Quanto Custa 1Kg de Carne?

Quando criança, na escola, sempre houve um tema constante e que se aprofundou em minha geração com o passar dos anos: ecologia. Primeiro, como identificando os diversos espaços naturais e seus múltiplos habitantes; depois, com os impactos ambientais decorrentes da atividade humana e, por último, maneiras de preservação em que termos como reciclagem, camada de ozônio e desperdício de água costumavam aparecer. Portanto, se você tem a mesma idade que eu, esse alarmismo referente ao aquecimento global, extinção em massa de animais e colapso da humanidade parece estranho: por que isso agora?

A resposta todos sabemos, mas poucos se importam realmente: a repetição de velhos hábitos de consumo estão na base de todo caos instaurado. Numa análise mais íntima: você é o/a culpado(a).

Sim, somos culpados(as), pois dentre todos os hábitos que praticamos diariamente, o mais nocivo e arraigado é o consumo de carne (qualquer tipo de carne). Todas as atividades econômicas que envolvem criação de animais para abate são fatores que geram a degradação ambiental que nos está levando à destruição do planeta. Para ser mais claro: quanto custa 1 Kg de carne, hoje? No Brasil, em média, um quilo de carne bovina representa:

• 10 mil metros quadrados de floresta desmatada

• consumo de 15 mil litros de água doce limpa

• emissão de dióxido de carbono diretamente na atmosfera

• emissão de metano na atmosfera

• despejo de boro, fósforo, mercúrio, bromo, chumbo, arsênico, cloro entre outros elementos tóxicos provenientes de fertilizantes e defensivos agrícolas, que se infiltram no solo e atingem os lençóis freáticos

• descarte de efluentes como sangue, urina, gorduras, vísceras, fezes, ossos e outros, que acabam chegando aos rios e oceanos depois de contaminarem solo e aqüíferos subterrâneos

• consumo de energia elétrica

• consumo de combustíveis fósseis

• despejo no meio ambiente de antibióticos, hormônios, analgésicos, bactericidas, inseticidas,

fungicidas, vacinas e outros fármacos, via urina, fezes, sangue e vísceras, que inevitavelmente

atingem os lençóis freáticos

• liberação de óxido nitroso, cerca de 300 vezes mais prejudicial para a atmosfera do que o CO2

• pesados encargos para os cofres públicos com tratamentos de saúde decorrentes da contaminação gerada pela pecuária

• gastos do poder público com infra-estrutura e saneamento necessário para equilibrar os danos causados pela pecuária

• custo dos incentivos fiscais e subsídios concedidos pelos governos estaduais e federal para a atividade pecuária

 

Tudo isso está presente em cada pedaço de churrasco que você comeu neste ultimo domingo. E, óbvio, nada disso é computado no balcão do açougue.

Se a legislação fosse rigorosa em relação à poluição gerada por esta atividade, o setor pecuário seria inviável pois seriam negados os incentivos e subsídios, além de serem cobrados os impostos integralmente e se os custos energéticos, o uso do recursos naturais e os danos ambientais fossem internalizados nos custos.

Você sabe, realmente, quanto custa 1 Kg de carne?

De todo o planeta, 12% de água doce se encontra no Brasil. Destes, 70% destina-se à agricultura. E mais da metade dessa agricultura destina exclusivamente à produção de ração animal! O relatório da Unesco para o Fórum Mundial da Água em 2004 revelou quanta água é usada, em média, para matar a sede se cada animal:

galinha = 0,1 litro/dia               peru = 0,2 litro/dia                   bode = 8 litros/dia

porco  = 15 litros/dia                boi = 35 litros/dia                    vaca leiteira = 40 litros/dia

Se levarmos em conta o asseio de uma vaca leiteira, esse índice sobre de 40 para 90 litros de água por dia. Em contrapartida, os pobres têm acesso a apenas 20 litros de água por dia!!!

Considerando que em torno de 70% da água doce mundial destina-se à agricultura e que da metade dessa produção vira ração de animais, exportar grãos ou carne significa, em última análise, exportar água – e de graça! Assim como, inversamente, produzir grãos e carnes em território alheio é poupar água em seu próprio território!

No Brasil, para cúmulo dos cúmulos (como sempre), 45% da água doce é despendida na pecuária, enquanto 45 milhões de pessoas não têm acesso à água potável. Além disso, enquanto para obter 1Kg de soja gasta-se 500 litros de água, para produzir o equivalente em carne bovina gasta-se até 15.00 litros de água. Também a quantidade de dejetos produzidos pelos animais é vetor da disseminação de doenças pois infecta os recursos hídricos e o solo com os coliformes fecais, hormônios e antibióticos. Senão, vejamos:

• Uma fazenda com 5 mil bovinos produz a mesma quantidade de excrementos de uma cidade com 50 mil habitantes.

• Uma vaca produz, por dia, cerca de 40 kg de esterco. E cada porco, entre 5 e 9 kg de urina e fezes, diariamente.

• Em alguns municípios de Santa Catarina a suinocultura é responsável por mais de 65% da emissão de poluentes. E o poder poluente dos dejetos suínos é cerca de 50 vezes maior que o do esgoto humano.

• Na região do sul do Brasil, a contaminação das fontes naturais de abastecimento de água por coliformes fecais chega a 85%.

Também o impacto ambiental sobre os solo é imenso: cada cabeça de gado precisa de, no mínimo, um hectare (10 mil m²) de pasto para engordar. No Brasil, já se contabilizam 200 milhões de cabeças e a pecuária ocupa mais de 250 milhões de hectares, quase um terço de todo território nacional! Esse um boi que ocupa esse espaço, num período de 4 a 5 anos, rende 210 Kg de carne. Nesse mesmo espaço de tempo e quantidade de terra produz-se, em média:

8 ton de feijão                                     19 ton de arroz                                    22 ton de maçã

23 ton de trigo                                     32 ton de soja                                      34 ton de milho

35 ton de cenoura                              44 ton de batata                                56 ton de tomate

É possível alimentar 40 pessoas com os cereais normalmente usados para gerar apenas 225g de carne bovina. Isso não te incomoda? Também é fato de quando existem as queimadas e a destruição da vegetação natural para o pastoreio ocorre a perda da biodiversidade local além de um aumento significativo de 4° C na temperatura do local. Só na Amazônia, por conta do avanço da atividade pecuária, as queimadas geram mais de 300 toneladas anuais de CO², o equivalente a dois terços do total emitido pelo país.

A ONU, através da FAO, relata: a criação de animais para o consumo humano é responsável pela destruição das florestas, pela desertificação, pela escassez da água, pela poluição do ar, pelas chuvas ácidas e pela erosão do solo.

Enquanto o país se entrega à falta de escrúpulos do colonialismo ambiental e faz avançar as fronteiras agrícolas e pastoris,ecossistemas são extintos, comunidades indígenas são dizimadas, pequenos agricultores são massacrados pelos latifúndios e o trabalho escravo é usado com freqüência; aliás, a atividade pecuária é a que emprega 62% de toda a mão-de-obra escrava existente hoje no país.

No fim, a conta é simples: metade da agricultura é voltada para a produção de ração animal. E a carne de animais abatidos é acessível a menos de 15% dos seres humanos. Uma fração irrisória – 0,3% – dos 465 milhões de toneladas de grãos utilizados para alimentar animais bastaria para salvar de desnutrição os 6 milhões de crianças com menos de 5 anos de idade que morrem anualmente. Uma parcela de 2,5% desse total seria suficiente para erradicar a fome no Brasil. Com  50% acabaria a fome no mundo!

Pela primeira vez parece que estamos coletivamente nos dando conta da enrascada em que nossos pais nos meteram e os quais insistimos em perpetuar: um padrão insustentável de consumo que o capitalismo nos impõe maciçamente através de um marketing cada vez mais elaborado. Se, porém, percebermos e agirmos contra essa aparente alienação do consumo, haverá a possibilidade não só de garantirmos a saúde do planeta, mas também de iniciarmos uma justa reforma agrária, da desconcentração de renda e da exclusão social, além de estreitarmos positivamente nossa relação com os demais seres vivos e com o planeta.

Afinal, quanto custa 1Kg de carne?

[Adaptado de “Aspectos sobre o meio-ambiente e o uso de animais na alimentação” publicada em: http://www.svb.org.br]

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