COMEMORATIVO: “UM ANO DE BLOG”!

DA CULPA

 

Vivemos sob crítica e julgamentos.

Essa crítica e essa sensação permanente de culpa relaciona-se à maneira como nos envolvemos uns com os outros. Essa faceta da psique humana, esse sentimento de incompletude e de inferioridade inicia-se, desde cedo, ainda na forma como fomos educados – em casa e na escola – pois a educação nada mais é do que o exercício da repreensão, da repressão, da conformidade e do condicionamento. Todos estão prontos a julgar a criança se ela é “bem” ou “mal” educada. Este medo do que os outros dirão, caso peque nalgum quesito da “boa educação”, pesa sobre a criança justamente porque, para ela, é a reputação dos pais que está em jogo; assim inicia-se um processo que perdurará por toda sua vida ao sentir-se constantemente culpada se vier envergonhar seus pais com a mínima “falta de educação”. Nesse ínterim, a escola leva em conta não as qualidades que porventura venha a desenvolver, mas as deficiências, na falta, na insuficiência. A educação, vista por esse ângulo, é uma ferramenta de perpetuação e projeção dos medos, preconceitos, problemas e culpas que os adultos, inadvertidamente, reproduzem nas crianças. Isso gera um ciclo vicioso perigosíssimo, pois muitos pais ao restringirem a individualidade e ao criticarem a autonomia de seus filhos estão instigando-os a realizar uma escolha absurda: ou optam entre a culpa de seguir seus desejos individuais e autênticos em detrimento às observações e reprimendas dos pais, ou segue o conselho paterno e vive na ansiedade em não ter sido ou ter feito aquilo que se queria fazer/ser.

E aqui entra a questão do conselho. Conselho nada mais é do que uma forma dissimulada de falar que a maneira como se está procedendo não é a “correta” ou “adequada”. Isso, na cabeça daquele que está sendo “aconselhado”, soa como uma dúvida inquietante de saber se ele, por si só, seria ou não capaz de encontrar a conduta mais conveniente.

Cotidianamente somos bombardeados com críticas mútuas, principalmente dentro da família, de modo que nem nos apercebermos disso, pois a crítica suscita a culpa que será aliviada numa outra crítica ou numa auto-justificação. Se tivesse de fazer aqui uma afirmação universal repetiria o que escrevi no início deste, a saber: que todos nós somos culpados. Pois a culpa, em última análise, é não ousar ser quem se é. É o medo de que os outros irão dizer que nos impede de agirmos autenticamente além, é claro, do jugo educacional que nos condicionou a esta existência medíocre de encarar a vida. É isto que torna o medo um sentimento tão complexo em que toda a inferioridade é sentida inevitavelmente como senso de culpa; por isso da afirmação: somos todos culpados.

Por conseqüência, nossas escolhas tendem a ser mais uma imposição externa, das expectativas e julgamentos dos outros, do que minha própria liberdade em ação, pois se agir de acordo com minha consciência, poderia decepcionar alguém ou sentir-me-ia tomado de remorsos.

Essa culpa transparece mais claramente na relação entre ação e intenção, na relação antagônica entre o que eu quero e o que querem de mim, enquanto ser social. Contudo, isso não se relaciona somente a atos morais e éticos, mas principalmente a maneira como me enxergo e me movo no mundo. A razão de existirem, por exemplo, diversas igrejas e religiões hoje em dia se dá pela influência com que cada um recebe ao procurar, a partir de um texto sagrado, encontrar uma verdade que seja absoluta e igualmente aplicável em todas as épocas e em qualquer circunstância. Na verdade o que acontece é que temo que o eu que vive em mim seja descoberto pelo outro e nos demos conta de que desejos criminosos, imagens obscenas e condutas lascivas possam fazer parte de nós. No fundo, é nossa própria natureza que gostaríamos de extirpar ou aceitá-la de vez; independente da escolha, sentiremos angústia e culpa. Aqui posso afirmar que essa culpa não é mais de ordem moral ou de um pecado original cometido há séculos atrás, mas de uma culpa bem mais intensa e visceral: é a culpa de existir, de se estar vivo, afinal.

Essa culpa é assim sentida porque ela se nutre não dos maus atos cometidos, mas do bem que se deixou de fazer, como se vivêssemos sempre na obrigação de aproveitar o tempo com algum empreendimento, com alguma obra, com algum projeto. E, para aliviar essa constatação, não poucas vezes, vivemos a vida com uma lista infindável de deveres, gabando-nos do “dever cumprido”. Desse modo podemos nos ocupar e nos justificar e, por tabela, julgar os outros que não se enquadrem em nossa “lista de deveres”, em nossa maneira de perceber e experienciar a vida. Assim, usamos um mecanismo bastante conhecido de todos: a fuga. Uma fuga que é mais inconsciente do que consciente. No fundo, conclui-se que essa culpa é sentida por causa de que “existo”. O suicida sente essa verdade tão fortemente que deixar de existir não se configura um crime, mas um favor a ele e aos outros, já que, aparentemente, ele não conseguiu ser fiel a si mesmo nem contentou os que dele esperavam mais.

O problema é que todos arrogam a si o conhecimento do certo e errado absolutos, do julgamento de Deus, e se colocam acima dos outros como juízes implacáveis e instrumentos infalíveis da justiça divina no mundo! Aí a mensagem de amor e salvação é transformada em cólera e agressividade e transformam a pureza de caráter em angústia e a bondade em hipocrisia.

Contudo, como não julgar o outro? O simples querer ajudar ou aconselhar, como dito anteriormente, conduz-nos a um papel de árbitro que nos envolve na culpa de estarmos constantemente a julgar os outros. O sentir-se mal compreendido nada mais é do quê sentir-se julgado pelos outros por algo que ele considera inocente. Portanto, se todos têm medo uns dos outros é porque sentem a culpa de julgarem e de serem julgados. Mas todos nós nos defendemos e nos justificamos como não tendo esse ou aquele erro, medo ou culpa. De fato, alguns podem procurar enganar-se a si mesmos ao demonstrar uma virtude que realmente não possui. Eu mesmo me comprazia em ser admirado e louvado por meus pais e professores em ser um filho e aluno obediente e submisso, mas este era um mecanismo que possuía para enganar-me de modo que somente paralisei grande parte de minha individualidade em prol de um falso bem-estar que eu proporcionava aos outros em ser aquilo que esperavam que eu fosse, em detrimento do que eu era ou queria ser realmente, pois se tivesse sido forte o suficiente teria me rebelado a tal circunstância; mas por ter sido fraco, submeti-me como que num mecanismo de defesa, encobrindo uma revolta recalcada, prenhe de culpa e angústia, que só veio a eclodir mais tarde.

A dialética religiosa se vale da atitude comum de muitos se esconderem atrás de uma autoridade, normalmente um texto sagrado, enxergando aí uma fonte de justificativas sagradas, um conjunto hermético de proibições e prescrições cuja observância nos asseguraria uma existência sem culpas. Porém, é justamente o contrário que ocorre, como tais mandamentos não podem ser obedecidos, resultam num desespero e numa culpa maior ainda. Isso é assim porque toda a ética e toda moral parece sempre residir na ação, no que foi feito. No cristianismo, contudo, essa realidade é inversa (ainda que muitos seguidores insistam em viver um legalismo disfarçado); nele as exigências morais não são aplacados pela conduta correta, mas pelo reconhecimento dessa incapacidade. Falando psicologicamente significaria dizer que somente a pessoa que se entrega a essa existência, que se assume enquanto indivíduo no mundo, com todos os seus nuances e incongruências, vê-se perdoado da culpa e, conseqüentemente, livre de julgar e de se auto-justificar constantemente, como bem descreve o psiquiatra suíço Paul Tournier:

“O sentido do sermão do Monte não será o de uma receita para se libertar da culpa por uma conduta meritória. Muito pelo contrário. É a palavra que abala, que sacode, que convence de morte aquele que não matou; de adultério aquele que não o cometeu; de perjúrio aquele que não perjurou; de ódio aquele que se vangloriou no amor, e de hipocrisia aquele que era conhecido por sua piedade.” (Pág.: 139)

Com isso o autor procura fazer-nos perceber que o real problema não é o apego e a prática de obras virtuosas mas o desenvolver da responsabilidade por nossos atos. Para ser mais claro: pecado e culpa são sinônimos de uma vida dividida, sem convicção.

Os seres humanos, quando confrontados entre a escolha de assumirem sua autonomia e individualidade ou se conformarem com a sugestão coletiva e condicionante da sociedade, vêem-se perdidos e angustiados. Todo esforço, toda boa vontade e boa ação não eliminam o mal e a culpa que persistem, perpassam e a tudo contaminam. Segue que a solução para a culpa não é o moralismo nem a auto-justificação ou o virtuosismo, solução para a culpa é tornar-se consciente dela. Pois a culpa reprimida e não assumida, a existência insalubre e despropositada é sentida sempre como castigo, maldição e abandono – é o desespero humano, do qual discorreu exaustivamente o filósofo Kierkegaard – que configura-se em querer ser “eu mesmo” apesar “dos outros”, um desespero maior ainda quando há o reconhecimento da responsabilidade que nos despedaça ao exigir de nós escolhas éticas que temos de realizar em meio às contradições na qual nos encontramos

No nível mais fundamental, essa culpa resulta de nossa impotência em sermos senhores de nós mesmos, de conseguirmos equilíbrio entre o ser racional e o ser passional que carregamos dentro de nós. Esse equilíbrio somente é conseguido na aceitação de nossa culpabilidade, de nossa vulnerabilidade. Somente aquele que está consciente de sua situação no mundo e que não procura em regras e ordens externas a solução para sua angústia íntima alcança alegria, inteireza e segurança – perdoa-se.

  1. 
    DA CULPA
     
    Vivemos sob crítica e julgamentos.
    Essa crítica e essa sensação permanente de culpa relaciona-se à maneira como nos envolvemos uns com os outros.

    Sensação permanente de culpa? Na minha visão a pessoa que sofre disso deve buscar ajuda especializada com psicólogos, psiquiatras, médicos. Pois, parece evidente que essa pessoa tem problemas. Por isso, em que pese o respeito e a amizade que nutro pelo autor, ouso discordar dessa afirmação. Aliás, colocar a responsabilidade de uma “sensação permanente de culpa” nos “outros” parece-me uma típica (auto-justificação).

    Essa faceta da psique humana, esse sentimento de incompletude e de inferioridade inicia-se, desde cedo, ainda na forma como fomos educados – em casa e na escola – pois a educação nada mais é do que o exercício da repreensão, da repressão, da conformidade e do condicionamento.

    Acho que é preciso ter um pouco mais de profundidade. Explico. Os termos “repreensão” “repressão” “conformidade” e “condicionamento” por si não carregam um sentido bom ou mau. Dessa forma atribuir a educação como o emprego das forma retromencionadas me parece que destaca o sentido pejorativo das expressões. E considerando a educação. Se observarmos um aluno agredindo seu colega não devemos “repreendê-lo”? Não devemos buscar “reprimir” os atos de violência e intolerância? No que tange a questão da “conformidade”e do “condicionamento” eu penso que até é possível um flexibilidade. Acho que as coisas não devem ser aceitas na base do: “porque sim e pronto!” explicações fundamentadas levam a compreensão. O não conformismo pode ser sob certo aspecto uma virtude (se por exemplo considerarmos que alguém o exerça contra o regime ditatorial e desumano) mas o mesmo inconformismo, vira uma rebeldia sem causa quando se rebela contra conhecimentos e convenções que tiveram uma razão de ser. Não estou defendendo a perpetuação da comodidade, pelo contrário acho que o questionamento leva a evolução, mas essa atitude não-comodista também deverá ser pautada e buscada dentro do bom senso.

    Todos estão prontos a julgar a criança se ela é “bem” ou “mal” educada.

    E todos só poderão julgar levando em consideração o conhecimento que detém. Por isso que todo julgamento é de certa forma parcial.

    educação”, pesa sobre a criança justamente porque, para ela, é a reputação dos pais que está em jogo; assim inicia-se um processo que perdurará por toda sua vida ao sentir-se constantemente culpada se vier envergonhar seus pais com a mínima “falta de educação”.

    Acho que aqui há também de se fazer algumas ponderações. É óbvio que os pais irão exigir o empenho do seu(s) filho(s). E é natural que a gente se sinta desapontado quando um filho não age de acordo com a educação que a gente lhe passou. O que nem sempre ocorre da melhor forma é a reação. Aqui também devemos verificar que poderá haver uma pluralidade de situações. Por exemplo: Imaginemos que uma criança dispute uma competição desportiva e não consiga o primeiro lugar. Claro que seus pais gostaria de ver seu filho sendo campeão. Todavia, isso não ocorrendo não entendo como uma reação adequada os pais baterem, desmoralizarem ou humilharem a criança por ela não ter conseguido o posto mais alto. Com certeza esse ato irá trazer consequências danosas para essa criança. Situação diferente ocorre quando os pais são chamados na escola por seu filho ter atirado uma classe no professor, ou ter humilhado outro colega pela raça, cor e até crença. Nesses casos, cabe aos pais sim uma postura ativa. Onde tomem as medidas necessárias para repreender a criança. Quando falo em repreensão não estou limitando a um castigo físico, ou algum tipo de chantagem psicológica. Penso que uma repreensão inclui um conjunto de atos. Talvez seja necessário sim dar umas palmadas. Quem sabe retirar alguns dias da atividade favorita da criança. Mas acima disso, deve se buscar um diálogo explicando as razões de aquilo estar ocorrendo. A criança deve saber o que ela fez de errado e porque aquilo é errado. Como eu falei antes deve haver a compreensão da situação.

    Nesse ínterim, a escola leva em conta não as qualidades que porventura venha a desenvolver, mas as deficiências, na falta, na insuficiência. A educação, vista por esse ângulo, é uma ferramenta de perpetuação e projeção dos medos, preconceitos, problemas e culpas que os adultos, inadvertidamente, reproduzem nas crianças.

    Não obstante eu discorde de alguns pontos sobre a metodologia adotada pelas escolas, penso que há um certo equívoco aqui. Pois cumpre ao educador proporcionar os meios para que os alunos aprendam o conteúdo que foi programado. E aqui há sim a necessidade de uma delimitação daquilo que será ensinado, pois é inviável a inclusão de todas as “matérias e ou lições que poderiam ser importantes para o aluno”. Por tal motivo, é pensado uma grade de conteúdo que deve abranger um “X” de disciplinas e conteúdos. Dentro desse conteúdo programático, não se pode mais pensar o papel ultrapassado daquele professor que tinha só a obrigação de passar o conteúdo. Hoje o professor, principalmente nos primeiros anos do ensino, tem um atribuição maior, de maneira que não só cabe a ele passar o conteúdo, mas verificar como cada aluno assimila o conteúdo, tentando – se possível suprir a deficiência de algum aluno, objetivando que a turma de forma hegemônica consiga apreender todo o conteúdo – claro que isso é uma utopia, mas por ser uma tarefa quase impossível não quer dizer que não deva ser tentada. Penso que o prejuízo por parte dos alunos seria muito maior se o professor ignorasse a deficiência de alguns aluno e simplesmente ao final do ano reprovasse-os.

    Isso gera um ciclo vicioso perigosíssimo, pois muitos pais ao restringirem a individualidade e ao criticarem a autonomia de seus filhos estão instigando-os a realizar uma escolha absurda: ou optam entre a culpa de seguir seus desejos individuais e autênticos em detrimento às observações e reprimendas dos pais, ou segue o conselho paterno e vive na ansiedade em não ter sido ou ter feito aquilo que se queria fazer/ser.

    A questão está no limite. Onde se define o limite entre respeitar a individualidade de uma pessoa e deixar ela crescer sem entender que no mundo existem regras? Pois não se deve esquecer que apesar de cada ser humano ser um único e individual, devendo ter sua individualidade respeitada. Essa individualidade é limitada por um preceito maior que é a coletividade. Então a individualidade de cada pessoa é limitada pelo direito da coletividade. Uma criança que cresça tendo apenas a sua individualidade respeitada, não conhecerá limites. Aliás, falando nisso a poucos dias ainda vi um filme com o Adan Sandler onde ele resolve adotar um menino e criar deixando ele viver e fazer o que bem entender (respeitado a individualidade da criança) o que ocorre é que o menino simplesmente ignora toda e qualquer coletividade desrespeitando colegas e pessoas. Pessoalmente eu penso que essa “autonomia” é progressiva. Ou seja, enquanto criança essa autonomia é pequena, a margem discricionária será bastante restrita. Em suma “criança não tem querer” os pais tem(deve ter) maior discernimento para fazer as escolhas pela criança. Todavia, com o passar do tempo a o jovem deve aprender que se quiser buscar suas próprias opiniões deverá ter embasamento para isso e também deverá arcar com o ônus que possa decorrer de suas decisões. Aos pais cabe, no meu ponto de vista, respeitar certas decisões. O que ocorre é que por vezes, os pais ou proíbem essa autonomia (mas isso por um certo tempo a não ser que o jovem, quando já adulto seja sempre dependente dos pais) ou ainda pior, deixando os filhos tomar as decisões, mas quando algo dá errado não deixam que eles sofram as consequências da decisão que foi tomada de forma equivocada.

    E aqui entra a questão do conselho. Conselho nada mais é do que uma forma dissimulada de falar que a maneira como se está procedendo não é a “correta” ou “adequada”.

    Depende. Muitas vezes o “conselho” nos é pedido. Então se ele é requerido por alguém não há uma outra posição contra qual “o conselho” está se contrapondo. Diferente da pessoa que “oferece” um conselho. Mas indo além… E se o “conselho” for útil? Opinar acerca de ações é algo errado? Ou ainda se a pessoa que “aconselha” tem grande certeza acerca daquilo que diz? Poderíamos dizer que o conselho é algo ruim? De fato o conselho não tira a responsabilidade da decisão e talvez isso incomode quem receba o “conselho”. Mas o fato que incomoda não será justamente este? O fato de que é ela (a pessoa) que será a responsável pela decisão final? Será que as pessoas não querem mesmo é escapar da responsabilidade? Não será por isso que buscam tantas justificativas em outras coisas para os fracassos pessoais?

    Isso, na cabeça daquele que está sendo “aconselhado”, soa como uma dúvida inquietante de saber se ele, por si só, seria ou não capaz de encontrar a conduta mais conveniente. Cotidianamente somos bombardeados com críticas mútuas, principalmente dentro da família, de modo que nem nos apercebermos disso, pois a crítica suscita a culpa que será aliviada numa outra crítica ou numa auto-justificação.

    Devemos compreender que há formas de se fazer uma crítica. Da mesma maneira que cada pessoa recebe e lida com a crítica de forma diferente. Alguns veem nela a oportunidade de melhorarem alguma coisa. Outros levam ela para o lado pessoal, como uma ofensa. Claro, que como dito alhures isso depende da forma com que a crítica é feita.

    Se tivesse de fazer aqui uma afirmação universal repetiria o que escrevi no início deste, a saber: que todos nós somos culpados.

    Acho que alguma doutrina já tratou de afirmar que todos nós somos culpados! Heheheh chegou atrasado.

    Pois a culpa, em última análise, é não ousar ser quem se é.

    Bah… essa afirmação é muito impactante! Será mesmo que o significado da culpa é ousar ser que sé é? Acho que a isto damos o conceito de originalidade/autenticidade. Não ousar ser quem/o que se é pode ser classificado como: conveniência, interesse, falsidade, que de alguma maneira poderíamos classificar como falta de personalidade.

    É o medo de que os outros irão dizer que nos impede de agirmos autenticamente além, é claro, do jugo educacional que nos condicionou a esta existência medíocre de encarar a vida.

    Então não é a culpa! O medo de desagradar os outros está ligado diretamente aos nossos interesses. O homem é um animal político! Ele irá construir suas relações levando em consideração não apenas o resultado imediato, mas, também aquele a longo prazo (sim somos falsos!). Mas se pararmos para pensar na possibilidade de um mundo de total sinceridade… Tem um filme que acho interessante que trata disso chama-se O primeiro mentiroso. Acho que lá de certa forma fica demonstrado que há mentiras e mentiras. E nesse contextos vemos que a política que o homem adota tem uma razão de ser.

    É isto que torna o medo um sentimento tão complexo em que toda a inferioridade é sentida inevitavelmente como senso de culpa; por isso da afirmação: somos todos culpados.
    Por conseqüência, nossas escolhas tendem a ser mais uma imposição externa, das expectativas e julgamentos dos outros, do que minha própria liberdade em ação, pois se agir de acordo com minha consciência, poderia decepcionar alguém ou sentir-me-ia tomado de remorsos.

    Nossas escolhas serão um imposição externa se não desejarmos nós mesmas tomá-las. Aliás, essa me parece mais uma fuga da responsabilidade pelas decisões. Dizer que tomamos decisões por “culpa” dos outros, busca nos libertar da responsabilidades das decisões tomadas. Eu me oponho veementemente a essa interpretação. As decisões são minhas, as escolhas devem ser minhas, a responsabilidade será minha assim como ou louros ou as consequências. Isso é viver com altivez na minha opinião.

    Essa culpa transparece mais claramente na relação entre ação e intenção, na relação antagônica entre o que eu quero e o que querem de mim, enquanto ser social. Contudo, isso não se relaciona somente a atos morais e éticos, mas principalmente a maneira como me enxergo e me movo no mundo. A razão de existirem, por exemplo, diversas igrejas e religiões hoje em dia se dá pela influência com que cada um recebe ao procurar, a partir de um texto sagrado, encontrar uma verdade que seja absoluta e igualmente aplicável em todas as épocas e em qualquer circunstância.

    Dito sem eufemismo. Cada um acredita naquilo que é conveniente. Ou seja, tem uma religião que eu posso usar minissaia e sair pra balada, encher a cara. Se quero isso, irei arranjar argumentos que me convençam e convençam os outros de que aquela é uma boa religião. Por isso que acho que posso descartar isso.

    Na verdade o que acontece é que temo que o eu que vive em mim seja descoberto pelo outro e nos demos conta de que desejos criminosos, imagens obscenas e condutas lascivas possam fazer parte de nós.

    Foi dai que Nietzsche afirmou que: A “mordida” da consciência é indecente.

    No fundo, é nossa própria natureza que gostaríamos de extirpar ou aceitá-la de vez; independente da escolha, sentiremos angústia e culpa.

    Não sinto nem angústia e nem culpa. Sinto liberdade e leveza.

    Aqui posso afirmar que essa culpa não é mais de ordem moral ou de um pecado original cometido há séculos atrás, mas de uma culpa bem mais intensa e visceral: é a culpa de existir, de se estar vivo, afinal.

    Eu não sinto essa culpa. Eu fico bem feliz de existir ainda que minha existência na face terrestre seja completamente efêmera se comparado com a existência do ser humano.

    Essa culpa é assim sentida porque ela se nutre não dos maus atos cometidos, mas do bem que se deixou de fazer, como se vivêssemos sempre na obrigação de aproveitar o tempo com algum empreendimento, com alguma obra, com algum projeto.

    Isso vai de sua doutrina. Há pessoas que não tem essa preocupação. E é nesse aspecto que penso que a ignorância é uma benção. Pois quanto mais ignorante a pessoa é menos complexo ela vê o mundo e a si mesma. Com o desenvolvimento intelectual começa a surgir as dúvidas, os questionamentos, essa “tortura” de verificarmos cada vez mais a complexidade de nossos atos individuais e coletivos. Mas é um caminho sem fim, Depois de dado o primeiro passo não há como voltar atrás. E com o tempo nos acostumamos ou damos cabo a nossa vida hehehe.

    E, para aliviar essa constatação, não poucas vezes, vivemos a vida com uma lista infindável de deveres, gabando-nos do “dever cumprido”. Desse modo podemos nos ocupar e nos justificar e, por tabela, julgar os outros que não se enquadrem em nossa “lista de deveres”, em nossa maneira de perceber e experienciar a vida.

    Ai reside o equivoco. Para alguém que viveu sua vida no campo. Alguém afirmar que passou 20 anos de sua vida lendo e estudando para ter seu doutorado não vai representar muita coisa. O problema é querer transferir/impor o “seu” conceito de felicidade e realização para as outras pessoas. Ou pensar que elas devam atribuir a mesma valorização que você atribui.

    Assim, usamos um mecanismo bastante conhecido de todos: a fuga. Uma fuga que é mais inconsciente do que consciente. No fundo, conclui-se que essa culpa é sentida por causa de que “existo”. O suicida sente essa verdade tão fortemente que deixar de existir não se configura um crime, mas um favor a ele e aos outros, já que, aparentemente, ele não conseguiu ser fiel a si mesmo nem contentou os que dele esperavam mais.

    O suicida é uma pessoa doente ou covarde. Pois não há bola de cristal para saber o que irá acontecer amanhã então o que justifica abrir mão da vida? Quem perece sem ao menos lutar com todas as forças é covarde. Não vejo isso de outra forma.

    O problema é que todos arrogam a si o conhecimento do certo e errado absolutos, do julgamento de Deus, e se colocam acima dos outros como juízes implacáveis e instrumentos infalíveis da justiça divina no mundo! Aí a mensagem de amor e salvação é transformada em cólera e agressividade e transformam a pureza de caráter em angústia e a bondade em hipocrisia.

    Se não sabemos quem é o “detentor” da verdade, como se poderá afirmar que a mensagem que você acredita ser de amor e salvação é verdadeira? Continuo achando que “as mensagens de salvação” de quais forem as crenças sempre serviram mais para “condenar” do que salvar.

    Contudo, como não julgar o outro? O simples querer ajudar ou aconselhar, como dito anteriormente, conduz-nos a um papel de árbitro que nos envolve na culpa de estarmos constantemente a julgar os outros.

    Eu não sinto culpa de julgar ninguém. O julgamento é uma expressão de opinião. É algo natural do ser humano. Não se deve esquecer apenas que como dito lá no início do texto cada um julga qualquer coisa limitado pelo conhecimento que carrega. Querer que o julgamento ultrapasse esse limite. Aí reside o erro.

    O sentir-se mal compreendido nada mais é do quê sentir-se julgado pelos outros por algo que ele considera inocente. Portanto, se todos têm medo uns dos outros é porque sentem a culpa de julgarem e de serem julgados.

    Meu que coisa doida! Se todo mundo tivesse esse medo todo não sei se seria algo bom ou ruim. Ou viveríamos em uma nação pacífica de covardes, ou em uma nação despedaçada de miseráveis. E ainda não consegui entender essa “culpa” que hora é medo ora é culpa. Tá meio confuso essas suas conclusões.

    Mas todos nós nos defendemos e nos justificamos como não tendo esse ou aquele erro, medo ou culpa. De fato, alguns podem procurar enganar-se a si mesmos ao demonstrar uma virtude que realmente não possui. Eu mesmo me comprazia em ser admirado e louvado por meus pais e professores em ser um filho e aluno obediente e submisso, mas este era um mecanismo que possuía para enganar-me de modo que somente paralisei grande parte de minha individualidade em prol de um falso bem-estar que eu proporcionava aos outros em ser aquilo que esperavam que eu fosse, em detrimento do que eu era ou queria ser realmente, pois se tivesse sido forte o suficiente teria me rebelado a tal circunstância; mas por ter sido fraco, submeti-me como que num mecanismo de defesa, encobrindo uma revolta recalcada, prenhe de culpa e angústia, que só veio a eclodir mais tarde.

    Mea-culpa. O fato de você talvez não ser quem realmente era também se deveu ao fato de querer deixar seus pais/amigos/irmão/professores felizes. Limitar nossa individualidade, quando essa trás alguma felicidade a pessoas que nos são importante não parece uma crueldade tão grande. Aliás, eu diria que aí reside um pouco do tão falado “altruísmo”. Todavia, não podemos nos esquecer do equilíbrio. Se levarmos nossa vida pesando só nas outras pessoas deixaremos de ser quem somos e consequentemente seremos infelizes. Se vivermos só como queremos, consequentemente iremos provocar inúmeros desgostos (desnecessários) nas pessoas que amamos e seremos individualistas egocêntricos. Como já diziam os antigos filósofos a melhor escolha é o “justo meio”. Não magoar desnecessariamente, mas saber viver bem, mais cedo ou mais tarde iremos tomar decisões que irão poder desagradar a alguém. E ter coragem para fazê-lo e assumir as responsabilidades.

    A dialética religiosa se vale da atitude comum de muitos se esconderem atrás de uma autoridade, normalmente um texto sagrado, enxergando aí uma fonte de justificativas sagradas, um conjunto hermético de proibições e prescrições cuja observância nos asseguraria uma existência sem culpas.

    É o velho problema que sempre digo: Os textos são objetivos (leis) ou subjetivos (devem ser interpretados) se são subjetivos como saber que a interpretação dada é a correta?

    Porém, é justamente o contrário que ocorre, como tais mandamentos não podem ser obedecidos, resultam num desespero e numa culpa maior ainda. Isso é assim porque toda a ética e toda moral parece sempre residir na ação, no que foi feito. No cristianismo, contudo, essa realidade é inversa (ainda que muitos seguidores insistam em viver um legalismo disfarçado); nele as exigências morais não são aplacados pela conduta correta, mas pelo reconhecimento dessa incapacidade.

    A religião cristão é impraticável! Se por um momento um cristão (que conhece a religião que segue – o que já dá pra considerar um milagre) refletir honestamente verá que ele já cometeu algo que lhe condenará quando chegar a hora de “prestar contas”. É por isso que Nietzsche afirmou que: “O único cristão de verdade morreu na cruz”. O mais bizarro é que os cristãos defendem como verdadeiro uma crença em que eles estão condenados. Mas pergunte para eles se eles acreditam que estão condenados? A resposta será que não! Eles vão buscar alguma (interpretação/justificativa) no texto sagrado, ou algo que não existe e é inventado pela própria cabeça deles, algo que lhe absolva na hora final. É uma maluquice sem fim. E dai não querem que outras pessoas achem graça disso.

    Falando psicologicamente significaria dizer que somente a pessoa que se entrega a essa existência, que se assume enquanto indivíduo no mundo, com todos os seus nuances e incongruências, vê-se perdoado da culpa e, conseqüentemente, livre de julgar e de se auto-justificar constantemente, como bem descreve o psiquiatra suíço Paul Tournier:
    “O sentido do sermão do Monte não será o de uma receita para se libertar da culpa por uma conduta meritória. Muito pelo contrário. É a palavra que abala, que sacode, que convence de morte aquele que não matou; de adultério aquele que não o cometeu; de perjúrio aquele que não perjurou; de ódio aquele que se vangloriou no amor, e de hipocrisia aquele que era conhecido por sua piedade.” (Pág.: 139)

    Pois é. Falta saber é se o texto sagrado é objetivo ou subjetivo. E se for subjetivo… bem tem aquele outro probleminha né… como você disse o trecho acima é a interpretação do Sr. Paul Tournier. Já os inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger em 1484, quando escreveram o Malleus Maleficarum interpretaram que a passagem: “à feiticeira não deixarás viver”(Ex 22,18) era o princípio bíblico que autorizava a matança de inúmeras mulheres consideradas bruxas. Interpretações são sempre perigosas. Com um deus de inteligência infinita correria esse risco? Porque ele escreveria algo que pudesse ser interpretado de forma prejudicial? Perguntas que não podem ser respondidas.

    Com isso o autor procura fazer-nos perceber que o real problema não é o apego e a prática de obras virtuosas mas o desenvolver da responsabilidade por nossos atos.

    Eu não precisei de nada disso para afirmar que a responsabilidade é o ponto.

    Para ser mais claro: pecado e culpa são sinônimos de uma vida dividida, sem convicção.
    Os seres humanos, quando confrontados entre a escolha de assumirem sua autonomia e individualidade ou se conformarem com a sugestão coletiva e condicionante da sociedade, vêem-se perdidos e angustiados. Todo esforço, toda boa vontade e boa ação não eliminam o mal e a culpa que persistem, perpassam e a tudo contaminam. Segue que a solução para a culpa não é o moralismo nem a auto-justificação ou o virtuosismo, solução para a culpa é tornar-se consciente dela. Pois a culpa reprimida e não assumida, a existência insalubre e despropositada é sentida sempre como castigo, maldição e abandono – é o desespero humano, do qual discorreu exaustivamente o filósofo Kierkegaard – que configura-se em querer ser “eu mesmo” apesar “dos outros”, um desespero maior ainda quando há o reconhecimento da responsabilidade que nos despedaça ao exigir de nós escolhas éticas que temos de realizar em meio às contradições na qual nos encontramos.
    No nível mais fundamental, essa culpa resulta de nossa impotência em sermos senhores de nós mesmos, de conseguirmos equilíbrio entre o ser racional e o ser passional que carregamos dentro de nós. Esse equilíbrio somente é conseguido na aceitação de nossa culpabilidade, de nossa vulnerabilidade. Somente aquele que está consciente de sua situação no mundo e que não procura em regras e ordens externas a solução para sua angústia íntima alcança alegria, inteireza e segurança – perdoa-se.

    Eu acho que se as pessoas gostassem um pouco mais de filosofia ao invés de futebol e novela aprenderiam isso bem mais cedo. Enfim, para finalizar gostaria de parabenizar por um ano de blog. E ressaltar que a demora nos comentários se deve a minha “ferrugem” já que esse breve comentário me tomou praticamente boa parte da tarde. Cordialmente.
    H.Gil

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