Ética em Bonhoeffer

 “A única resposta à dificuldade do conflito ético é o mandamento do próprio Deus, e com, ele, o imperativo de pôr termo à discussão e de obedecer. Só o diabo é que oferece uma solução do conflito que é a seguinte: se permanecerdes no campo da problemática, estás isento da obediência…”                                                                                                                                   Dietrich Bonhoeffer

 

Dietrich Bonhoeffer viveu a plenitude do discipulado ao desenvolver uma fé atuante e uma moral elevada a ponto de amar sua igreja, comunidade e nação, ainda que ao preço da própria vida, do que alinhar-se à sua igreja que silenciou diante das atrocidade e fez vistas grossas ao pobres e miseráveis, aos judeus, aos deficientes, aos ciganos, aos homossexuais e aos Testemunhas de Jeová, mas em alta voz denunciou essas atrocidades como falta de amor, de fé e de ética!

Bonhoeffer agiu assim porque tinha fé no absoluto, pois fé assim compreendida é recurso saudável para o estabelecimento de ações livres voltadas para o bem da homem e para o entendimento de que viver moralmente motivado é ser regido, em última instância, pelo amor. Pois a moral é mais do que fazer o que é certo ou bom. Se dirijo um carro dentro dos limites da velocidade porque há um carro de polícia atrás de mim, faço o que é certo , mas apenas por uma questão de receio e não de ética. Posso dirigir dentro dos limites de velocidade, talvez para atrasar o motorista que vem atrás, o qual tem um compromisso. Nesse caso, faço o que é certo por um motivo moralmente errado. Ou ainda posso manter a velocidade estabelecida porque o meu carro não ultrapassa esse limite. Então faço o que é certo, sem ter essa intenção.

Motivos e intenções, tanto quanto as ações, são moralmente significativos. Mais do que as ações, elas refletem o tipo de pessoa que sou, a minha disposição interna e o meu caráter. Ser virtuoso, generoso e paciente é estar disposto espontaneamente. O egocentrismo, a animosidade e a avareza são vícios.

Mas por que devo agir eticamente comprometido? Por que cada ação minha deveria eu pensar, cada vez, numa norma que deveria valer para todos e submeter-me a ela? Posso – e desejo – achar conveniente que todos sejam altruístas, generosos, sinceros. Mas por qual motivo deveria sujeitar-me à mesma regra? Sou, portanto, a favor de uma moral como esta, aplicável aos outros, mas não a mim. E por quê, com base em que motivo, princípio, razão, deveria eu desistir de meu ponto de vista egoísta?

De certa forma, agimos no dia-a-dia eticamente comprometidos. Mas esta ética é a ética do dever, não do amor. Essa moral racional substitui o amor pelo dever. É impossível forçar alguém a amar outra pessoa. Podemos forçá-la, ou melhor, coagi-la a estudar as necessidades, as exigências dos outros e, satisfazendo-lhes, trazemos o bem. Para fazer o bem não é preciso amar. O conhecimento e a vontade bastam. Um funcionário de qualquer estabelecimento não precisa amar seu cliente, basta suprir sua necessidade.

Entretanto, a moral motivada pelo amor é uma moral de felicidade. A do dever, uma moral de esforço. No amor a ação benéfica é feita de coração. Na do dever, é realizada pelo esforço da força de vontade.

Sabemos que a moral – ou o que é certo fazer e o que é errado fazer – são coisas intrínsecas à natureza humana, ao ser humano em toda época e em qualquer cultura. Desse modo, a moral torna-se um tema que está muito próximo da noção de Deus, de fé, de esperança, de graça e de amor.

Muitas pessoas que dizem ter fé e serem religiosas se sentem culpadas e têm esperança de que através das práticas religiosas podem ser salvas. Elas seguem rituais, praticam boas ações e tentam viver uma vida religiosa para não se sentirem mal com relação a si mesmas. Essa é uma idéia errada acerca da mensagem de Jesus e do que é o processo de regeneração. O objetivo da vida de Jesus não era demonstrar que as pessoas eram más, mas fazer com que soubessem que precisavam relacionar-se com Deus e com os outros de forma amorosa. Ele acreditava que, se reconhecêssemos essa necessidade humana básica, não desejaríamos agir de modo nocivo. É fácil enganar-se ao interpretar o objetivo da vida de Jesus se encaramos suas falas e ações como um dever moral, se acreditarmos que Jesus considerava que as pessoas eram fundamentalmente más e precisavam ser moralmente libertadas através de princípios religiosos. O objetivo da vida de Jesus não era fazer com que tivéssemos mais moralidade e sim nos tornar mais amorosos em nossas relações.

Uma vez que a felicidade dos outros depende do amor, a moral precisa do amor ainda que não possa impô-lo à força; fora do amor, não pode haver bondade. “Podemos fazer isso – escreve Lutero – porque não estamos sob a lei, mas sim sob a graça… a graça faz com que a lei nos seja amável, e então não há mais pecado algum, e a lei já não está contra nós, mas forma uma coisa só conosco… Trata-se de uma liberdade para agirmos bem com prazer, e para vivermos honestamente sem a constrição da lei.”

Cada um de nós, na base de suas próprias experiências, sabe que, ao refletir acerca de suas escolhas emocionais, muda rapidamente a sua disposição de ânimo. A simples experiência de procurar-se manter imparcial, objetivo, faz com que haja uma modificação na nossa maneira de ver as coisas, modifica a nossa sensibilidade emocional, a qualidade do nosso amor. O hábito da reflexão moral modifica o nosso caráter, torna-o virtuoso. Temos, portanto, que concluir o seguinte: é verdade que a razão sem o altruísmo é vazia, mas também é verdade que o altruísmo sem a razão é cega. É o altruísmo e a razão juntos que produzem a moral.

Contudo, a moral sozinha não é possível sem a liberdade. Qualquer ação, qualquer gesto, qualquer pensamento só tem valor moral se tiver sido concebido livremente. Somente se quem decide sou eu. A moral parte da possibilidade da liberdade (senão, seria dever e não moral). Os psicólogos, sociólogos e historiadores estudam as coisas que já aconteceram. A moral ocupa-se com aquilo que ainda não aconteceu. Daquilo que ainda não é um fato. Trata daquilo que é nosso poder fazer. Trata da nossa liberdade, da nossa coragem de ser, de nossa esperança – é um ato de fé.

A ética é desse modo, a supressão do cálculo das vantagens para mim, do cômputo pessoal, é um exercício em prol dos outros. E isto não porque os outros participam de uma entidade coletiva, de um nós. Não se trata de substituir um egoísmo individual por um egoísmo de grupo. Mais do que isso, trata-se de uma substituição do “eu” pelo “tu”, mas o “tu” universal: o “qualquer um”. “Amar o próximo como a mim mesmo” não é egoísmo. Para Jesus, o amor-próprio estava intimamente ligado ao amor pelos outros, assim como o ódio por mim mesmo desencadeia-se em ações destrutivas aos outros. O amor a mim mesmo não pode estar separado do amor aos outros; um depende do outro. O amor se multiplica quando é distribuído, assim como o ódio destrói quando permitimos que ele exista.

Jesus acreditava que o nosso desenvolvimento só se dá através de relacionamento pessoais. O amor pelos outros é a força que impulsiona tanto o desenvolvimento espiritual quanto a moral.
Bonhoeffer refletia justamente a respeito da responsabilidade da igreja, como comunidade daqueles que se unem à causa de Cristo, como convocada a agir de acordo com a vida do Cristo, mais em ações do que por palavras – uma ação que não descamba para uma espiritualidade alienada e distante do mundo, mas partícipe dele. Desse modo, o mártir de nosso tempo convoca a igreja para a conformação com o Cristo crucificado, que não procura a glória e o sucesso no hoje, mas engaja-se no caminho da cruz, no caminho até o Gólgota: uma igreja que personifica o próprio Cristo em forma de comunidade.

CLICA E CONHEÇA A BIOGRAFIA http://mundocristao.com.br/bonhoeffer

BONHOEFFER,Dietrich. Se não morrer…fica só. Sintra (Port):s/ed,1963

BONHOEFFER,Dietrich.Ética. São Leopoldo(RS):Sinodal,2001

 

    • Mara
    • 23 outubro, 2011

    Interessante ponto de vista, importante contribuição de Dietrich. Continue escrevendo!!!!

    • ricardo leão
    • 23 outubro, 2011

    Interessante conhecer mais uma brilhante personalidade!
    Penso que no fundo a palavra de Jesus traz em sí a solução ,não só pra evolução espiritual do indivíduo,mas também pra as questões sociais. Uma organização social baseada na palavra de jesus,ela se desenvolve harmoniosamente e é tecnológicamente avançada. Não há tecnologia mais avançada que a da natureza, Mas ,infelizmente se não somos dados a prática do bem pelo amor,é porque seguimos cegamente um sistema ilusório,com valores ilusórios,que não nos dá oportunidades de prestar a atenção NO OUTRO realmente.E sim ver-mos todos como potenciais competidores.Apenas respeitamos,éticamente as regras da competição.

    • Gilson
    • 24 outubro, 2011

    Boa contribuição de Bonhoeffer para o campo da ética. Bom texto!

    • Leonardo Antunes
    • 24 outubro, 2011

    Puxa, como é bom ler textos bem escritos sobre personagens extraordinários..!

    • hiltongil
    • 24 outubro, 2011

    Dessa vez (ou por enquanto) não procederei a análise do artigo da maneira como sempre faço em razão da proximidade de um exame a ser realizado no domingo próximo. Não obstante, é perceptível que o texto permeira de modo constante o que Kant definiu como sendo o “Imperativo Categórico”. Portanto, não irei “recriar a roda”, de forma que os problemas e críticas ao imperativo categórico são encontrados com facilidade em um simples pesquisa. Porém, de maneira a não incorrer no artifício da “inversão do ônus da prova”, deixo o link de uma obra que explora e expõe com grande desenvoltura os problemas retromencionados. Acessado em 24/10/2011.

    • hiltongil
    • 24 outubro, 2011

    Não sei se o editor do blog vedou ou não a publicação de links. Mas a obra sugerida – que não apareceu o link – É “Genealogia da Moral” de Friedrich Wilhelm Nietzsche, que já está em dominio público e é facilmente encontrada com um busca no Google.

  1. Bom texto, parabéns.

    • Jéssica Cardoso de Oliveira
    • 25 outubro, 2011

    Dou meu apoio ao blog,pois já li alguns posts e é legal para refletir

    • Sandro Silva
    • 25 outubro, 2011

    Bom texto!!! Abs.

    • Marcia Bender
    • 26 outubro, 2011

    Oi! Hj sou apenas a melhor melhor do mundo em dizer q estive aqui!!!Já
    que meu comentário foi pro saco…snif…bjus

    • Kelly
    • 26 outubro, 2011

    Muito bom! te falei minhas ideias pessoalmente mesmo, rsrs.

    • Sandro
    • 27 outubro, 2011

    Muito bom!
    A fraze de Dietrich Bonhoeffer é muito realista (embora tu tenhas uns comentaristas bem irreais no que se diz respeito a fé!!)

      • hiltongil
      • 27 outubro, 2011

      ” Posso não concordar com nenhuma palavra do que você díz mas defenderei até a morte, o direito de você dizê-las” – Voltaire.

      Então Sandro… seu comentário me deixou inquieto por alguns motivos que trato de expor:
      a) Você afirma que há alguns comentaristas, bem irreais no tangente a fé. Há de ser respeitado sempre o pensamento das outras pessoas, ainda que não concordemos com o sentido que ele denota. Portanto, merece respeito a sua opinião desaprovadora quanto (aos comentaristas irreais) tratando-se de um juízo de valoração seu a respeito dos supostos comentaristas. Não obstante, não consigo entender a razão pelo qual você se furtou de indicar/apontar/nomear os supostos comentaristas. Não lhe parece de leviano tecer considerações/juízos acerca de pessoas, deixando de nomeá-las? Isso, porque, esse tipo de atitude impossibilita (convenientemente ou não) uma contrapartida daquela?

      b)Considerando o caráter prosetilista do artigo, não resta dúvida (salvo o caso de bipolaridade, ou outro disturbio mental) de que a atribuição do adjetivo irreal foi feita em relação a qualquer comentário que não fosse de encontro com a ideia central do artigo. Portanto, considerando que o único no singular comentário que não foi de encontro com o cerne do texto retro-mencionado foi o meu, se faz desnecessária qualquer ponderação para concluír-se que sua opinião/julgamento objetivou a minha pessoa. Ou seja não há “uns comentaristas” há apenas um, e que ao meu ver deveria ter sido nomeado, afinal de contas ninguém aqui corre perigo de retaliação violenta por pensar de maneira contrária (ao menos assim espero).

      c)Tu afirmas que a frase de Bonhoeffer é muito realista. Contudo, deixou de apresentar os motivos que te levaram a essa conclusão. Devemos interpretar então apenas como sendo uma convicção pessoal sua, cujo embasamento reside tão só no íntimo do seu ser – assim como a fé – ou você irá apresentar os motivos e fundamentos que lhe levaram a essa conclusão? E a mesma dúvida resta pendente acerca da sua outra afirmação/conclusão, a cerca da suposta “irrealidade” dos outros, quero dizer do outro comentarista (no caso, eu).

      d)A guisa de curiosidade pessoal, seu sobrenome é Paixão?.

      Att.
      H.Gil

    • Leonel
    • 27 outubro, 2011

    Parabéns ! Muito bomo texto, continue assim e vais longe!

    • Rosângela
    • 28 outubro, 2011

    Leandro, tu escreve muito bem… e com muita profundidade!!! Um bjo da prima!

  2. Graça e Paz abençoado!
    Obrigado pelo comentário deixado em meu blog. Estou feliz em poder conhecer o seu. Parabéns por esta postagem!
    Realmente, Bonhoeffer foi um homem de Deus que aprendeu a viver aquilo que acreditava e pensava. Creio que um grande erro moral da igreja nos dias de hoje é sustentar discursos vazios. Precisamos viver o que pregamos, pois somente assim iremos impactar positivamente nossa sociedade.
    Abraços!

    • Veridiana
    • 28 outubro, 2011

    Maravailha de texto, muito bom…Parabéns!!!!

  3. Valeu Leandro.

    Bom texto.
    Obrigado pela visita no ensinadorcristao.blogspot.com

    Abs

    • Evandro
    • 28 outubro, 2011

    O texto é provocativo, e gerou um belo debate no quis respeito a questão”fé”, embora eu creia que devemos ler sempre a obra por completo, vou assim me abster de um aprofundamento no mesmo e saudar “a ética” com que as ponderações estão sendo colocadas, parabéns a você e todos os blogueiros que por aqui passaram. abçs

  4. Muito bom mesmo. Sucesso pra você. Ancioso para ler o livro.

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