguir – o caminho sem Deus -. Dessa forma, me parece que a forma com que você construiu a frase dá a impressão que o Livre Pensar e a Ausência da Crença em Deus são a mesmas coisa ou senão, ao menos algo decorrente, algo interligado. O que de fato não é correto.

    Desse modo, ao afirmar do absurdo de uma vida sem Deus, afirmo-o a partir de um ponto de vista muito particular e subjetivo, mas que não poderia deixar de compartilhar.

    Ah, essa explicação é importante.

    Ainda que meu texto possa incorrer numa certa agressividade ou em afirmações categóricas, elas estão abertas ao questionamento constante e goza de uma certa indulgência no sentido de que, para mim, Deus significa de muitas maneiras, mais que mera idéia, mas uma pessoa de fato – aspecto esse que somente à fé importa, não sendo possível ao leitor ir além da minha mera afirmação.

    Eu não tenho problema algum com a agressividade. Faz parte. Contudo, essa agressividade deve ser direcionada ao texto, ao argumento, e nunca para a pessoa do redator.

    Ora, falar sobre Deus e sua inexistência é um desses temas que podem passar despercebido, ou ser mera conversa de bar ou ser algo que realmente tira o seu sono. Sinceramente eu acredito que é um debate enriquecedor, ainda que eu mesmo não tenha perdido nenhuma noite de sono por pensar que ele poderia deixar de existir. Posso dizer que para mim é bastante natural admitir essa existência, ainda que admitir isso não prova coisa alguma.

    Uma das coisas que me deixa sobremodo perplexo é uma certa divisão asséptica entre ciência e religião. Ela redunda em uma desinformação por parte dos cientistas em assuntos de religião assim como agravou o déficit de formação científica na Igreja e na teologia – acentuando a desconfiança mútua. Esse isolamento de cada parte resulta numa grave e quase irremediável desintegração do saber, haja visto que o homem é um ser integral, não somente cérebro ou razão, nem somente coração ou espírito. E aqui entra um conceito forte de História: pois há uma só história e nela não pode haver dicotomia; isso significa dizer que há uma só realidade; pois religião e ciência tratam dos mesmos fenômenos e do mesmo ser humano que observa e interage junto a esses fenômenos.

    Ciência e Religião são diametralmente opostas. Não há como conciliá-las. O questionamentos é pressuposto elementar da Ciência, a fé é o axioma imutável da Religião. São inúmeras as diferenças. Cada Religião se pretende como a única verdade. E faz necessário destacar que o autor sequer destacou alguns exemplos que demonstrem o déficit de informação dos cientistas em relação aos assuntos de religião. Destacando que o ônus é de quem afirma.

    Essa separação é esquizofrênica, pois leva o homem a enxergar o mundo com os olhos vesgos: no âmbito particular crê de determinada forma, no âmbito do público, age de acordo com o padrão “cientificamente aceito”, impedindo-o de juntar as peças de sua existência ao impor a obrigação de viver em ambientes desiguais, dispondo de valores desiguais.

    Não discordo quanto ao fato afirmado pelo autor, a saber, que: “no âmbito particular crê de determinada forma, no âmbito do público, age de acordo com o padrão “cientificamente aceito”, impedindo-o de juntar as peças de sua existência ao impor a obrigação de viver em ambientes desiguais, dispondo de valores desiguais.” Contudo, discordo da causa que segundo o autor reside na “separação esquizofrênica”. A separação entre Ciência e Religião não é a causa de as pessoas terem uma convicção e agirem de forma diversa. A isso, dá-se o nome de hipocrisia. Ter por certo uma premissa, uma norma, defendendo essa como verdade e ainda assim, agir de forma diversa é um típico caso de demagogia e hipocrisia. E a não ser que o autor explique, a separação entre Ciência e Religião nada tem a ver com essa forma de agir que tem base na livre escolha do ser humano.

    Contudo, não pode haver mera nivelação desses conhecimentos, pois fé e razão (entendidas aqui como religião e ciência, termos que serão usualmente utilizados nesta série como sinônimos) são e devem permanecer como distintas, mas não antagônicas.

    Nem toda afirmação feita pela religião encontra contradição. Dito de outra forma. Não é TODA afirmação feita pela Religião que encontra contradição com a Ciência. E duvido que os céticos, agnósticos ou ateus tenham alguma discordância em relação a essas afirmações. O problema surge justamente nos fatos onde não há consenso entre a Ciência e a Religião.

    É necessário uma aproximação e penso que a aproximação deve ser dada com liberalidade e boa vontade; é preciso, desde agora, estar disposto a encontrar a verdade, mesmo que essa contradiga minha opinião atual.

    Primeiro gostaria de entender porque é necessário essa aproximação de que fala o autor. Isso, porque, me parece mais uma vontade particular, do que uma necessidade que tenham uma razão de ser. Não que isso seja algo indesejável, mas é algo que é irrelevante. A Ciência não tem esse desejo essa vontade. Se em razão dos fatos e descobertas a Religião se aproxima-se da Ciência isso seria uma resultado natural, mas a Ciência não se preocupa em comprometer, a interferir nesses fatos para que se chega ao resultado que se quer. Na Ciência não se parte da conclusão buscando as premissas que as corroborem. Isso quem faz é papel da Religião, a Ciência parte das premissas e chega a uma conclusão não se espera nada.

    Com isso quero dizer que é preciso, por parte dos leitores, a disposição em firmar-se na verdade e não na vontade, pois eu posso ser religioso por mera vontade, mesmo que muitos argumentos sejam dados contra minha crença, e posso querer permanecer agnóstico ou ateu por mero querer, e não porque os argumentos foram convincentes.

    Aqui concordamos em gênero, número e grau. Aliás, é disso que se trata o Livre Pensar referido lá no começo do artigo. Quando se busca a verdade devemos pensar – ao menos sob meu ponto de vista – que algo “está” verdade. Isso, porque, o conceito do que entendemos por verdade pode se modificar no tempo. Não raras vezes, pesquisas feitas posteriormente refutam e se sobrepõem a teses anteriores. Acho que pode haver sim uma verdade estática, e esta será aquela que se manter ao longo do tempo incólume e soberana frente as outras teses que tentem lhe refutar. Em relação a isso cabe sempre destacar os ensinamentos de Nietzsche com perspicácia afirma: “Uma vez tomada a decisão de não dar ouvidos mesmo aos melhores contra-argumentos: sinal do caráter forte. Também uma ocasional vontade de se ser estúpido.”

    Talvez aí possamos ultrapassar as tradicionais barreiras decorrentes das suspeitas de que a ciência atrofia o discurso religioso e sofre inibição por parte da religião; ao perguntar da importância da fé para a ciência é justo que se pergunte da importância da ciência para a fé.

    Qual seria a importância da religião para a Ciência?

    Do Absurdo da Vida sem Deus busca trazer alguns argumentos, talvez ainda muito apaixonados, que procuram demonstrar justamente isso: que a vida é totalmente absurda e sem sentido sem admitirmos a existência desse Ser Supremo. Uma das coisas que acho fantástica é que o ateísmo se propõe a demonstrar a inexistência de Deus, ou pelo menos a falácia da afirmação de sua existência, ainda que mantenha certos valores que só podem ser admitidos se Deus de fato existe.

    De fato você mesmo se corrigiu. Pois como bem frisou ao final. O Ateísmo não busca demonstrar a inexistência de Deus. Para isso primeiro precisaria ser demonstrado a existência. O que de fato o Ateísmo faz é expor a ausência de elementos que levariam alguém mais cético e criterioso a afirmar que Deus existe. Portanto, não se trata de uma negação por pura birra, mas sim de uma atitude de prudência frente ao fatos que temos conhecimento, buscando evitar conclusões precipitadas e equivocadas. Por fim, o autor apesar de afirmar que o Ateísmo mantém valores que só podem ser admitidos se Deus de fator existir, olvidou-se (convenientemente) de exemplificá-los. Portanto, como medida de prudência devemos pressupor que esses supostos valores, de fato inexistem, ou se existem não estão condicionados a pré-existência de um Deus.

    Isso quer dizer que, ou aceitamos a idéia de um universo sem Deus e com Ele tudo o mais, ou aceitarmos certos aspectos da Sua existência e trazemos Deus de volta: não se pode abandonar Deus e ficar com suas bênçãos. Esse texto buscará, portanto, trazer à tona alguns questionamentos e ajudar, talvez, a que o leitor se decida de uma vez. Pois a pior coisa é um homem dividido, no sentido de não saber se crê ou descrê. É preciso em nosso tempo tomar partido e sair de sobre o muro: os religiosos temerosos devem devotar sua vida à sua fé ou abandoná-la de vez e os agnósticos devem crer em Deus ou agarrar-se ao ateísmo.

    Ou seja, dito de forma sucinta: Deve se buscar a coerência. Coerência é a antítese da hipocrisia e da demagogia. Contudo. Não posso deixar de fazer uma ressalva. Apesar de não ser agnóstico, filosoficamente a posição adotada por eles não chega a estar equivocada, e tampouco se configura como hipócrita ou demagógica. Pois para eles não há como se provar a existência ou inexistência de seres divinos. E o que me fez deixar de ser agnóstico para tornar-me ateu foi o estudo sobre o ônus da prova. E penso que é nesse o ponto que marca a diferença entre ateus e agnósticos. Pois, para que os agnósticos tivessem como verdade a ausência de seres divinos deveria-se provar essa ausência e esse ônus recairia sobre os ateus. Não obstante, como já explicado por mim em outros artigos, não há como se fazer prova negativa de algo que não existe. É, portanto, com o estudo sobre o ônus da prova que ultrapassei a barreira do agnosticismo para o ateísmo. O ônus inicial da prova cabe a quem propõem algo. Pois, o pressuposto é o da inexistência.

    Você não pode crer em Jesus e em Maomé ao mesmo tempo. Não pode ser cristão e duvidar da criação do mundo por Deus, nem pode ser ateu e gozar de certas noções que só são verdadeiras se admitirmos um Deus existente.

    Aqui cabe também destacar que, da mesma forma que nem TODA afirmação feita pela Religião encontra contradição na Ciência é bem verdade que CERTAS noções da Religião não podem ser gozadas pelos ateus, mas ALGUMAS sim. Por exemplo. Em que pese constituir um dos 10 mandamentos, o ato de não matar nosso semelhante é considerado correto tanto por religiosos como por ateus. Não obstante o fundamento que religiosos encontram para essa regra PODE diferir do ateus, que com certeza não fundamentaram a razão de terem por correto a não prática do homicídio no texto bíblico.

    Este texto irá seguir uma linha muito simples de pensamento: da impossibilidade prática do ateísmo. A única solução que um ateu têm a oferecer é aquilo que Russell disse sobre estabelecer nossa vida sobre “o firme fundamento do desespero incessante”. Ou seja, no reconhecimento de que o universo é um lugar terrível e sem sentido e que a vida é um absurdo e, justamente por isso, devemos viver em amor uns para com os outros.

    Primeiro: Conceber como única a conclusão de um único autor, no caso Russel, demonstra que a pesquisa se limitou ao autor. O Ateísmo não se resume aos ensinamentos de Russel. Aliás, em qual obra Russel faz essa afirmação? Por fim, cabe destacar que o conjunto de concepções que defende a ausência de sentido para o universo é o Niilismo e não o Ateísmo. E diga-se de passagem, faz muito sentido como muito bem explicado nesse artigo (http://ateus.net/artigos/filosofia/niilismo/).

    Isso parece bonito assim escrito e assim lido, mas o problema fundamental com essa solução é que é impossível viver de modo coerente e feliz a partir dessas verdades, pois quem procurar viver coerente, não será feliz; e quem estiver feliz, necessariamente não está sendo coerente.

    Discordo. De fato, na forma como foi dito pelo autor, não acho nada bonito reconhecer que o universo é um local sem sentido. Ou como sugere o autor um lugar terrível em que a vida é um absurdo. Mas ainda que algo não seja bonito, importa que ele seja real. Antes uma realidade não tão agradável do que uma fantasia reconfortante. E muito me agrada falar sobre viver de forma coerente e feliz. Isso, porque, segundo já afirmava Nietzsche em sua obra “O Anticristo”: “O único cristão morreu na cruz” referindo-se a Jesus Cristo. Essa afirmação de Nietzsche tem base nos seus escritos onde ele destaca dois pontos: a) A impossibilidade de salvação na prática do Cristianismo e pelas regras do mesmo. Não vamos esquecer do que falamos a poucas linhas atrás sobre a COERÊNCIA. Nietzsche afirmava que qualquer pessoa que tentar se pautar de forma coerente com o que manda o texto bíblico fatalmente mais cedo ou mais tarde será condenada por descumprir alguma norma. Aliás, penso que foi por isso que inseriram a possibilidade do perdão, pois caso contrário todo cristão estaria condenado. Portanto, conclui Nietzsche que se as regras bíblicas fossem respeitadas e levadas a cabo a maioria dos cristãos, senão a totalidade estaria condenada. Lembremos deve haver coerência, e a regra bíblica não permite interpretação e hermenêutica ela é norma cogente e auto aplicável. Dessa forma, o filósofo alemão critica o Cristianismo por pregar uma crença que se for coerentemente seguida fatalmente tornará o seu seguidor infeliz e miserável (miserável no sentido lato senso e não econômico). b) O segundo ponto que o retro mencionado filósofo critica é justamente a hipocrisia dos seguidores do Cristianismo, que apesar de defender a crença pautam suas vidas ignorando as normas que dizem crer e defender. Por fim, cabe o questionamento, é mais provável que um ateu ou um cristão viva de forma feliz sendo coerente com o que manda as normas da sua convicção? Vale aqui lembrar que o Cristianismo já de saída estipula 10 mandamentos e 07 pecados capitais. E nem vou cogitar todas as regras, mandamentos e normas contidos na bíblia. Mas apenas com essas 17 normas, eu tenho certeza que a maioria dos cristão já estaria condenado ao inferno. Alguém consegue viver com o mínimo de felicidade sabendo que será condenado ao sofrimento por toda a ETERNIDADE? Eu acho que se houver um pouco de sinceridade teremos que admitir que a resposta é não.

    Francis Schaeffer explica que o homem contemporâneo mora um mundo de dois andares. No andar de baixo está o mundo finito e sem Deus, onde a vida é absurda; no andar de cima estão sentido, valor e propósito. O ateu (e o agnóstico) moram no andar de baixo, pois aceitam a total ou parcial possibilidade da não existência de Deus. Só que ele não pode viver feliz num mundo absurdo, por isso constantemente dá saltos de fé ao andar superior a fim de estabelecer sentido, valor e propósito à sua existência, ainda que não tenha direito a isso por não crer em Deus.

    a) Porque a vida seria seria absurda nesse “andar debaixo”? b) Qual a fundamentação que sustenta que “sentido, valor e propósito” sejam valores que sejam intrinsecamente ligados a uma ideia de divindade? c) Só através da fé alguém pode estabelecer “sentidos, valores e propósitos”? Bom a resposta veio logo em seguida. Quer dizer que o ser humano só pode estabelecer “sentido, valores e propósitos para a sua existência” se crer em uma divindade? Sério mesmo que alguém acredita nisso? Me parece uma afirmação tão absurda que sequer mereceria refutação mas vamos lá:
    1) Primeiro que temos de deixar claro que o que cada pessoa entende por “sentido para a existência” é algo subjetivo. Conforme o artigo sobre o niilismo, podemos dizer que o sentido, é algo que decorre e pressupõe uma vontade humana. Mas não se deve confundir causa e efeito com sentido. Assim, se deixo uma pedra cair da minha mão ela obrigatoriamente cairá no chão. A causa disso é a gravidade, o efeito é a queda da pedra no chão, mas não há um sentido para esse acontecimento. E no universo o mesmo acontece com os homens há com certeza uma causa e efeito que nos trouxe essa existência, mas não há um sentido. Não obstante, qualquer pessoa poderá definir para si um “sentido” para viver. (Isso se essa pessoa achar necessários), os niilistas sequer cogitam essa necessidade. Mas, como exemplo, eu posso estabelecer que o sentido da minha vida é viver até 100 anos. Ou pode ser adquirir uma fortuna. Ou viver curtindo a vida. Eu penso que a nossa mola propulsora, ou como dito por Aristóteles, o bem supremo, é a busca pela felicidade. Todo ser humano busca ser feliz. É esse o sentido. Nada impede que alguma pessoa encontre a felicidade crendo em Deus. Mas isso não quer dizer que a felicidade só possa ser encontrada na crença de uma divindade. Logo, é completamente descabida e falaciosa a afirmação de Francis Schaeffer;
    2) No que tange a valores a questão fica ainda pior. Isso, porque, o vocábulo valores é aberto. De quais valores se está falando aqui? Valores cristão? Só se for esses. Ademais, como já dito alhures, o fato de ateus compartilharem de alguns valores cristão (como a proteção a vida humana) não implica que haja a crença em deus. Aliás, muitos desses valores são pré-existentes ao cristianismo. Portanto, é plenamente possível se estabelecer valores ainda que não se vinculando ao cristianismo e sem a necessidade de uma divindade;
    3) Quanto ao propósito da existência, a explicação é a mesma dada quanto ao “motivo”, pois ambos são sinônimos.

    Como resta evidente, não se faz necessário a crença em qualquer divindade para que o ser humano estabeleça um motivo/sentido para sua vida, tampouco para que estabeleça valores para sua vida. Meus valores são pautados pelo conhecimento racional, científico, empírico, antropológico, democrático e social. Todos eles conhecimentos humanos que independem de qualquer divindade. Não obstante ainda não restou demonstrado porque a vida no “andar debaixo” é absurda, tampouco os fundamentos que levaram o autor a sustentar que só a crença em Deus possibilita que o ser humano tenha um motivo/propósito para sua existência, bem como só mediante a crença é que ele pode estabelecer valores.

    o homem é totalmente incoerente ao dar esse salto – e ele de fato o dá, sem suspeitar ou sem admitir sua fé de conveniência.

    Já tratamos do problema da incoerência.

    Ao meu ver existem cinco fenômenos que são evidentes em nossa experiência imediata que só podem ser explicados se admitirmos a existência de Deus, mas que aqueles que o negam também experienciam sem, contudo, perceber a contradição implícita, a saber: a) a racionalidade que dá sentido à nossa experiência do mundo físico; b) a vida, a capacidade de agir de forma livre; c) a consciência; d) o pensamento conceitual ou a capacidade de articular e entender símbolos, tais como a linguagem e, por último, e) a personalidade humana, o centro da consciência, do pensamento e da ação.

    a) não foi demonstrado o porque da necessidade de deus para a explicação dos fenômenos, assim há apenas uma afirmação vazia;
    b) não foi demonstrada onde estaria a contradição implícita no caso de um ateu que usa dessas faculdades, resultando em outra afirmação vazia;
    Como se percebe o autor limita a afirmar que esse é o seu entendimento, ou o de Francis Schaeffer (não ficou muito claro), não obstante, deixa de fundamentar/demonstrar quais as razões que o levaram a chegar aquela conclusão. Ora, o simples fato de afirmar que tais fenômenos só podem ser explicados se admitirmos a existência de Deus, não faz com que isso se torne verdade. Como já dito anteriormente, o ônus da prova cabe aquele que faz a afirmação. O que no presente caso não ocorreu. Logo se eu afirmasse que esses fenômenos na verdade só podem ser explicados se admitirmos a inexistência de Deus, haveria a mesma validade, o mesmo valor probante do que a antítese referida acima.

    Apenas para estabelecer parâmetro, escrevo a partir do predicamento humano, que é um tipo de apologética considerada “cultural” pois não se preocupa tanto em questões positivas mas numa tentativa de demonstrar as conseqüências desastrosas para a existência, para a sociedade e para a cultura humana se Deus não existisse.

    Pois bem, verificasse que no presente caso o referido “predicamento humano” foi ineficaz, pois não DEMONSTROU até agora nada. Ao contrário, o presente artigo limitou-se a fazer afirmações conclusivas, mas que não foram corroboradas por explicações que demonstrassem como se chegou aquela conclusão adotada.

    Nesse sentido, pode-se dizer que é uma forma de Existencialismo, pois os precursores desse tipo de apologética também foram os que deram forma ao Existencialismo como Blaise Pascal, Dostoiévsky, Kierkegaard e Francis Schaeffer.

    Cabe aqui mais uma vez discordar das afirmações. Não há como se pressupor que o referido predicamento humano (apologética considerada cultural) possa ser interpretado como forma de Existencialismo. Veja que o autor chega a essa conclusão pela simples razão de alguns dos precursores do Existencialismo, eventualmente terem sido os precursores dessa apologética. Isso, porque, dentre outros autores que também integram o núcleo formador do Existencialismo, encontram-se entre outros Nietzsche, Schopenhauer e Sarte (http://pt.wikipedia.org/wiki/Existencialismo), todos eles ateus, e portanto em lado diametralmente oposto ao apologético. Outrossim, é equivocado se concluir que tal apologética possa ser interpretada como forma de Existencialismo. A não ser que o autor, demonstre as similaridades entre as doutrinas citadas, o que até não foi feito.

    Assim não escrevo a partir de um vácuo, mas de uma escola filosófica que possui um método e uma visão muito particular, ainda que excepcionalmente abrangente.

    Assim, se percebe que em que pese o autor sustentar que sua tese não parte do zero, mas, que, ao contrário, provém de um estudo pré-existente, a saber, o (predicamento humano) que equivocadamente, pretendeu o autor, tornar similar ao Existencialismo. Contudo, conforme se exemplificou não é o que ocorre.

    Outrossim, verifica-se que ao longo de todo o artigo – ao menos nessa primeira parte – o autor não logrou sorte em demonstrar as razões, fatos ou fundamentos que corroborem a afirmação feita no início, a saber: “do absurdo de vida pautada a partir do ateísmo”. Pessoalmente, espero que na continuidade do artigo o autor venha a explicar de forma racional e fundamentada, demonstrando de maneira coesa, quais os fatos e fundamentos que lhe conduziram a chegar na conclusão lançada ao início do artigo.

    Essa série é dedicada ao amigo e amante do pensar, Hilton Gil, nunca alguém foi tão importante ao ponto de me fazer descrer da fé como ele. A você, Gil, dedico esses pequenos ensaios na esperança de não só ouvir teus comentários mas também abalar, de alguma forma, tua descrença!

    Reitero os protestos de estima e admiração, cujo subscritor desta contestação já lançou ao autor do artigo em comentário anterior.
    Att.
    Hilton Daniel Gil

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